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Aracaju (SE), 07 de fevereiro de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 04/02/2018 às 22:20
Pub.: 05 de fevereiro de 2018

O DEFUNTO QUE SE MEXIA :: Por José Lima Santana

José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

João Molambo perambulou pela cidade por um lote de dias. De onde ele surgiu ninguém sabia dizer. Era um velho andarilho. Muito idoso. Com ele, um filhote de gato, cinzento. Era um pobre coitado, meio amalucado, sujo, tocador de uma rebeca rústica, que dela, a muito custo, ele tirava algum som. Não era um som qualquer. Era um som de boas notas musicais, embora desencontradas, às vezes. Outras vezes, o som saía cadenciado. Podia-se, nessas vezes, ouvir alguns acordes de velhas canções populares, que, na época de ouro do Rádio, foram muito tocadas. O nome dele era João. Ao menos, era o que ele dizia. O Molambo ficou por conta de algum gaiato. Pegou. Esses apelidos sempre pegavam. As pessoas não tinham piedade.

Naquele tempo, o hospital da cidade encontrava-se, há anos, construído, mas fechado, ou melhor, abandonado. Na verdade, estava com as paredes levantadas e com o telhado completo. Pintado de branco. Fora abandonado sem portas e janelas. Um benfeitor, filho da terra, residente em São Paulo, onde conseguira enriquecer, mandou o dinheiro para a construção. Parte do dinheiro, porém, teria sido desviada. Ali, João Molambo encontrou um lugar de pouso. Passava os dias perambulando pelas ruas, carregando o gatinho e um saco de estopa cheio sabia-se lá de quê. À tardezinha, recolhia-se ao hospital abandonado. A caridade do povo lhe dava o que comer.

Numa tarde de sexta-feira, um grupo de meninos, que costumavam brincar no hospital abandonado, encontrou o corpo de João Molambo. Estava morto o pobre homem. O gatinho cinzento miava sem parar. Correram os meninos para avisar que o pobre velho tinha batido as botas. Logo, um alvoroço de mulheres se fez ouvir. Muitas acudiram ao local. Lá estava o velho João, que não tinha eira nem beira, nenhum parente ou aderente na cidade. O corpo rígido. Os olhos esbugalhados, a boca entreaberta. Um quadro desolador. 

Dona Lindaura de mestre Belo sugeriu que alguém do lado do prefeito fosse pedir-lhe o esquife. A Prefeitura costumava acudir os mais pobres nessas ocasiões. João de Pucina faria o caixão barato, coberto por um pano roxo e com alças que eram retiradas antes de o esquife baixar aos sete palmos de terra. Os coveiros baixavam o caixão por meio de duas cordas, que eram colocadas por baixo.

Pedro de Zé Morceguinho encarregou-se de ir à procura do prefeito. Foi encontrá-lo lorotando com um grupo de lambe-botas no bar de Aprígio de Marcolino do finado Tonho de Iaiá. Contou-lhe o sucedido. Num pedaço de papel fornecido pelo dono do bar, o prefeito deu a ordem para João de Pucina fazer o caixão. 

À noite, enquanto se aguardava que alguém trouxesse o caixão ordinário, algumas piedosas mulheres foram prestar ao morto as últimas homenagens, rezando ladainhas e “incelenças”. A cantoria das mulheres seguiu em boa voz. Um ou outro homem chegava à porta do compartimento onde estava o corpo do velho João e também as mulheres em rezas e cantorias. Uma ou outra criança acompanhava a mãe. Duas mocinhas também, filhas de Dona Caçula de Zé Oião. Como luz, dois candeeiros em torno da cabeça do defunto. 

Não passava das oito da noite quando uma das crianças cochichou no ouvido da mãe. Era Mariinha de Clotildes de Américo de Sá Joaninha. Esta franziu a testa, mirou o corpo do defunto, na altura das mãos entrecruzadas. O corpo estava coberto por um lençol já bem gasto, que uma das mulheres tinha levado. As mãos de João Molambo estavam se mexendo. Clotildes apurou ainda mais o olhar. As mãos mexiam-se sim. E morto se mexia? Ela alardeou: “Minha gente, o morto tá mexendo as mãos!”. Constatação feita por todas. Uma das mulheres gritou: “Gente, isso é armada do diabo!”. Não ficou viva alma. Seguiu-se uma debandada das seiscentas. Aos gritos, uma das mulheres dizia: “O diabo está no corpo do morto!”.

Quase em frente ao hospital abandonado ficava a bodega de “seu” Oscar. Ali alguns homens ainda lorotavam ou tomavam uma bicada para limpar os bofes. Alguns se acovardaram. Defunto que mexia as mãos? Ele que ficasse para lá. Mas, Zé de Joana do finado Júlio Coceirinha, Alípio de Sá Maria de Adolfo Perneta e  ngelo de Dodô tomaram o rumo do velho hospital. Eles estavam mais ou menos bêbados. Estavam tungados.

Ao chegarem ao compartimento onde jazia o corpo do velho andarilho, eis que eles constataram que, sim, o morto mexia as mãos entrecruzadas sobre o peito. Por baixo do lençol havia, deveras, um pequeno movimento.  ngelo de Dodô, frouxo que só ele, mas que acorreu ao local com os outros, levado pelo fogo da cachaça com erva cidreira, mijou-se todo. Alípio benzeu-se. Zé de Joana, porém, aproximou-se do morto e puxou o lençol. Na mão direita, a faca luminosa de cortar carne de sol na feira da cidade e com a qual, se fosse preciso, cortaria o diabo que tinha entrado no corpo de João Molambo.

O lençol foi puxado de chofre. E eis que sobre as mãos entrecruzadas do defunto estava o gatinho cinzento, lambendo as patinhas.

PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

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