Crimes de racismo no futebol impulsionam violência e exigem punição rápida
Episódios recentes de ofensas de agressões e ofensas entre torcedores e jogadores reforçam a sensação de impunidade e aumentam a ocorrência de incidentes violentos

As discussões sobre a violência no futebol estão cada vez mais intensas, principalmente em torno das punições a crimes sem agressão física, como racismo, assédio e provocações com gestos e xingamentos. O caso mais recente foi registrado na tarde da última segunda-feira, 31, em Porto Alegre (RS), durante um jogo entre Internacional e Sport, pelo Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino. Uma atleta do time pernambucano e a quarta árbitra da partida denunciaram que uma casca e um pedaço de banana foram jogados em direção ao banco de reserva das visitantes. O Sport registrou um boletim de ocorrência e o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) tirou o mando de campo do clube gaúcho pelos próximos três jogos do torneio. Já o Inter identificou que os objetos foram atirados por uma jogadora da sua própria categoria de base e rescindiu o contrato dela.
A punição deste caso, rápida e fulminante, não teve a mesma intensidade em outro incidente de grande repercussão: o que aconteceu em Assunção (Paraguai), em 6 de março, quando torcedores do Cerro Porteño imitaram macacos para ofender e provocar os jogadores do time sub-20 do Palmeiras, que disputavam a Taça Libertadores Sub-20. Um dos jogadores, o atacante Luighi, chorou e fez um forte desabafo na entrevista após o jogo, cobrando punições mais enérgicas da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) contra clubes e torcedores que pratiquem atos de racismo. A entidade, no entanto, apenas aplicou uma multa de US$ 50 mil ao clube paraguaio.
Os episódios reforçam a sensação de impunidade provocada por falhas na atuação das autoridades policiais, judiciárias e desportivas. Na avaliação de Cleberson Tavares Costa, professor do curso de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit) e especializado em psicologia esportiva, estudos científicos da área explicam os fenômenos do futebol como extensão dos problemas e fenômenos que existem na sociedade, somados a uma impunidade ainda maior que o considerado ‘normal’. “Dentro de campo ou nas arquibancadas, dentre os principais motivos, está a facilidade de se cometer um crime e não ser penalizado por isso. No futebol, muitos crimes são relativizados”, diz ele.
O professor refere-se principalmente às ofensas e provocações de cunhos racistas e homofóbicos, que muitas destas torcidas costumam dirigir aos adversários durante os jogos. Em jogos da Taça Libertadores da América, torcedores de times do Uruguai e da Argentina costumam fazer imitações de macacos para ofender os rivais brasileiros, que respondem rasgando notas de peso, moeda oficial desses países.
Em sua defesa, eles alegam que as provocações e xingamentos são uma forma de desestabilizar o time adversário. Um argumento que não se sustenta. “Com certeza, essa prática desestabiliza, mas não é aceitável por causa disso. Acertar um soco em alguém, uma cusparada, ou qualquer outro ato físico também desestabiliza, mas é prontamente punido, e com rigor. Assim deve ser em casos de violência racial. A punição deve ser severa, tanto quanto em casos de violência física”, argumenta Cleberson.
Dentro de campo
Muitas vezes, o comportamento violento de torcedores acaba potencializado pelas atitudes tomadas por jogadores e dirigentes dentro de campo. Um exemplo vem da última final do Campeonato Catarinense, onde um jogador da Chapecoense foi flagrado agredindo torcedores do Avaí que invadiram o campo do Estádio da Ressacada, em Florianópolis (SC), e comemoraram a conquista do título estadual. O clube de Chapecó admitiu o erro de seu jogador, mas acusou a Federação Catarinense de manipular a arbitragem para favorecer o time da capital.
Para o professor, estas reações de jogadores e dirigentes a questões da arbitragem ou do regulamento também estimulam episódios violentos. “Precisamos avaliar estas posturas como parte da violência no esporte, também. Acusações sem provas contra dirigentes e a arbitragem se configuram como práticas de violência e que estimulam a violência no esporte contra estes atores, o que pouca gente coloca em pauta. É importante que tenhamos uma reeducação que alcance a paz no esporte para todos os envolvidos”, alerta Cleberson.
Agressões e mortes
O contexto de rivalidade e de provocações acaba se somando a outro problema grave que já acomete o futebol há muito tempo: os confrontos armados de rua entre torcidas uniformizadas rivais. Um dos mais violentos aconteceu em 1º de fevereiro, no Recife (PE), onde membros das organizadas do Sport e do Santa Cruz se enfrentaram com pedras, pedaços de pau, barras de ferro, bombas caseiras e muitos fogos de artifício. Pelo menos 12 pessoas ficaram feridas, sendo três em estado grave. Na mesma semana, as cenas de guerra se repetiram em Fortaleza (CE), entre as torcidas do Ceará e do Fortaleza; e em Belo Horizonte (MG), com as organizadas do Cruzeiro e do Atlético. Em cada uma delas, mais de 100 envolvidos nas brigas foram detidos pela Polícia Militar.
Em São Paulo, onde brigas como essa provocaram cerca de 20 mortes dentro dos estádios no início da década de 1990 e depois passaram a acontecer nas ruas e em bairros das periferias, a Federação Paulista de Futebol (FPF) adotou, desde 2016, a presença de uma única torcida nos jogos entre os grandes clubes da capital (Corinthians, Palmeiras e São Paulo), de Santos (Santos FC) e de Campinas (Guarani e Ponte Preta). A mesma medida foi adotada em Pernambuco após os incidentes de fevereiro.
O professor Cleberson acredita que a adoção de medidas como a torcida única e a proibição da entrada de faixas e bandeiras não são eficazes no enfrentamento ao problema da violência. “Acredito não ser o melhor caminho, por você decretar que as instituições são menores que o fenômeno, e isso fortalece a sensação nos violentos de que eles estão acima do controle social. O ideal é que políticas públicas e as instituições envolvidas na organização de eventos futebolísticos, ajam de forma conjunta, de maneira a ter o controle das circunstâncias”, orienta, sugerindo medidas como a aplicação de leis, o suporte técnico aos profissionais de segurança, práticas que incentivem a ida de mulheres e crianças aos estádios, e outras atividades que reforcem o comportamento pacífico e excluam os envolvidos em crimes e práticas violentas ou ilegais.