A Caminhada e o Raio que Caiu :: Por José Lima Santana
José Lima Santana*
Tonho de Zé Bezerra cismou de candidatar-se a governador. “O que é que tem, só porque eu não tenho nome de família abastada, só porque não sou político, como esses tapeadores do povo, que estão por aí, como Francisco Mendes, Edu Alvarenga e tantos outros, que vivem de enganar o povo com suas mentiras e safadezas? Pois fique sabendo o senhor, ‘seu’ Manoel Cardoso, que estou filiado ao Partido do Cidadão Brasileiro – PCB, e sou pré-candidato a governador, sim senhor”. Disse mais: “Só um raio que me parta pode me tirar da campanha que por aí vem”.
Assustou. A pré-candidatura de Tonho de Zé Bezerra assustou muita gente. As redes sociais entupiram-se. A imprensa chapa branca não deu ouvidos, propositalmente. Seria mais um doido a meter-se na política, onde só cabia gente endinheirada, oportunista e todo tipo de salafrário, aqui ou ali, raramente entrando alguém com boas intenções. Todavia, Tonho estava assustando. O secretário de comunicações do governo estava para perder a bola. O que fazer? Os marqueteiros da pré-campanha do governador, candidato à reeleição, começaram a mover-se, tirando as bundas das cadeiras, areando as ideias viciadas.
O próprio governador setentão deu para chiar. Aos mais chegados, mostrava um riso amarelo quando alguém tocava no nome de Tonho de Zé Bezerra. “Vou comer com coentro, essa reeleição. Vai ser no WO”. No íntimo, acautelava-se, roía unhas.
Um repórter de rádio saiu-se com esta: “O nome de Tonho vem crescendo mais ligeiro que um raio. E, como ele mesmo diz, só um raio de verdade poderá impedir a sua caminhada rumo ao Palácio”. Ora, raios não se fabricam. Se fossem fabricados, Tonho já teria se escafedido. No mundo da política suja, vale de tudo: facada, prisão, tiro na orelha, supostas raparigagens em vídeos e por aí afora. Mas, deveras, raios não se fabricam.
Conceição do Jaguaribe é um povoado pequenino, às margens da BR 7777, de casinhas pintadas de branco. Tradição do lugar. Ali nasceu Tonho de Zé Bezerra. Dona Donaninha, sua avó materna, é a zeladora da Capela de Nossa Senhora da Conceição. Nenhum padre conseguiu, até esta data, ter acesso à chave da Capela. “De minha mão ela só sai quando eu for desta para a outra”, vivia a repetir Dona Donaninha, zelosa e mandona. Pois bem. Foi dela a ideia para o neto fazer uma caminhada dali do povoado para a capital, cerca de 90 quilômetros de distância.
Tonho achou desinteressante a ideia da avó. Em princípio. Dias depois, em sonho, ele viu-se na caminhada, arrastando um bocado de gente de pé no chão. Entusiasmou-se. Foi à Rádio FM Taboca e anunciou a caminhada, marcada para o último domingo do mês. As mídias digitais não tiveram outro assunto mais quente do que aquele. Ninguém falou mais em Trump, o tresloucado dos States, nem na falta d’água corriqueira, nem na bagaceira do Banco Master, nem no casamento da neta do governador com um bicheiro do RJ. Nada. O assunto do momento era a caminhada de Tonho de Zé Bezerra, de Conceição de Jaguaribe à capital.
Até Cândida Lábios de Mel, festejada influenciadora digital, deixou de lado suas fofocas e coisas afins, para entrevistar mulheres sobre a caminhada de Tonho. Algumas abominaram. Eram as dondocas de shopping e de cartão de crédito na pendura. Outras deram o maior apoio. Algumas até participariam, quando a caminhada adentrasse nas ruas da capital. Muita muvuca.
Verdade que não apenas os bastidores da política passaram por grande assanhamento. A sociedade deixou-se tocar pelo destemor de um homem pobre, simples artesão, embora de renome em torno de sua arte, longe da política, que teve um arroubo momentâneo de candidatar-se a governador, por um Partido nanico, que não se vendia, não sendo, pois, uma das muitas siglas de aluguel, algo abominável.
Eis que chegou o dia da caminhada. Sexta-feira. Culminaria no domingo, na Praça principal da capital. Um jovem advogado, que se prontificou a assessorar Tonho de Zé Bezerra, fez as devidas notificações à PRF, à SSP e à SMTT da capital, para não ter que enfrentar encrencas.
A caminhada revelou-se um estrondoso sucesso. Gente, gente, gente. Um belo espetáculo de cidadania. À proporção que a marcha tomava o rumo da Praça principal, o céu foi escurecendo. Por volta das 11 horas, os tambores do céu tocaram com fúria. O céu afogueou. Dezenas, centenas de relâmpagos riscaram o espaço, como serpentes de fogo, rastejando ligeiras.
Súbito, um raio caiu. Certeiro. Atingiu Tonho de Zé Bezerra. Morte instantânea. Seiscentas e sessenta e seis outras pessoas foram feridas, com ou sem gravidade.
Na mesma noite, um vulto de aspecto macabro bateu à porta do governador. Foi receber o combinado pelo raio que caiu.
*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.