Entre arte e função: como nasce um móvel com identidade
Designer com trajetória ligada à criação e ao desenvolvimento de produtos, Estevão Toledo
Designer reconhecido no mercado com trajetória ligada à criação e ao desenvolvimento de produtos, Estevão Toledo construiu sua atuação a partir de uma relação próxima com o universo da indústria e da produção de mobiliário. A experiência de acompanhar de perto a fábrica e seus processos influencia diretamente em sua maneira de criar: antes de desenhar uma peça, ele procura entender os materiais, as possibilidades técnicas, as pessoas envolvidas na produção e, principalmente, para quem aquele objeto será pensado.
A relação entre arte e design costuma gerar dúvidas, já que os dois campos compartilham referências, criatividade e linguagem visual. Mas, na visão do designer, existe uma diferença fundamental: enquanto a arte parte de uma expressão pessoal, o design precisa transformar uma ideia em algo que estabeleça uma relação com quem vai utilizá-lo.
“O artista não tem o compromisso de entregar um produto ou de responder a um público-alvo. Seu compromisso é com aquilo que pensa sobre determinado tema. Já o designer tem a responsabilidade de entregar algo ao mercado”, explica.
Isso não significa, porém, que o design deva simplesmente responder ao que o mercado já conhece. Para Toledo, uma das funções do designer é justamente perceber movimentos que ainda estão surgindo e traduzi-los em objetos.
“O designer precisa estudar e refletir muito, abstraindo ao máximo essa pesquisa para chegar a uma síntese. E essa síntese será o seu produto. Nosso papel é tentar antecipar esse futuro e concretizar esses produtos”, afirma.
No mobiliário, a ideia não existe separada da matéria. Uma referência pode vir da arte, da arquitetura, da natureza ou do comportamento, mas precisa encontrar uma forma possível de ser construída.
Por isso, Toledo considera fundamental conhecer a fábrica, os materiais, os equipamentos e as pessoas envolvidas na produção. Essa proximidade permite compreender os limites de cada processo, mas também identificar possibilidades que nem sempre aparecem no desenho inicial.
“Estudo profundamente as pessoas, o mercado e a própria fábrica: seu funcionamento, a matéria-prima, seus limites e características. Tudo isso para integrar esses elementos e modelar um produto equilibrado”, diz.
Foi a partir dessa abordagem que surgiu a parceria com a Mavie Móveis. O projeto, que inicialmente previa a criação de uma peça, evoluiu durante o processo e deu origem a uma coleção.
Para Tibeti Caviglioni, CEO da Mavie, a escolha de Toledo esteve justamente relacionada à possibilidade de unir uma visão autoral de design ao conhecimento sobre produção e aos desafios específicos do mobiliário.
“A escolha do Estevão aconteceu porque buscávamos um olhar que fosse capaz de trazer novas possibilidades para o mobiliário sem perder de vista a realidade da produção. Queríamos alguém que entendesse o produto como um todo, da ideia à execução, e que tivesse liberdade para questionar, experimentar e propor”, afirma Tibeti.
A aproximação também permitiu que o projeto fosse construído de maneira gradual. Em vez de partir de uma coleção previamente definida, as ideias foram amadurecendo ao longo do processo, até que uma primeira proposta se transformasse em um conjunto de peças, que além de duráveis, são únicas, coloridas e remetem à hospitalidade e ao descanso.
“Não consigo realizar nenhum trabalho sem colocar o coração nele. Como trabalho diretamente com a criação, é fundamental ter uma ligação especial e motivadora com quem encomendou o projeto”, conta Toledo.
Segundo o designer, a confiança entre quem cria e quem produz também é parte do processo. Ter espaço para experimentar, rever caminhos e amadurecer as ideias permite que o projeto se desenvolva de forma mais orgânica.
A transformação do móvel em um objeto de expressão acompanha uma mudança no próprio comportamento do consumidor. Ter uma peça confortável, resistente e funcional continua sendo essencial, mas esses atributos, isoladamente, já não explicam todas as escolhas.
Para Toledo, existe uma procura crescente por objetos que tenham alguma conexão com a personalidade de quem os escolhe.
“As pessoas procuram elementos que reflitam seu bom gosto e estilo de vida. Acredito que o mercado procura nos produtos aquilo com que se identifica. O ato de comprar também é uma forma de expressar um perfil”, afirma.
Nesse cenário, criar algo diferente não significa necessariamente apostar no excesso. A novidade precisa fazer sentido dentro de uma proposta estética e funcional.
“O mercado procura inovação, novidade e ousadia. Mas não se pode ousar de qualquer maneira. A ousadia sem critério conduz quase certamente ao erro”, observa.
A ideia ajuda a explicar por que algumas peças permanecem relevantes mesmo depois que determinada tendência deixa de estar em evidência. Para o designer, existe uma diferença entre criar algo chamativo e construir uma linguagem capaz de permanecer.
É também nesse ponto que a fronteira entre arte e design volta a aparecer. O móvel precisa cumprir sua função, mas pode, ao mesmo tempo, provocar uma sensação, despertar uma memória ou revelar uma escolha estética.
Ao falar sobre seu trabalho, Toledo não trata o móvel apenas como um produto acabado. Existe, para ele, uma dimensão humana no processo: a peça sai da fábrica, chega a um ambiente e passa a fazer parte da vida de alguém.
É essa continuidade que dá sentido ao trabalho do designer.
“Queremos compor a casa dos clientes com o mesmo afeto e dedicação que nasceram da nossa parceria, reverberando esse sentimento para a fábrica, para os trabalhadores e para os lares das pessoas”, afirma.
No fim, talvez a diferença entre arte e design não esteja apenas no resultado, mas na relação que cada um estabelece com o mundo. A arte pode questionar, provocar e expressar. O design precisa, além disso, encontrar uma maneira de existir no cotidiano.
E é justamente nesse espaço, entre a ideia e a matéria, entre a expressão e a função, entre o olhar do criador e a vida de quem vai usar, que um móvel pode deixar de ser apenas um objeto e ganhar identidade.
Sobre a Mavie
A Mavie Móveis é uma marca brasileira de mobiliário para áreas internas e externas, com fábrica própria em Campinas (SP). Nascida da experiência de mais de 15 anos como fornecedora de móveis para alguns dos principais players do mercado nacional, a empresa lançou sua marca autoral em 2023, unindo design contemporâneo, produção artesanal, personalização e alta qualidade. Atende consumidores finais, arquitetos, designers de interiores, paisagistas e clientes corporativos em todo o Brasil, desenvolvendo soluções para residências, hotéis, restaurantes, condomínios, incorporadoras, clubes e empresas. Com fabricação própria, garantia de cinco anos e foco em conforto, durabilidade e excelência construtiva, a Mavie transforma ambientes por meio de móveis pensados para acompanhar os momentos e as necessidades únicas de cada cliente.