Aracaju (SE), 27 de janeiro de 2026
POR: (*) José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana
Pub.: 14 de março de 2015

Las Locas de la Plaza de Mayo, Gelman e Akhmátova

Um dia elas se reuniram na Plaza de Mayo, em Buenos Aires. Eram poucas. Mas o número só fez crescer. Lá estavam elas com seus panos brancos nas cabeças. Este era o lema delas: “La lucha de las Madres de Mayo contra la dictadura militar y a favor de la vida”. Elas exigiam notícias dos seus filhos e filhas desaparecidos por conta da maldita ditadura militar argentina (para mim, toda ditadura de direita ou de esquerda é maldita). No início, eram mães. E depois, eram mães e avós. Alguns as chamavam “Las Locas de Mayo”. Meu Deus! Netos e netas nascidos nos porões da ditadura foram doados ou vendidos a várias famílias, que, claro, não eram as suas. O filme “A História Oficial”, dirigido por Luis Puenzo, que faturou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1986, baseia-se na história de um casal, Alicia Marnet de Ibánez e Roberto, que adotou uma dessas crianças. Ele sabia que a menina adotada era filha de uma desaparecida, mas Alicia, não. Desconfiada, ela luta para saber a verdade. O filme é forte. E pode ser encontrado em DVD.

O poeta Juan Gelman, combatente de esquerda desde a juventude, e, na minha modesta opinião, o melhor poeta argentino de sua geração, pouco depois de exilar-se, em 1976, teve seu filho Marcelo e sua nora, a espanhola Claudia García, grávida de 7 meses, sequestrados por militares argentinos. Marcelo tinha 20 anos e Claudia, 19. Marcelo foi torturado e, 13 anos depois, seus restos mortais foram encontrados em um tambor de cimento e areia junto com outros sete companheiros. Claudia foi levada clandestinamente para Montevidéu, capital do Uruguai, onde desapareceu em 1977, após dar à luz uma menina no Hospital Militar. Segundo uma investigação da Comissão para a Paz, criada pelo presidente do Uruguai Jorge Batlle (2000-2005), Claudia foi assassinada depois do parto. E ainda tem quem defenda as ditaduras, de direita ou de esquerda! Eu as abomino. Todas elas.

A neta de Juan Gelman, Macarena, foi criada pela família de um policial uruguaio, que escondeu dela sua verdadeira identidade, mas, em 2000, o considerado "poeta da dor" a localizou e, a partir daí, ambos, avô e neta, lutaram pelo esclarecimento da verdade. Aliás, no filme “A História Oficial”, a menina Gaby, adotada pelo casal acima citado, refere-se à menina Macarena mais de uma vez, como sua coleguinha de escola. É uma homenagem.

A poética de Gelman “é um desafio contra o esquecimento e a perda da memória de seu povo”. O “seu lirismo pessoal é feito de fúria e de ternura”. Ele recebeu vários prêmios literários. Nascido em 1930, Gelman faleceu em 14/01/2014, no México. Abaixo, um poema “dolorido” de Juan Gelman, “Oração de um desocupado”: “Pai, / desce dos céus, esqueci / as orações que me ensinou minha avó, / pobrezinha, ela agora / repousa, / não tem mais que lavar, limpar, não tem mais / que preocupar-se, andando o dia todo, atrás da roupa, / não tem mais que velar de noite, penosamente, / rezar, pedir-Te coisas, resmungando docemente. // Desce dos céus, se estás, desce então, / pois morro de fome nesta esquina, / não sei para que serve haver nascido, / olho as mãos inchadas, / não têm trabalho, não têm, / desce um pouco, contempla / isto que sou, este sapato roto, / esta angústia, este estômago vazio, / esta cidade sem pão para meus dentes, a febre, / cavando-me a carne, / este dormir assim, / sob a chuva, castigado pelo frio, perseguido. // Te digo que não entendo, Pai, desce, / toca-me a alma, olha-me o coração, / eu não roubei, nem assassinei, fui criança / e em troca me golpeiam e golpeiam, / te digo que não entendo, Pai, desce, / se estás, pois busco / resignação em mim e não tenho e vou / encher-me de raiva e afilar-me / para brigar e vou / gritar até estourar o pescoço de sangue, / porque não posso mais, tenho rins / e sou um homem, / desce! Que fizeram de tua criatura, Pai? / Um animal furioso /que mastiga a pedra da rua?”.
   
Eu li esse poema de Gelman, pela primeira vez, no livro “Pai Nosso”, de Leonardo Boff, na década de 1980. Fiquei encantado. Passei a buscar o autor, mas, no tempo anterior à internet, não encontrei nada. Tempos depois, em Buenos Aires, tomei conhecimento de sua obra. E, mais: de sua vida, de sua luta. Quantos pais, como ele, perderam os seus filhos nas garras das ditaduras de direita ou de esquerda pelo mundo afora, incluindo o Brasil? Milhares? Milhões? Vai-se saber!
   
E por falar em poesia e em ditadura, lembro-me da poetisa russa Anna Akhmátova, pseudônimo de Anna Andreevna Gorenko (1889-1966), na verdade nascida em Odessa, na Ucrânia, que as autoridades ditatoriais stalinistas perseguiram e proibiram a publicação de seus livros. Fuzilaram um de seus maridos e mandaram o outro para um campo de concentração, onde ele morreu. Mantiveram seu único filho, Lev Gumilev, na prisão durante muito tempo. Todavia, nada disso quebrou a sua fibra e nem fez com que o público, que sempre a amara, esquecesse a sua poesia. Akhmátova teve a chance de ser exilada, pois o regime teria preferido, em determinado momento, ver-se livre dela, mas ela jamais quis deixar a sua pátria e o seu povo. Assim, no poema “Réquiem”, do livro “Réquiem: um ciclo de poemas”, que reuniu poemas de 1935 a 1940, ela cantou: “Não, não foi sob um céu estrangeiro, / nem ao abrigo de asas estrangeiras – / eu estava bem no meio do meu povo, / lá onde o meu povo infelizmente estava”. O seu povo estava sob o jugo dos expurgos empreendidos por Josef Stalin, em que milhões foram presos em “gulags”, ou mortos, embora boa parte da população soviética aparentemente apoiasse o estado comunista. Forçosamente ou não. Como todos devem saber, os “gulags” eram campos de trabalho forçado da ex-União Soviética (URSS), criados após a Revolução Comunista de 1917 para abrigar criminosos e “inimigos” do Estado. Gulag era uma sigla, em russo, para “Direção Principal (ou Administração) dos Campos de Trabalho Corretivo” (“Glavnoye Upravleniye Ispravitelno-trudovykh Lagerey”) que se espalhavam por todo o país. Os maiores gulags ficavam em regiões geográficas quase inacessíveis e com condições climáticas extremas. A combinação de isolamento, frio intenso, trabalho pesado, alimentação mínima e condições sanitárias quase inexistentes elevavam as taxas de mortalidade entre os presos. Pode-se recordar o livro “Arquipélago Gulag”, de Alexander Soljenítsin, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1970.
   
Voltando a Akhmátova, a sua poesia permaneceu tão viva, que, em 1989, ao comemorar-se o centenário de seu nascimento, o seu nome foi dado a uma estrela que tinha acabado de ser descoberta.
   
Não posso acolher a ideia de uma ditadura, venha de onde vier, esteja onde estiver. Como não acolho a ideia de uma “democracia” (?) que se deixa turvar pelo capitalismo selvagem, que faz das pessoas mais fragilizadas apenas “coisas”. A “coisificação” das pessoas dói como se fosse um ferro em brasa atravessando a carne de alguém.

Publicado no Jornal da Cidade, edição de 25 e 26 de janeiro de 2015. Publicação neste site autorizada pelo autor.

(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE

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