Dos EUA ao Sertão Sergipano: norte-americanos vivem rotina do MST com estudantes da UFS
Projeto inédito do Campus do Sertão e da Universidade do Novo México promoveu 12 dias de imersão na realidade de sete assentamentos O Campus do Sertão da Universidade Federal de Sergipe (CAMPUSSER/UFS) realizou, em parceria com a Universidade do Novo México (UNM) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entre os dias 1º e 12 de junho, o I Estágio Interdisciplinar e Internacional de Vivência (EIIV) em assentamentos de reforma agrária. Esta foi a primeira edição internacional do projeto da UFS, ampliando a compreensão da realidade agrária brasileira e os processos organizativos, produtivos e econômicos do campo pelos estudantes do Brasil e dos Estados Unidos. Durante os 12 dias de estágio, os estudantes foram acolhidos por famílias assentadas em sete assentamentos localizados em diferentes municípios de Sergipe, como São Cristóvão, Porto da Folha e Canindé de São Francisco. Eles compartilharam o cotidiano das comunidades, vivenciaram diferentes realidades rurais, trocaram experiências e participaram de variadas atividades produtivas, culturais e comunitárias. Segundo a representante do MST Sergipe no EIV, Rosa Oliveira, “as famílias ficam bastante contentes durante a vivência com os estudantes e partilham experiências organizativas que ultrapassam por vezes as expectativas programáticas. Ao mesmo tempo em que os estudantes conhecem na prática a luta pela Reforma Agrária, as famílias também se conectam com a história de cada jovem que acolhem”. Essa vivência possibilita vínculos de amizade e pode favorecer ações concretas de luta por alimentação, sustentabilidade e organização das mulheres. O Estágio Interdisciplinar de Vivência representou uma oportunidade única de aprendizado coletivo, promovendo a aproximação entre universidade e comunidade, valorizando os conhecimentos populares e reforçando a importância da educação como instrumento de transformação social. A experiência deixou marcas profundas nos participantes, que retornaram às suas instituições com novos conhecimentos e reflexões sobre a realidade do campo brasileiro. O estudante do curso de Medicina Veterinária, Eliomar Oliveira, relatou que o projeto foi marcante para sua formação acadêmica e humana, especialmente pela possibilidade de encontro com pessoas que participaram da luta pela implantação do Campus do Sertão da UFS. “Como estudante beneficiado por essa conquista, reconheço a importância desses movimentos sociais na democratização do acesso ao ensino superior e na ampliação das oportunidades educacionais para a população do interior. Essa experiência reforçou a importância da educação pública na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva”. Para a mestranda em estudos latinos-americanos e planejamentos comunitários da Universidade do Novo México, Ennedith Lopez, a experiência foi transformadora. “Nesta viagem, tive a oportunidade de aprender com o MST sobre como organizar melhor as nossas comunidades (povos indígenas, imigrantes e trabalhadores) por justiça e por um mundo mais pacífico e equitativo. Muitas comunidades nos receberam de braços abertos e nos mostraram o caminho para a verdadeira transformação social”. Para ela, um dos pontos mais importantes foi a troca intercultural entre brasileiros e estadunidenses. “Ensinamos uns aos outros inglês, espanhol e português e criamos amizades que durarão uma vida inteira”, enfatiza. Ao final do estágio, os coordenadores destacaram a importância de buscar apoio institucional e financeiro para possibilitar que futuros estudantes do Novo México participem do EIV, além de garantir a continuidade e o fortalecimento desse projeto nos próximos anos aqui no Brasil. Foi ressaltado que a interação entre os estudantes dos dois países foi um elemento muito positivo, sendo enfatizada a importância de manter os vínculos construídos ao longo do intercâmbio, incentivando a prática de idiomas, a troca de conhecimentos e o desenvolvimento de trabalhos e projetos colaborativos. O EIIV foi desenvolvido pelo Departamento de Educação em Ciências Agrárias e da Terra no Sertão (DECATS), sob coordenação das professoras Dayana Mezzonato Machado e Geusa da Purificação Pereira. Também contou com a colaboração do MST, representado por Rosa Oliveira e Natalice Scaramelo e da UNM, com coordenação de Andreas Hernandez e Daniela Montano. Histórico do EIV no Brasil O Estágio de Vivência surgiu no Brasil no fim da década de 1980, por meio do movimento estudantil das ciências agrárias, quando organizações estudantis identificaram a importância da universidade se comprometer com a complexidade das questões sociais. Ao longo dos anos, o estágio se tornou interdisciplinar, passando a ser chamado de Estágio Interdisciplinar de Vivência (EIV).