Vírus Nipah pode chegar ao Brasil? Há risco de pandemia? Infectologista Dra. Mariela Cometki analisa o cenário
Autoridades de saúde da Índia monitoram, nos últimos dias, um surto do vírus Nipah que já infectou ao menos cinco profissionais de um hospital na província de Bengala Ocidental e levou cerca de 100 pessoas à quarentena. Altamente letal e sem vacina ou tratamento específico, o agente infeccioso permanece sob vigilância de organismos internacionais, reacendendo o debate global sobre o risco de novas pandemias.
Apesar da gravidade da doença, especialistas avaliam que as chances de o vírus Nipah provocar uma pandemia ou chegar ao Brasil são baixas, embora não inexistentes. O Nipah é classificado como um vírus zoonótico, transmitido principalmente de animais para humanos. A infecção ocorre, sobretudo, por meio do contato com morcegos infectados, seus fluidos corporais ou alimentos contaminados.
Os morcegos se alimentam de frutas e podem contaminá-las com saliva, fezes ou urina. Outros animais, como porcos, ingerem essas frutas e acabam atuando como intermediários na transmissão do vírus para os seres humanos.
Risco para o Brasil é remoto, mas existe
De acordo com especialistas, um dos principais fatores que reduzem o risco de surtos de grande magnitude no Brasil é a ausência da espécie de morcego associada à transmissão do vírus Nipah no território nacional. Ainda assim, o risco não é considerado inexistente. Outras formas de contágio incluem o consumo de alimentos contaminados por secreções de morcegos infectados e o contato direto com pessoas doentes.
Em países como Índia e Bangladesh, por exemplo, é comum, nesta época do ano, a ocorrência de infecções associadas ao consumo de seiva fresca de tamareira, ingerida sem fervura ou pasteurização. O líquido doce atrai morcegos, que contaminam o néctar durante a alimentação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta evitar o consumo de frutas ou produtos possivelmente expostos, descartar alimentos com marcas de mordidas de morcegos e adotar rigorosa higienização antes do consumo.
Transmissão entre humanos é limitada
Há registros de transmissão do vírus Nipah por secreções de pessoas infectadas, especialmente em ambientes hospitalares, como observado no surto atual na Índia. Mesmo assim, o potencial de disseminação global é considerado menor quando comparado a vírus de transmissão respiratória intensa, como os da Covid-19 ou do sarampo.
Embora exista a possibilidade de surtos epidêmicos localizados, o Nipah não apresenta, até o momento, a mesma capacidade de espalhamento rápido observada em vírus respiratórios. Ainda assim, o vírus deve ser monitorado de forma rigorosa, uma vez que o período de incubação permite que pessoas infectadas realizem viagens longas antes do surgimento dos primeiros sintomas.
Alerta e importância da vigilância
Para a infectologista Dra. Mariela Cometki, referência em imunidade, o cenário atual reforça a importância da vigilância epidemiológica global e do fortalecimento dos sistemas de saúde. “O vírus Nipah chama a atenção por sua alta letalidade e pela ausência de tratamento ou vacina, mas isso não significa que estamos diante de uma nova pandemia iminente. O risco existe, porém é considerado baixo, especialmente em países fora das áreas endêmicas”, explica.
Segundo a especialista, a prevenção é fundamental. “Medidas como segurança alimentar, vigilância de casos suspeitos e controle rigoroso em ambientes hospitalares são essenciais para reduzir o risco de transmissão. O monitoramento internacional permite respostas rápidas diante de qualquer sinal de disseminação”, destaca Dra. Mariela.
Ela também ressalta o papel da imunidade e da informação qualificada. “Doenças emergentes exigem atenção constante, mas o pânico não ajuda. Informação baseada em ciência e cooperação entre países são as principais ferramentas para proteger a população”, afirma.
O que é o vírus Nipah
O vírus Nipah foi identificado pela primeira vez em 1998, após um surto entre criações de suínos na Malásia. O nome deriva do vilarejo onde a doença foi inicialmente detectada. Embora os surtos sejam raros, o Nipah integra a lista da OMS de doenças prioritárias para pesquisa, ao lado de agentes como ebola, zika e Covid-19, devido ao seu potencial pandêmico.
Principais sintomas
Os sintomas da infecção pelo vírus Nipah incluem:
• Febre alta
• Vômitos
• Infecção respiratória
• Tosse
• Dificuldade para respirar
Em casos graves, a doença pode evoluir para convulsões, inflamação cerebral e coma.
As autoridades de saúde reforçam que o monitoramento contínuo e a adoção de medidas preventivas são fundamentais para evitar que surtos localizados se transformem em uma ameaça global.