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Aracaju (SE), 05 de fevereiro de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 28/11/2021 às 08:33
Pub.: 29 de novembro de 2021

O Major :: Por José Lima Santana

José Lima Santana (Foto de arquivo: Click Sergipe)

José Lima Santana (Foto de arquivo: Click Sergipe)

José Lima Santana*

De Angico ao Pau D’Arco era uma galopada de quatro a cinco horas. Dependia do animal e do montador. Sim, porque tinha animal fogoso, árdego, de bom galope ou de boas passadas e montador dorminhoco, parecendo um urubu com sono. E tinha animal choco, sem alegria nas patas, e montador avexado, de esporas nervosas. Porém, contudo, e, todavia, quando os dois, montaria e montador, eram, a um só tempo, azougados, o pau comia. Subia poeira ou chispava lama para tudo que era lado. 

Zeferino de Maria de Tonca tinha recado urgente do capitão Zé Melo para o quase-major Maurício das Porteiras. O primeiro, oficial de patente assentada na Polícia e o segundo, de carta-patente comprada na Guarda Nacional, em 1923, que acabara de chegar do Rio de Janeiro, pelos Correios, naquele mesmo dia. O postulante a major já se dizia major, embora sem ter em mãos a carta, assinada pelo presidente Artur Bernardes. As tratativas foram levadas a efeito pelo deputado federal Jonas do Amaral Rego Melo, primo do capitão Melo e genro do major a receber a carta-patente. 

A notícia da chegada do documento tão ansiosamente aguardado pelo novel major era o recado que Zeferino levava. O cavalo ruço estava miado, gordo de dar gosto. Tempos bons, os últimos três anos. Bons invernos. Um alívio depois de sucessivos anos de seca, que fez arribar para outras terras um magote de gente sem eira nem beira. O mensageiro do capitão Melo ia sem pressa. Chegaria à boquinha da noite. De casa saiu logo depois da boia do meio-dia, favas verdes com galinha de terreiro, fazendo bolo de escorrer pelos dedos, molhando no molho da malagueta. Comida de dar água na boca de qualquer um. Fornido pelo almoço, selou o cavalo ruço, acochou a cilha, meteu o pé direito no estribo e ganhou a estrada. Passaria pelos Araçás e pelas Trincheiras, lugarzinho de moças bonitas e de boas lavouras de algodão. Era outubro. Uns chuviscos andavam caindo, prenúncio de boas trovoadas, depois do bom inverno. Tempo de riqueza no sertão. 

Uns conhecidos de passagem cumprimentaram Zeferino, rapagão destemido e trabalhador. Era da família dos Alvarenga, pelo lado paterno, e dos Oliveira Sales, da banda da mãe. Famílias de certas posses, uns mais do que outros, mas, todos, trabalhadores e respeitadores do alheio. Zeferino estava de namoro com uma sobrinha do capitão Zé Melo, delegado em Angico. Moça prendada. Bonitona agalegada. Formavam um belo par. O padre Vicente andava a indagar: “E o casamento, Zeferino, é para quando?”. Para breve. A casa já estava pronta. Dentro de uns meses, o casamento seria celebrado. Sara Regina queria casar em maio, mês das noivas. Escolha de mulher. 

O velho Maurício das Porteiras, de nome corrido Maurício Barbosa de Sá Moreira, sonhava com a carta-patente de major da Guarda Nacional, que, embora extinta, ainda sobrevivia por conta do presidente Bernardes. Vinda dos idos do Império, durante o período regencial, sua criação se deu por meio da Lei de 18 de agosto de 1831, que dizia na ementa: “Cria as Guardas Nacionais e extingue os corpos de milícias, guardas municipais e ordenanças”. Em setembro de 1850, por meio da Lei nº 602, a Guarda Nacional foi reorganizada e manteve suas competências subordinadas ao Ministro da Justiça e aos presidentes das províncias. Em 1873, ocorreu nova reforma que diminuiu a importância da instituição em relação ao Exército Brasileiro. Com o advento da República, a Guarda Nacional foi transferida em 1892 para o Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Em 1918, passou a Guarda Nacional a ser subordinada ao Exército Brasileiro, sendo incorporada como exército de 2ª linha, acabando diluída. Em 1922, foi extinta, mas o presidente Artur Bernardes continuou a emitir cartas-patentes. 

O recebimento da carta-patente do major Maurício das Porteiras seria um acontecimento para abalar Angicos. A festança estava encomendada. Cinco sanfoneiros da melhor qualidade, repentistas para tecer loas ao major e sua família. Gente das redondezas e até mesmo da capital. O deputado, genro do major, não deveria faltar, fornido de grande acompanhamento. Um novilho, cinco carneiros de bom redenho, perus e capões, tudo isso e muito mais, estava pronto para a comilança. Seis barris de aguardente do alambique Teimoso, seis toneis de vinho de jenipapo do fabrico de “seu” Costa. Naquelas bandas, o major Maurício seria o segundo a ostentar patente da Guarda Nacional. O primeiro, que Deus o tivesse, foi o capitão Peixotinho de Lajeado, cidade não longe de Angico e da qual esta se separou, em 1910. O fogueteiro Marcelo da Pólvora trabalhava com os seus empregados há dois meses. O céu de Angico viraria uma fornalha. Um vulcão, por assim dizer. A farda engalanada estava pronta, copiada de uma revista militar, medida e confeccionada por Pedrinho Alfaiate, mestre na trena e na tesoura. 

O riacho Capivara estava bem à frente de Zeferino e do cavalo ruço. Ele afrouxou a rédea do cabeção. O cavalo bebeu. Zeferino aproveitou para acender um cigarro. Bateu o bingo. Tirou a primeira baforada. A segunda. Voltou o pensamento para a namorada. Sara Regina daria uma boa esposa e uma boa mãe. Tirou outras baforadas. A fumaça foi-se perdendo no ar. Encostou os pés, de leve, no vazio do animal. Para trás deixaram o riacho. Subiram a ladeirinha pouco íngreme. À frente, uma cobra papa-pinto cruzou o caminho, rastejando lentamente. 

O sol começou a fazer seu último giro, escorregando para o abismo da noite. O céu encheu-se de dourado e vermelho. Em pouco, o pôr-do-sol. Seria a hora dos pássaros baterem asas na última revoada do dia. Um ventinho sapeca balançava os galhos. A estrada era estreita. Árvores por todos os lados. Sucupiras soltavam flores roxas. Um veado mateiro saltou adiante. Fauna e flora em exuberância. 

Enfim, a fazenda Porteiras do novel major. Zeferino destrancou a cancela. Segurou-a, para não deixar bater no mourão. Aproximou-se da casa avarandada. Havia um rebuliço na casa. Apeou. Um moleque dirigiu-se a ele, gritando: “Seu” Maurício bateu a caçoleta!”. Infarto. 

O velho Maurício das Porteiras foi enterrado, envergando a farda engalanada de major da Guarda Nacional. Um luxo.

*Padre, advogado, professor da UFS, Membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE


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