Aracaju (SE), 19 de junho de 2026
POR: Gabriel Damásio
Fonte: Ascom Unit
Em: 19/06/2026 às 09:11
Pub.: 19 de junho de 2026

Desigualdade e racismo podem aumentar risco de doenças cardíacas em mulheres

Debate sobre gênero, raça e acesso à saúde ganha espaço na cardiologia e amplia a compreensão sobre fatores que influenciam o adoecimento feminino; prevenção de doenças deve incluir enfrentamento das desigualdades que afetam mulheres negras e indígenas.

A médica cardiologista Celi Marques Santos, professora do curso de Medicina da Unit - Foto: Acervo pessoal

Os problemas sociais e estruturais gerados pelo racismo e pela desigualdade de classes e de gênero são um fator que podem agravar a incidência de doenças cardiovasculares como infarto, arritmia e acidentes vasculares cerebrais (AVCs), principalmente entre mulheres negras e indígenas. Esta correlação vem sendo comprovada em diversos estudos já realizados pela comunidade científica nacional e internacional. A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e a American Heart Association (AHA) estimam que estas doenças provocaram aproximadamente 30,4% de todas as mortes em mulheres no mundo ao longo do ano de 2021. 

Já o Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA Brasil), realizado pela Fundação Oswaldo Cruz em conjunto com seis universidades brasileiras, apontou em 2023 que cerca de 10% das mulheres pretas conviviam com seis ou mais doenças crônicas no início do estudo, em 2008, além de 35% delas convivendo com obesidade e outros 40% com transtornos mentais comuns, como ansiedade e depressão. A própria SBC já abordou a questão em três importantes documentos: os posicionamentos para Gravidez e Planejamento Familiar na Mulher Portadora de Cardiopatia (2020), sobre Saúde Cardiovascular nas Mulheres (2022) e sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher (2025). 

“A literatura mundial tem enfatizado este tema, considerando como determinantes psicológicos e sociais, algumas vezes denominados como expossoma, aqui definido como a totalidade da exposição a que indivíduos estão expostos ao longo da vida e como essas exposições afetam a saúde”, diz a cardiologista Celi Marques Santos, professora do curso de Medicina da Universidade Tiradentes (Unit), que participou da elaboração dos documentos como integrante do Departamento de Cardiologia da Mulher da entidade (DCM/SBC), e publicou recentemente um artigo sobre o assunto na revista da Sociedade Médica de Sergipe (Somese).

Celi explica que já existem diferenças entre homens e mulheres no ponto de vista cardiovascular, devido a características específicas de cada gênero em aspectos como anatomia, fisiologia, biologia vascular e mecanismos fisiopatológicos. Estas características, além de fatores de risco tradicionais como má alimentação e falta de atividade física, podem potencializar o surgimento das doenças quando se somam aos chamados “determinantes psicossociais” ou “fatores de risco sub-reconhecidos”, como depressão e ansiedade, abuso sexual e violência, privação socioeconômica, baixa educação em saúde, fatores de risco ambientais e acesso aos sistemas de saúde, entre outros. 

“O estresse crônico e outros fatores desencadeiam inflamação sistêmica e, consequentemente, doenças cardiovasculares da mulher. O racismo estrutural e a discriminação racial são causas de disparidade em saúde cardiovascular da mulher. Este e outros fatores de risco sub-reconhecidos, se comportam como estressores crônicos, promovem ativação persistente do eixo neuroendócrino, aumento sustentado de cortisol e catecolaminas, inflamação sistêmica e disfunção endotelial, interferindo na morbimortalidade cardiovascular das mulheres”, explica Celi. 

O próprio ELSA Brasil de 2003 apontou que 6% dos pardos e 32% dos pretos acompanhados relataram experiências de discriminação racial ao longo da vida, seja por tratamento injusto no trabalho, em assuntos de moradia (como alugar um imóvel), pela polícia, em locais públicos ou na escola/faculdade. “Estudos científicos demonstram que vivenciar essas experiências foi relacionado à pior função renal, maior rigidez arterial e aterosclerose (marcadores de risco para doenças cardiovasculares) e ganho de peso mais acelerado. Outras situações de discriminação raciais foram constatadas em experiências de vida estressantes”, acrescenta a professora, relacionando uma maior chance de hipertensão e diabetes entre pessoas que tenham baixa escolaridade ou vivam em áreas segregadas economicamente (com mais domicílios com renda de até 3 salários-mínimos).

“É fato de que a saúde cardiovascular da mulher não deve estar focada apenas no modelo biomédico, nos fatores de risco cardiovasculares tradicionais, mas, também, deve ser visto sob a perspectiva de gênero, raça, território e desigualdade social. Já sabemos, com base científica, que existem desigualdades objetivamente demonstráveis. Os estudos mostram diferenças em mortalidade, acesso ao diagnóstico, controle pressórico, tratamento, reabilitação, mortalidade materna, prevenção. Essas desigualdades afetam especialmente, mulheres negras, indígenas, periféricas, rurais, de baixa renda, periféricas. Ignorar isso produz invisibilidade epidemiológica”, argumenta a cardiologista.

Uma nova abordagem

Com base neste diagnóstico, cada vez mais especialistas da área de saúde têm defendido um novo olhar e uma nova abordagem para a prevenção das doenças cardiovasculares. Para além dos recomendados exames médicos periódicos, exercícios físicos constantes e cuidados com a alimentação, é necessária a implementação de iniciativas e políticas públicas universalistas, ou seja, que atuem de forma ampla, conjunta e coordenada para atacar e reverter diretamente esses problemas socioestruturais. 

A doutora Celi Marques defende que o tema da correlação entre racismo, gênero e doenças cardíacas seja estudado e debatido, de modo a provocar mudanças concretas na sociedade. “Discutir desigualdade melhora ciência e assistência, principalmente quando se estudam populações diversas. Os diagnósticos tornam-se mais precisos, os protocolos ficam mais aplicáveis, a prevenção melhora, a medicina torna-se mais justa e efetiva. Considero isso ciência de melhor qualidade. Isso significa enfrentar uma das maiores causas evitáveis de morte feminina. Acredito numa discussão mais ampla, além de políticas públicas específicas que contemplem a saúde da mulher negra e indígena”, considera. 

A professora também acredita que estas ações devam estar inseridas em iniciativas que incluam universidades, conselhos diretivos e sociedades científicas, assim como os outros representantes da sociedade. Isto passa, segundo ela, por um aperfeiçoamento da formação médica, inserindo atividades teóricas e práticas voltadas à saúde cardíaca das mulheres negras e indígenas, bem como a uma maior discussão sobre equidade social. Passa também por uma maior atuação das sociedades médicas e científicas, tanto na produção e validação de estudos científicos quanto na promoção de campanhas, capacitações e incentivos à diversidade e representatividade. E também por uma participação maior da sociedade como um todo. 

“A sociedade pode ajudar na educação em saúde, disseminando informação confiável; combatendo a desinformação, estimulando a prevenção e reconhecendo sintomas precocemente. Pode ajudar no combate ao racismo e às desigualdades, pois a literatura contemporânea reconhece que a desigualdade social produz adoecimento e o racismo estrutural afeta acesso e prognóstico. E pode ajudar na valorização da ciência e do SUS. Sabemos que a redução populacional da mortalidade cardiovascular depende de pesquisa, vacinação, prevenção, atenção primária e acesso universal. Ou seja, depende de instituições coletivas fortes. Não há dúvidas que a redução da desigualdade social também é uma estratégia de prevenção cardiovascular”, conclui Celi.

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