Professor lança livro sobre saúde emocional de estudantes e o papel da escuta na educação
“Tiro de Misericórdia- O sonho da educação faz o professor” nasceu de uma experiência vivida pelo autor e aborda os desafios que vão além dos limites da sala de aula
Uma sala de aula nem sempre permanece restrita ao ensino de conteúdos. Uma pergunta, um momento de silêncio ou uma conversa após a aula podem mostrar que, por trás de um estudante, há alguém lidando com dificuldades que não aparecem em provas, notas ou atividades acadêmicas.
Foi a partir dessa compreensão que surgiu “Tiro de Misericórdia - O sonho da educação faz o professor”, livro recém-lançado pelo professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Tiradentes (Unit), Rooseman Oliveira Silva.
A narrativa apresenta um professor que é chamado para conduzir um curso de inverno destinado a dez estudantes suspeitos de manifestar comportamentos suicidas. O que começa como uma atividade ligada ao ensino toma proporções diferentes quando os alunos desenvolvem desenhos com uma composição matemática que chama a atenção da instituição.
Diante da suspeita de que aquelas produções possam revelar algo mais grave, o professor passa a investigar a situação e recebe a responsabilidade de tentar impedir que os estudantes atentem contra a própria vida.
Rooseman compartilhou esse enredo durante o lançamento da obra, ocorrido na sexta-feira, 11, na Biblioteca Central da Unit. O evento contou com a presença de familiares, amigos, professores e membros da comunidade acadêmica, que se reuniram para celebrar a publicação e refletir sobre os temas presentes na história.
Uma experiência real
Apesar de construída como uma obra de ficção, a ideia para o livro teve origem em uma experiência vivida pelo próprio professor. Em uma ocasião de sua trajetória docente, um estudante o procurou depois que recebeu as notas de uma disciplina. Rooseman acreditava que a conversa estaria relacionada à avaliação, mas acabou ouvindo um relato que transformou completamente aquele momento.
“Eu tinha acabado de entregar as notas de uma disciplina e achei que ele ia reclamar da avaliação. Só que ele me chamou para conversar sobre um problema muito mais sério. Ele me chamou e disse: ‘Professor, eu estou com vontade de tirar a minha vida’”, relata.
Depois daquela revelação, o professor optou por permanecer ao lado do estudante e escutá-lo. O diálogo ocupou toda a tarde e revelou uma situação familiar de extrema fragilidade. Aos 42 anos, a mãe do aluno enfrentava um câncer em estágio terminal, havia perdido a consciência e sofria com espasmos.
“Desmarquei o que tinha no começo e fiquei conversando, conversando, conversando, até entender que ele realmente tinha um problema sério. Aí, ele pegou o celular e me mostrou. Quando olhei, era a mãe dele. Ela estava com câncer, tinha 42 anos e estava em estado terminal. Ele disse: ‘Professor, não tenho mais estrutura para suportar isso’”, conta.
A situação também fez Rooseman repensar uma ideia frequentemente associada às gerações mais jovens: a de que os jovens de hoje seriam emocionalmente mais frágeis do que aqueles de outras épocas. Na visão do professor, antes de classificar esse sofrimento como consequência de uma suposta fragilidade, é preciso observar e compreender as realidades que esses estudantes enfrentam.
“A partir dali, percebi que os alunos tinham muitos problemas, problemas realmente sérios e reais, que precisavam ser melhor compreendidos. Então, aquela ideia de ficar dizendo que ‘essa geração tem mente fraca’, que ‘essa geração não é igual à geração de antigamente’, eu nunca aceitei isso muito bem. Queria investigar e entender, de fato, se é um problema mental dessas novas gerações ou se, realmente, elas estão passando por problemas reais”, explica.
Escutar também ensina
Essa experiência se transforma em um dos eixos de “Tiro de Misericórdia” e conduz a uma questão importante para o autor: quais são os limites da relação entre docentes e estudantes quando as dificuldades enfrentadas ultrapassam o espaço da sala de aula? Na avaliação de Rooseman, não cabe ao professor solucionar todos os problemas de um estudante, mas sua presença pode fazer diferença quando o aluno atravessa uma situação difícil. Nesse sentido, ouvir também pode assumir um papel dentro da própria experiência educacional.
“Eu espero que o livro possa trazer uma reflexão sobre a importância de fortalecer a relação entre professor e aluno em sala de aula, porque, às vezes, o aluno não sabe a quem recorrer. Ele está com um professor e, se o professor puder dar essa assistência, ainda que não vá resolver o problema, mas puder estar ali com ele, mostrando que ele não está sozinho, acho que já é uma grande contribuição”, afirma.
A intenção da obra também foi reconhecida por quem acompanhou de perto sua elaboração. Esposa do autor, a servidora Natália Galvão ressaltou o empenho dedicado ao projeto durante mais de um ano, até que o livro fosse concluído. “Eu me sinto muito orgulhosa, porque o Rooseman é um profissional muito dedicado e utilizou muito capricho nesse trabalho.
Foi um trabalho de mais de um ano de dedicação e comprometimento. Ele é uma pessoa que se dedica muito ao que faz. Então, a gente está muito feliz com o resultado”, afirma.
Na avaliação de Natália, os assuntos abordados podem alcançar leitores de diferentes perfis por tratarem de questões presentes no cotidiano da educação e das mudanças provocadas pelo universo digital.
“Com certeza, é uma reflexão que fala um pouco do futuro, do presente, da questão do digital, da relação professor-aluno e da educação para os pais. Então, ele atinge vários públicos para que possam refletir um pouco sobre essas questões”, acrescenta.
Educação em debate
Manoel Dantas, professor da Unit e amigo de Rooseman, também considera que o livro consegue aproximar a literatura de uma discussão que continua relevante: a função da educação dentro da sociedade. “A obra do professor Rooseman é formidável porque toca em algo que é próximo a todos nós: a educação, a figura do professor, temas que nunca vão acabar, e a relação entre isso e a própria sociedade”, avalia.
Para ele, a história percorre diferentes períodos e leva o leitor a pensar sobre a maneira como a educação e a atuação dos professores são percebidas socialmente. “Ele traz uma narrativa que nos pega de jeito, como um tiro à queima-roupa mesmo, como eu comentei com ele, com noções bem estruturadas na sua verve literária, em que o passado, o presente e o futuro estão em discussão sobre o que é o fato que a gente precisa entender, se a sociedade valoriza ou não esse aspecto educativo”, afirma.
Rooseman Oliveira Silva também assina “A cidade dos pulmões ofegantes” e “Sementes que ficam”, além de “Tiro de Misericórdia - O sonho da educação faz o professor”. As três obras compõem uma produção literária que aborda diferentes assuntos e propõe ao leitor novos olhares sobre questões humanas e sociais.
Onde encontrar
Por enquanto, “Tiro de Misericórdia - O sonho da educação faz o professor” pode ser comprado na Biblioteca Central da Unit, onde os exemplares estão disponíveis diretamente com a editora. Em um segundo momento, a previsão é que a publicação também seja comercializada nas livrarias Escariz e Leitura, de acordo com a disponibilidade e a distribuição realizada pela editora.