Aracaju (SE), 16 de janeiro de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 30/06/2024 às 17:41
Pub.: 01 de julho de 2024

O pau D´arco e o ente da escuridão :: Por José Lima Santana

José Lima Santana*

José Lima Santana - Foto: Arquivo pessoal

José Lima Santana - Foto: Arquivo pessoal

O tanque do pasto de Tibúrcio Caolho era fundo e de águas escuras. Diziam, na Gameleira, que ali morava um ente da escuridão, que arrastava moças e rapazes para o fundo. Dizeres que, segundo Caolho, vinham dos antigos, dos tempos do Império, quando a primeira moça a ser puxada pelo tal ente foi uma sobrinha do avô do Barão do Araticum, herói da Guerra do Paraguai. Herói, aspas, pois línguas sem vexame alardeavam que o tal Barão nunca que pisou os pés num campo de batalha, menos ainda no Paraguai. Tinha, isto, sim, título de coronel da Guarda Nacional, comprado a peso de ouro e, quem sabia, o título de Barão não passava de lorota dele mesmo, que, de batismo, se chamava Humberto Loureiro de Araújo Cintra, proveniente de Pernambuco. 

O Barão do Araticum fez história naquelas paragens. As terras de Tibúrcio Caolho e de mais uns cinquenta proprietários tinham sido do Barão, que passara para um filho e deste para um neto daquele. Ao morrer, o neto do Barão, que não tinha filhos, deixou a fortuna para cinquenta e três sobrinhos, havidos de oito irmãos e irmãs, falecidos antes dele próprio, embora fosse o mais velho da filharada de seus pais. O neto do Barão veio a falecer aos 102 anos. 

Certo advogado, novato no ramo das judicações, foi quem pegou o inventário do neto do Barão. Uma confusão, era dividir as terras, contíguas, entre os cinquenta e três herdeiros. Um mundão de terras. Porém, o novel advogado, apesar de sua pouca experiência na papelada processual, esquadrinhou, com a ajuda de um fiscal da Prefeitura, para isso regiamente pago, quinhão por quinhão, medindo cada um na base da vara de 2,2 metros, para achar cada tarefa de terra, sabendo-se que um hectare equivalia a 3,3 tarefas. Medida local. 

Domingo. Sol de janeiro a pino. Quebrava a tarde por volta das 14 horas. A feira semanal da pequena cidade já estava nos finalmentes. Bancas e caçuás sendo recolhidos. Dinheiro em notas sebentas sendo contado pelos feirantes. Últimos compradores na pechincha de fim de feira. 

No cartório do único ofício da cidade, Termo de Comarca, o advogado, devidamente engravatado, suava a bicas. Calor infernal. Além dos cinquenta e três herdeiros, entre homens e mulheres, maridos ou esposas de muitos deles. Alarido. Disse-me-disse. Cochichos. Palavras em tom de altercação. “Silêncio!”, pediu o advogado, quase afogado no próprio suor. A custo, o silêncio se fez.

“Vocês já têm conhecimento do croqui, que foi apresentado pelo fiscal, ‘seu’ Totonho Cospe Fogo, dividindo as terras do neto do Barão em partes iguais, como manda a lei”. O advogado sacou um lenço e enxugou o rosto e o pescoço. Sentiu as tripas roncarem. Ainda não tinha almoçado na pensão de Dona Chiquinha de Belo, mãe do oficial de justiça daquele Termo.

O advogado prosseguiu com o palavreado. Nenhuma contestação. “Bem, como todos parecem concordar com o que foi mostrado no croqui, agora só resta aos que ainda não assinaram as procurações, assinar, para eu dar entrada no processo do inventário amigável”. Ouviram-se alguns “Muito bem, doutô!”. 

Quando tudo parecia correr às mil maravilhas, uma voz fanhosa fez-se ouvir no meio da pequena multidão: “Tá tudo bem, e num tá, ‘seu’ doutô!”. Água fria na fervura. “E o que é que não está bem, ‘seu’ Tibúrcio?”. O advogado gravara o nome do contestador, porque era o que mais o tinha aporrinhado, para que fosse feita a medição e a partição das terras. Um piolho de cós, a dizer-se no vulgo. 

“Num é pra encrencar, não, seu doutô, mas tem um senão que precisa ser arresolvido. Sem isso, vai ter confusão”. Cochichos e xingamentos. Fome, sede, calor, o advogado sentia. Suspirou. Tudo parecia encaminhar-se a contento e aquele sujeito, que jamais enganara o advogado, pelo seu jeito mofino, mas arranhento, agora colocava sal no doce.

“Muito bem, ‘seu’ Tibúrcio. Qualquer questão tem que ser resolvida agora. Qual é o problema?”. O sujeito contestador coçou o pé da orelha esquerda. “Olhe bem, seu doutô. O finado nosso tio, o neto do Barão, que Deus o tenha num bom lugar, me deu um pau d’arco, bem antes de morrer. Esse pau d’arco, pelo que vi, ficou no quinhão de Diomedes, meu primo. E eu quero o pau”. O advogado suspirou. Apoiou os braços no balcão do cartório, pelo lado de dentro, onde estava. O escrivão, que cochilava, despertou. 

“Quem sabe que o neto do Barão deu esse pau d’arco a ‘seu’ Tibúrcio?”. Ninguém respondeu. O advogado não perdeu tempo: “Tudo bem. Quem aí conhece esse pau d’arco?”. Um dos primos de Tibúrcio Caolho, Zé de Naninho disse que conhecia. “E quanto vale a madeira desse pau?”. Indagou o advogado. “Vale uns quinze mil cruzêro, doutô”! O advogado puxou a carteira e retirou duas notas de dez mil cruzeiros. “Aqui está, seu Tibúrcio. Mais do que vale o pau d’arco, que ninguém diz saber que o neto do Barão lhe deu, em vida”. Tibúrcio Caolho retrucou: “Quero dinheiro, não. Eu quero é o pau”. 

Fome, sede, calor... O advogado, quase imberbe, abriu a pasta, sacou um berro, calibre 38, cano curto, colocou-o sobre o balcão e vociferou: “Pegue o dinheiro, ‘seu’ Tibúrcio! Eu não estou aqui para brincadeira. Chega!”. Todo mundo se assustou. E Tibúrcio, ainda mais caolho, não teve alternativa. Pegou o dinheiro e ficou sem o pau. 

Tempos depois, ele mesmo inventou a história do ente da escuridão no seu poço, para evitar que as pessoas ali pescassem e tomassem banho.

*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.

Confira AQUI mais artigos do José Lima Santana


Notícias Indicadas

The Beatles Reimagined retorna aos palcos com espetáculo imersivo no Teatro Tobias Barreto

Boleto do IPTU pode ser impresso no Portal do Contribuinte

Stand-up "A Ignorância é uma Dádiva”, de Renato Albani, abre sessão extra em Aracaju

Prefeitura de Aracaju alerta pais e responsáveis sobre cuidados na escolha do transporte escolar

Maior exposição de tubarões do Brasil chega a Aracaju

Ana Carolina apresenta turnê "25 Anas” em abril, no Salles Multieventos

Veja faixas e alíquotas das novas tabelas do Imposto de Renda 2026

Fábricas de fertilizantes em Sergipe e Bahia voltam a operar em meio a riscos no suprimento internacional

Entenda mudanças na aposentadoria em 2026

Governo divulga o calendário de feriados e pontos facultativos de Sergipe em 2026

Conheça os melhores destinos em Sergipe - Pontos Turísticos

Regras para ciclomotores, bicicletas elétricas e equipamentos de mobilidade individual autopropelidos começam a valer nesta quinta; saiba mais

Hapvida vai abrir novo hospital com 130 leitos, urgência, emergência e exames de alta complexidade

WhatsApp

Entre e receba as notícias do dia

Matérias em destaque

Click Sergipe - O mundo num só Click

Apresentação