Pesquisa avalia potencial de planta medicinal na cicatrização de feridas
Estudo realizado durante a iniciação científica testou o extrato de Himatanthus bracteatus combinado a um hidrogel e encontrou resultados positivos na recuperação dos tecidos
Quando a pele é lesionada, o organismo coloca em ação diferentes mecanismos para reparar a área atingida. As células passam por reorganizações, a extensão da ferida diminui aos poucos e novos vasos sanguíneos são formados para transportar oxigênio e nutrientes até o local. Compreender esse processo é fundamental para buscar alternativas que possam contribuir para a cicatrização, especialmente em lesões extensas ou de difícil recuperação.
Foi com esse objetivo que uma pesquisa realizada na Universidade Tiradentes (Unit) analisou o potencial de uma planta tradicionalmente utilizada como produto natural. O estudo investigou os efeitos do extrato de Himatanthus bracteatus combinado a um hidrogel produzido à base de gelatina na recuperação de feridas. A pesquisa foi conduzida pela fisioterapeuta egressa da Unit Luana Correa, durante sua iniciação científica, sob orientação do professor doutor Ricardo Luiz Cavalcanti de Albuquerque Júnior.
A trajetória de Luana na iniciação científica teve início em 2019, quando cursava o terceiro período de Fisioterapia, e se estendeu até 2021, período em que, já no oitavo semestre, desenvolveu a pesquisa relacionada à planta. O trabalho buscou verificar se a associação poderia contribuir para a regeneração do tecido e favorecer o surgimento de novos vasos sanguíneos. Os resultados observados nos animais foram positivos, apontando possibilidades para que a formulação seja estudada futuramente como recurso auxiliar na cicatrização de feridas.
Uma planta em estudo
A escolha da Himatanthus bracteatus foi baseada em conhecimentos e pesquisas anteriores sobre a espécie. Utilizada popularmente como produto natural, a planta já havia apresentado características que chamaram a atenção dos pesquisadores. “Estudos realizados com espécies do gênero Himatanthus já apontavam propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, analgésicas e antimicrobianas. Também havia sido identificada a presença de iridoides no extrato da casca da planta”, explica.
O trabalho não se limitou a testar o extrato vegetal sozinho. Inserida em uma investigação mais ampla, a pesquisa foi organizada em etapas para avaliar diferentes características da formulação. Nesse processo, o extrato da planta foi incorporado a um hidrogel fotopolimerizável produzido à base de gelatina. “Em termos simples, trata-se de um material que pode ser aplicado sobre a área lesionada e que, após um processo de endurecimento, forma uma estrutura capaz de permanecer no local”, elenca Luana.
De acordo com a egressa, a utilização do hidrogel também levou em consideração resultados de estudos anteriores que apontavam a existência de componentes com potencial para auxiliar na nutrição das células. A proposta era descobrir se a combinação dos dois materiais poderia beneficiar a recuperação da pele. “Com isso, dava para verificar se essa combinação poderia contribuir para o processo de cicatrização tecidual e para a formação de novos vasos sanguíneos”, afirma.
Dentro do experimento
Depois que a formulação foi estabelecida, os pesquisadores iniciaram a fase experimental. Participaram do estudo 18 camundongos, distribuídos em três grupos. O primeiro recebeu somente solução salina nas feridas; o segundo foi submetido ao tratamento apenas com o hidrogel; e o terceiro recebeu o hidrogel acrescido de 2% do extrato de Himatanthus bracteatus.
Os animais foram avaliados após três, sete e 14 dias. Nesse intervalo, a equipe acompanhou a evolução das lesões e, posteriormente, examinou os tecidos para entender como ocorria a recuperação. “A análise considerou, entre outros fatores, a formação de novos vasos sanguíneos e a presença de miofibroblastos. Apesar do nome técnico, essas células têm uma função bastante concreta durante a cicatrização: ajudam a contrair a ferida e participam da reorganização do tecido que está sendo reconstruído”, afirma a fisioterapeuta.
Na comparação entre os grupos, os resultados foram mais positivos entre os animais que receberam o hidrogel com 2% do extrato. Nesse grupo, as feridas apresentaram redução mais acelerada, acompanhada de uma maior quantidade de células relacionadas à regeneração do tecido. Também foi observado aumento na formação de novos vasos sanguíneos, especialmente no terceiro e no sétimo dias de acompanhamento. Além disso, os pesquisadores encontraram indícios de melhora na qualidade do tecido formado durante a cicatrização.
Após a conclusão da iniciação científica, a pesquisa específica desenvolvida por Luana não foi transformada em um novo projeto. Segundo ela, os resultados já indicavam o potencial do extrato associado ao hidrogel como possível recurso complementar para a cicatrização. A investigação mais ampla, entretanto, prosseguiu por outras linhas. Entre elas estavam avaliações citopatológicas e toxicológicas, importantes para entender os efeitos da formulação sobre as células e verificar aspectos relacionados à segurança antes de futuras etapas de investigação.
Da pesquisa à publicação
O trabalho também avançou para além da etapa experimental. Com a conclusão dos estudos, os resultados foram reunidos em um artigo científico, que posteriormente foi aprovado pelo International Journal of Molecular Sciences, periódico internacional que, conforme Luana, apresenta fator de impacto de 6,3. A publicação integra o processo de produção científica, permitindo que os resultados obtidos em uma pesquisa sejam analisados, avaliados e divulgados para outros pesquisadores.
Para Luana, a experiência com pesquisa havia começado antes mesmo do estudo envolvendo a Himatanthus bracteatus. Em 2019, durante o terceiro período de Fisioterapia, ela teve seu primeiro contato com a iniciação científica. Dois anos depois, já no oitavo período, assumiu a pesquisa sobre cicatrização. A vivência no ambiente científico contribuiu para o desenvolvimento de habilidades que também passaram a fazer parte de sua formação profissional.
“Desenvolvi maior habilidade para realizar pesquisas, selecionar fontes confiáveis, analisar criticamente artigos científicos e diferenciar estudos de qualidade. Essas habilidades passaram a contribuir diretamente para minha formação como fisioterapeuta. A experiência também me ajudou no desenvolvimento do raciocínio clínico e científico, tornando mais clara e fundamentada a comunicação com outros profissionais e com os próprios pacientes”, ressalta.
Um caminho que continua
Ao finalizar a graduação, Luana planejava seguir a trajetória acadêmica, inicialmente com um mestrado e, depois, um doutorado. No entanto, o surgimento de oportunidades de trabalho fez com que ela optasse por priorizar, naquele momento, a carreira como fisioterapeuta. Atualmente, atua de maneira autônoma nas áreas de ortopedia e traumatologia clínica, além do Pilates clínico. Mesmo distante da rotina universitária, ela continuou mantendo contato com a produção científica.
A egressa segue investindo em cursos de atualização e pós-graduação, ministra algumas aulas e participa de grupos de estudo formados por profissionais da Fisioterapia. Para 2026, ela também planeja voltar ao meio acadêmico por meio de um processo seletivo para o mestrado. Assim, os conhecimentos adquiridos durante a graduação continuam influenciando tanto sua prática profissional quanto seus projetos futuros.
Por isso, para os estudantes que ainda têm dúvidas sobre participar ou não de uma pesquisa, a orientação dela é objetiva: “Para os estudantes que estão pensando em fazer parte de uma iniciação científica, eu só posso dizer: faça! É uma experiência muito enriquecedora. Você terá a oportunidade de crescer e se desenvolver tanto no âmbito acadêmico e profissional quanto pessoal”, aconselha.
Ela reconhece que desenvolver uma pesquisa demanda dedicação e pode tornar a rotina mais trabalhosa, mas considera que os resultados dessa experiência justificam o esforço. “Apesar de poder ser um pouco trabalhoso, dependendo do tipo de pesquisa, é um caminho muito valioso, especialmente durante a graduação e também na pós-graduação”, completa.