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Aracaju (SE), 28 de março de 2026
POR: Marcio Rocha
Fonte: Marcio Rocha
Em: 28/03/2026 às 12:43
Pub.: 28 de março de 2026

Crise da água em Sergipe: por que falta água? A culpa ainda é da Deso :: Por Marcio Rocha

Marcio Rocha - Foto: Arquivo Pessoal

*Marcio Rocha

A crise no abastecimento de água em Sergipe não é um evento pontual, nem pode ser explicada por falhas recentes de operação. Trata-se de um problema estrutural, com origem no histórico de subinvestimento da Deso, que ao longo dos anos manteve um sistema com baixa capacidade de expansão, redes envelhecidas e elevados índices de perdas. Em termos econômicos, esse tipo de decisão de adiar investimentos, reduz custos no curto prazo, mas amplia de forma significativa o custo futuro, que é exatamente o que se observa agora.

Grande parte da rede de distribuição opera com tubulações antigas, muitas com mais de 30 ou 40 anos, o que compromete diretamente a eficiência do sistema. Uma parcela relevante da água produzida se perde antes de chegar ao consumidor, seja por vazamentos, seja por falhas estruturais ou ligações irregulares. Isso reduz a oferta efetiva e pressiona ainda mais um sistema que já opera próximo do limite. Ao mesmo tempo, a própria produção de água, que permanece sob responsabilidade da Deso, não apresenta a regularidade necessária para garantir estabilidade. Oscilações no volume fornecido impedem a recomposição dos reservatórios e afetam a pressão da rede, gerando um efeito em cadeia que atinge principalmente as áreas mais altas e periféricas.

Esse é um ponto central para compreender a crise: não se trata apenas de falta de água, mas de falta de estabilidade no sistema. Quando o fornecimento na origem é irregular, a distribuição perde eficiência, a pressão cai e a água deixa de alcançar determinadas regiões, mesmo que ainda exista circulação em outras partes da rede. A consequência é a intermitência no abastecimento, que passa a ser percebida pela população como falta generalizada. O que mostra a bomba-relógio que a Iguá recebeu ao assumir a operação.

A entrada da Iguá Saneamento na operação da distribuição ocorre nesse contexto. Do ponto de vista econômico, a concessionária assume um ativo depreciado, que exige investimentos elevados e contínuos para recuperação. A substituição de redes, a redução de perdas e a reorganização do sistema são processos de médio e longo prazo, típicos de setores com alto volume de capital imobilizado. No entanto, esses avanços dependem de uma variável que não está sob controle direto da distribuidora: o fornecimento regular de água tratada.

O resultado é um sistema que combina fragilidade estrutural com limitações operacionais. As perdas reduzem a água disponível, a irregularidade na produção impede a normalização do abastecimento e a baixa pressão compromete a distribuição final. Do ponto de vista econômico, trata-se de um sistema fora do equilíbrio, em que a oferta efetiva não acompanha a demanda e a solução depende, necessariamente, de investimento e coordenação entre as etapas de produção e distribuição.

Os impactos vão além do abastecimento doméstico. A instabilidade eleva custos para o comércio, reduz a produtividade de serviços e afeta o ambiente de negócios, uma vez que a água é insumo essencial para diversas atividades econômicas. Assim, a crise hídrica deixa de ser apenas um problema operacional e passa a representar um entrave ao desenvolvimento.

Em síntese, a falta d’água em Sergipe não é resultado de um fator isolado, mas da combinação entre redes deterioradas, perdas elevadas e fornecimento irregular na origem. Sem o enfrentamento simultâneo desses elementos, o sistema tende a continuar operando no limite, e a escassez, em vez de exceção, passa a ser parte do seu funcionamento. Há potencial para melhorar? Sim, mas não vai adianta de nada a Iguá trabalhar para resolver os problemas, quando a Deso ainda se omite no que diz respeito à sua parte. Se não tem competência para fazer, que se faça a concessão da captação de água. 

É uma solução prática para liquidar o problema e ter profissionais trabalhando no processo de abastecimento em toda a cadeia.

*Jornalista formado pela UNIT, radialista formado pela UFS e economista formado pela Estácio, especialista em jornalismo econômico e empresarial, especialista em Empreendedorismo pela Universitat de Barcelona, MBA em Assessoria Executiva e MBA em Business Intelligence com experiência de 26 anos na comunicação sergipana, em rádio, impresso, televisão, online e assessoria de imprensa.

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