58 anos da UFS: qual universidade está em disputa? :: Prof.ª Dr.ª Silvana Aparecida Bretas
Prof.ª Dr.ª Silvana Aparecida Bretas – Vice-reitora da UFS*
Aos 58 anos, a Universidade Federal de Sergipe talvez tenha diante de si o maior desafio de sua história. Não porque lhe faltem prédios, cursos ou indicadores acadêmicos, mas porque o mundo ao seu redor mudou profundamente e de modo acelerado.
O que está em curso é uma reorganização global do poder econômico, tecnológico e científico. Inteligência artificial, plataformas digitais, semicondutores, controle de dados e produção de conhecimento tornaram-se elementos centrais das novas formas de dominação. Nesse cenário, países periféricos como o Brasil correm o risco de aprofundar uma condição histórica: exportar matérias-primas, importar tecnologia e consumir conhecimento produzido em outros centros de poder. A disputa contemporânea entre Estados Unidos e China não se limita ao comércio internacional, mas expõe tensões geopolíticas da transformação do mundo unipolar de hegemonia estadunidense para o multipolar em que o país asiático desponta sem cerimônia no mercado empresarial e bancário. A dependência contemporânea não é apenas econômica. Ela é também intelectual, tecnológica e cultural.
É nesse contexto que a universidade pública brasileira precisa ser pensada. E celebrar os 58 anos da UFS talvez exija menos homenagens protocolares e mais coragem para formular perguntas difíceis: qual projeto de universidade está em disputa hoje? A quem serve o conhecimento produzido? Que papel uma instituição pública deve cumprir em uma sociedade marcada pela desigualdade, pela concentração de renda e pela fragilidade de um projeto nacional de desenvolvimento?
Toda instituição acadêmica responde, consciente ou inconscientemente, às disputas de seu tempo. Quando a pesquisa é orientada exclusivamente por métricas internacionais, rankings globais e produtividade quantitativa, há o risco de que as universidades passem a reproduzir agendas externas, frequentemente desconectadas das necessidades concretas da população brasileira.
Isso não significa negar a importância da ciência internacional ou defender qualquer espécie de isolamento intelectual. O desafio é outro: construir capacidade autônoma de produção científica e tecnológica, articulada aos problemas nacionais e regionais.
No caso de Sergipe, isso implica perguntar: que conhecimento interessa ao Estado? Significa refletir sobre o papel da universidade diante das desigualdades educacionais, da pobreza persistente, dos desafios ambientais, da fragilidade industrial, da dependência econômica e das transformações do mundo do trabalho. Significa pensar a universidade não apenas como formadora de profissionais para o mercado, mas como instituição pública capaz de interpretar criticamente a realidade social e contribuir para transformá-la.
Ao longo de seus 58 anos, a UFS acumulou conquistas inegáveis. Ampliou o acesso ao ensino superior, interiorizou suas atividades, fortaleceu a pesquisa e a pós-graduação e permitiu que milhares de jovens, muitos deles sendo os primeiros universitários de suas famílias, ingressassem em espaços historicamente restritos às elites. A universidade pública brasileira continua sendo um dos mais importantes mecanismos de mobilidade social e democratização do conhecimento existentes no país.
Essas conquistas, no entanto, convivem com contradições profundas.
A expansão das universidades federais ocorreu, em grande medida, sob condições de subfinanciamento permanente. Cresceram os cursos, os campi, as demandas administrativas e acadêmicas, mas não na mesma proporção os investimentos estruturais. Intensificou-se o trabalho docente, precarizaram-se condições de permanência estudantil e ampliou-se uma lógica produtivista que transforma pesquisadores e professores em operadores de metas e indicadores.
Ao mesmo tempo, a universidade tornou-se alvo frequente de campanhas de deslegitimação pública. Em diferentes momentos recentes da vida nacional, instituições federais foram atacadas como espaços improdutivos, ideológicos ou distantes da sociedade. Tais ataques não são casuais. Eles revelam o desconforto histórico que o pensamento crítico provoca em sociedades profundamente desiguais.
Ainda assim, apesar das pressões políticas, econômicas e ideológicas, a universidade pública permanece como um dos poucos espaços institucionais capazes de produzir reflexão crítica relativamente autônoma no Brasil. É nela que continuam sendo desenvolvidas pesquisas estratégicas, políticas de extensão, formação de professores, produção cultural e iniciativas voltadas às necessidades sociais mais urgentes.
Por isso, celebrar os 58 anos da UFS não deveria significar apenas exaltar sua trajetória passada. O verdadeiro desafio talvez seja discutir seu futuro.
Em um país dependente, econômica e tecnologicamente, defender a universidade pública significa também defender soberania nacional. Não existe projeto autônomo de desenvolvimento sem ciência, sem produção própria de conhecimento, sem formação humanística e sem capacidade crítica. Uma nação incapaz de pensar com autonomia torna-se permanentemente subordinada às prioridades definidas por outros. A questão central, portanto, não é apenas quanto tempo a UFS resistirá, mas para que ela existirá nas próximas décadas: se servirá apenas à adaptação passiva do país às exigências do mercado global ou se continuará sendo espaço público de formação humana, pensamento crítico e compromisso social.
Talvez essa seja a reflexão mais necessária quando uma universidade pública completa 58 anos: compreender que sua importância não reside apenas no que já realizou, mas naquilo que ainda pode ajudar o Brasil a construir.
*Silvana Aparecida Bretas é pedagoga e doutora em Educação Escolar pela Unesp, mestre em Educação pela Unicamp e professora titular do Departamento de Educação da UFS. Foi Diretora do CECH/UFS e atualmente ocupa o cargo de Vice-reitora da Universidade Federal de Sergipe.