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Aracaju (SE), 17 de fevereiro de 2026
POR: Fausto Leite
Fonte: Portal de Notícias Fausto Leite
Em: 16/02/2026 às 08:03
Pub.: 17 de fevereiro de 2026

Dois pesos, duas medidas: quando o pau bate em Chico, mas afaga Francisco :: Por Fausto Leite

Imagem: Reprodução/arte/redes sociais

Ufa! Hoje passei o dia inteiro pensando em como escrever este editorial depois de assistir ao desfile da Acadêmicos de Niterói. Não foi simples. Foram horas revendo cada alegoria, cada ala, cada detalhe que desfilou sob holofotes e câmeras em rede nacional. Mas enquanto eu escrevia, as notificações não paravam. Notícias de mortes em Pirambu, seis mortes nas rodovias estaduais de Sergipe, assaltos, brigas em festas, mulheres agredidas, gente ensanguentada no meio da folia. O Brasil real ardendo, e nós, diante da televisão, discutindo se a estrela brilhou mais que o surdo da bateria. Bezerra da Silva parecia rir no fundo da consciência nacional, “vou apertar, mas não vou acender agora”. A brasa está ali, mas o país prefere dançar ao redor do fósforo.

A abertura já dava o tom. O enredo apresentou Lula como personagem central, quase mítico, quase épico. Uma ala exaltava a estrela vermelha que não é apenas figura geométrica, é símbolo partidário reconhecido até por quem nunca votou. Outra vinha com o coro repetido, ritmado, televisivo, “olê, olê, olá, Lula, Lula”, como se a Sapucaí tivesse virado comício coreografado. E no meio da festa, referências a Dilma, a Temer, a Bolsonaro, costuradas como se a avenida fosse tribunal, biografia e palanque ao mesmo tempo. Nas redes sociais, cortes dessas alas viralizaram em ritmo de jingle. Gente que nunca assistiu desfile inteiro virou especialista em alegoria política.

Houve carro alegórico que tratava Lula como herói, símbolo de resistência, estrela que guia o povo. Houve encenação da prisão, da volta, da superação. Tudo legítimo como narrativa artística. Mas em ano eleitoral, com transmissão nacional, com financiamento público, com nome repetido em refrão, a pergunta surge sozinha, dançando no meio da bateria, isso é homenagem cultural ou promoção política antecipada. Como diz Bezerra, “se segura malandro, pra fazer a cabeça tem hora”. E a legislação eleitoral também tem hora.

A ala que representou Bolsonaro gerou outro turbilhão. Para alguns foi crítica política tradicional do carnaval. Para outros, foi ataque com viés eleitoral. Em seguida vinha a estrela vermelha gigante, iluminada, centralizada, impossível de ignorar. O contraste era claro, um adversário caricaturado de um lado, o líder exaltado do outro. É arte, sim. Mas também é mensagem. E mensagem, em ano eleitoral, pesa mais do que pluma de fantasia.

A alegoria que colocou evangélicos em latas de conserva incendiou ainda mais o debate. O visual parecia sugerir que conservadorismo é produto embalado, fechado, etiquetado. Só que quase trinta por cento da população brasileira se identifica com o segmento evangélico. Para muitos, não foi metáfora criativa, foi desrespeito. Foi como se fé tivesse prazo de validade. E aí Bezerra reaparece, “você não está vendo que a boca tá assim de corujão”, todo mundo de olho, todo mundo anotando, todo mundo pronto para reagir na urna. Em vez de diálogo, veio caricatura. Em vez de aproximação, veio rótulo.

Enquanto isso, o noticiário corria solto. Trio elétrico em Salvador com presença do presidente, gritos de “olê, olê, olá… Lula … Lula…” ecoando pelas ruas. Em São Paulo, relatos de distribuição de brindes com nome e imagem presidencial. O Brasil assistindo tudo como se fosse apenas mais um bloco passando. E o Banco Master no noticiário, denúncias sobre o INSS, suspeitas de desvios, escândalos que se acumulam. Mas a batida da bateria é mais alta. Como diria Bezerra, “malandragem dá um tempo, deixa essa pá de sujeira ir embora”. Só que a sujeira não vai embora sozinha, ela dança junto.

No campo jurídico, o contraste com decisões anteriores é inevitável. No caso da inelegibilidade de Jair Bolsonaro, o TSE entendeu que a reunião com embaixadores configurou abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. Falou-se em gravidade, em necessidade de proteger a isonomia. Agora a avenida vira vitrine nacional, o presidente candidato é exaltado em coro, e a discussão muda de tom. A régua será a mesma ou o ritmo mudou conforme o enredo.

A ministra Cármen Lúcia, ao suspender o documentário da Brasil Paralelo em 2022, invocou situação excepcionalíssima para proteger a lisura do pleito. Era preciso agir antes que o dano fosse irreversível. Agora sustenta que não se podia admitir censura prévia diante do desfile. A Constituição veda censura, é verdade. Mas o contraste permanece. Ontem a cautela justificava intervenção. Hoje a liberdade impede qualquer freio. O eleitor observa e lembra, “quando os home da lei grampeia, o couro come toda hora”. A pergunta é simples, o couro vai comer igual para todos.

Há quem veja cálculo estratégico em tudo isso. Tensionar, provocar, judicializar, transformar eventual punição em narrativa política. Um jogo arriscado. Um país já cansado de polarização transformado em plateia de espetáculo permanente. Enquanto isso, famílias enterram seus mortos nas rodovias, vítimas de violência urbana somam estatísticas, bilhões correm pelas latrinas do governo federal e nós discutimos se a estrela brilhou demais na avenida.

A lei eleitoral proíbe propaganda antes do período oficial, inclusive quando implícita, quando há exaltação sistemática de qualidades pessoais com potencial de influenciar o eleitorado. Não se trata de torcer por inelegibilidade. Trata se de exigir coerência. Se reunião institucional virou abuso, desfile com nome repetido, estrela partidária e narrativa heroica precisa ser analisado com o mesmo cuidado.

No fim, o Brasil ficou entre o confete e a Constituição. Entre a tragédia diária e o espetáculo televisionado. A democracia suporta samba, suporta crítica e suporta homenagem. O que ela não suporta é a sensação de dois ritmos diferentes para personagens diferentes. Como canta Bezerra da Silva, “vou apertar, mas não vou acender agora”. Só que a hora de acender ou apagar não pode depender da fantasia escolhida. Cabe ao TSE decidir. E cabe à população perguntar, no meio da folia e do luto, se foi só carnaval ou se “pra fazer a cabeça tem hora”.

 


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