Aracaju (SE), 03 de agosto de 2026
POR: Ascom Fapese
Fonte: Ascom Fapese
Em: 03/08/2026 às 13:06
Pub.: 03 de agosto de 2026

Fapese administra projeto que fortalece formação de professores para atuação em comunidades quilombolas

Fapese administra projeto que fortalece formação de professores para atuação em comunidades quilombolas - Foto: Thiago Correia/Ascom Fapese

A formação de professores comprometidos com a realidade das comunidades quilombolas é um dos caminhos para fortalecer a educação, preservar saberes tradicionais e ampliar o acesso ao ensino superior. Em parceria com a Universidade Federal de Sergipe (UFS), a Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão de Sergipe (Fapese) administra mais um projeto estratégico voltado à qualificação profissional: a Licenciatura em Educação Escolar Quilombola, ofertada por meio do Programa Nacional de Fomento à Equidade na Formação de Professores da Educação Básica (Parfor Equidade). 

Ao realizar a gestão administrativa e financeira do projeto, a Fapese contribui para a execução de uma iniciativa que responde a uma demanda histórica das comunidades quilombolas sergipanas por uma formação específica para educadores que atuam nesses territórios. Mais do que ampliar o acesso ao ensino superior, o curso busca fortalecer uma educação comprometida com a identidade, a ancestralidade e os saberes tradicionais.

Segundo a coordenadora da licenciatura, professora Edineia Tavares Lopes, docente do Departamento de Química do Campus de Itabaiana e integrante da coordenação colegiada do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi/UFS), a criação do curso é resultado de anos de mobilização das próprias comunidades.

"Esse projeto nasce do anseio das comunidades quilombolas do Brasil e, de forma particular, das comunidades quilombolas de Sergipe. Há muito tempo elas demandam a formação de professores e professoras para atuar nessas escolas", explica.

Ela conta que, em 2019, a partir das discussões do Fórum de Educação Escolar Quilombola de Sergipe, uma das principais reivindicações apresentadas pelas comunidades era justamente a criação de uma formação inicial voltada à Educação Escolar Quilombola.

"Em 2023 foi publicado pelo MEC o edital do Parfor Equidade. Pela primeira vez surgiu a possibilidade de submeter um projeto para criar uma licenciatura em Educação Escolar Quilombola. Escrevemos a proposta, fomos contemplados e o curso passou a integrar a estrutura da universidade", destaca.

A formação foi concebida a partir de uma perspectiva pedagógica antirracista, intercultural e interdisciplinar. Para isso, o currículo é organizado por meio da pedagogia da alternância, metodologia que intercala períodos de formação intensiva na universidade com atividades desenvolvidas nas próprias comunidades.

"No tempo da universidade, os estudantes permanecem aqui estudando os componentes curriculares. Já no tempo comunidade, desenvolvem atividades vinculadas às suas escolas e aos seus territórios. É uma formação construída na relação entre o conhecimento científico, os conhecimentos tradicionais e a história de luta do movimento quilombola", explica Edineia.

Universidade e comunidade caminham juntas

Professora da licenciatura, quilombola do Quilombo Mocambo e docente da rede estadual, Daniela Melo afirma que a proposta rompe com um modelo de ensino que, historicamente, não contemplou as especificidades das comunidades quilombolas.

"A educação escolar quilombola não era trabalhada nessas escolas por falta de formação de professores. Foi essa demanda que fez com que o movimento quilombola se mobilizasse para que essa licenciatura acontecesse”, conta. 

Para ela, o diferencial do curso está justamente na valorização dos saberes produzidos pelas comunidades. "A gente trabalha os costumes, as tradições, a ancestralidade, os conceitos de raça, cultura, pluralidade e etnia. Trabalhamos com a realidade das comunidades quilombolas, com seus guardiões, seus saberes e seus fazeres. Essa é a diferença entre uma educação tradicional e uma educação escolar quilombola”, afirma. 

Daniela explica que a alternância fortalece o vínculo entre universidade e território. "Na universidade estudamos a teoria, os textos e os pesquisadores. Na comunidade colocamos em prática o que aprendemos aqui e também trazemos para a universidade os saberes e fazeres das comunidades, para que não exista uma dissociação entre esses espaços”, disse. 

Segundo a professora, os resultados já podem ser percebidos no comportamento dos estudantes. "A gente já vê a diferença de como esses alunos chegaram e de como hoje atuam dentro das próprias comunidades e nas escolas quilombolas. O impacto será uma educação voltada para as relações étnico-raciais, antirracista e anticolonial”, acrescenta. 

Formação para transformar territórios

Morador do Quilombo Mocambo, em Porto da Folha, o estudante Mário Santos afirma que a licenciatura representa uma oportunidade de devolver às comunidades os conhecimentos adquiridos na universidade.

"Carregamos a nossa ancestralidade e temos a oportunidade, através desse curso, de fazer a devolutiva para o nosso território, principalmente para aqueles que precisam fortalecer cada vez mais a nossa cultura”, explica o aluno. 

Ele destaca que a formação também representa o enfrentamento ao apagamento histórico vivido pela população negra. "Hoje evidenciar isso por meio da Licenciatura em Educação Escolar Quilombola tem uma significatividade muito grande. Estamos incumbidos de dar devolutiva para os nossos territórios aqui em Sergipe."

Para Mário, a transformação já começou. "Com esse conhecimento que estamos adquirindo através da licenciatura, estamos mais empoderados para devolver à nossa comunidade aquilo que aprendemos aqui."

A estudante Xifroneze Santos, do Quilombo Caraíbas, em Canhoba, coordenadora nacional da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), também integra a primeira turma do curso e define sua participação como um marco histórico.

"Para mim, significa desbravar uma política que ao longo da história foi negada. É o primeiro curso executado com uma educação específica para um público que teve sua história invisibilizada”, afirma. 

Ela acredita que a formação permitirá unir o conhecimento acadêmico aos saberes tradicionais das comunidades. "Vai nos qualificar dentro das exigências acadêmicas para colocar esse conhecimento em prática na comunidade. Muitas vezes diziam que não havia produção acadêmica sobre aquilo que nós já sabemos, que é sobre nós mesmos."

Compromisso com a educação e a inclusão

Ao administrar a Licenciatura em Educação Escolar Quilombola, a Fapese reafirma seu compromisso com a gestão de projetos que ampliam oportunidades de formação, fortalecem políticas públicas educacionais e promovem inclusão social.

Em parceria com a UFS, a Fundação contribui para transformar uma reivindicação histórica das comunidades quilombolas em uma política concreta de formação docente, fortalecendo a educação pública e preparando profissionais capazes de construir práticas pedagógicas conectadas à realidade, à cultura e à identidade dos territórios quilombolas de Sergipe.

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