Endividamento recorde expõe dificuldades financeiras de milhões de brasileiros
Economista explica por que mais famílias dependem do crédito para manter as despesas e quais os impactos para a economia
Durante muito tempo, contrair uma dívida esteve relacionado à aquisição da casa própria, à compra de um veículo ou à concretização de projetos planejados.
Atualmente, porém, para um número cada vez maior de brasileiros, o crédito tem sido utilizado para garantir despesas básicas, como alimentação, pagamento de contas de energia e equilíbrio das finanças mensais.
Em abril de 2026, 80,9% das famílias do país afirmaram possuir algum tipo de endividamento, o maior índice desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), elaborada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
De acordo com o economista e professor da Universidade Tiradentes (Unit), Rodrigo Rocha, o aumento recorde do endividamento está diretamente ligado à combinação de juros elevados, inflação acumulada sobre produtos e serviços essenciais e perda do poder de compra da população. “Com a renda real cada vez mais pressionada por despesas básicas, como alimentação, energia e serviços, muitas famílias passaram a utilizar o crédito não para investir ou adquirir bens duráveis, mas para complementar a renda e conseguir manter os gastos do dia a dia”, explica.
A expansão dos serviços financeiros digitais e a facilidade de acesso a limites pré-aprovados também contribuíram para ampliar a oferta de crédito, muitas vezes sem o devido suporte em educação financeira.
“Além disso, hábitos recentes de consumo, especialmente relacionados às apostas online, passaram a absorver uma parcela relevante da renda familiar, retirando recursos que antes seriam destinados ao pagamento de contas e agravando o desequilíbrio financeiro dos lares”, acrescenta.
Pressão sobre o orçamento
Entre as modalidades de crédito, o cartão continua sendo o principal responsável pelo endividamento das famílias brasileiras.
“Quando o consumidor não consegue quitar o valor total da fatura, entra no crédito rotativo, uma das linhas com os juros mais elevados do mercado, fazendo com que a dívida aumente rapidamente e comprometa cada vez mais o orçamento doméstico”, destaca.
Além do cartão de crédito, outras formas de financiamento também exercem peso significativo nas finanças familiares. “Carnês de lojas, empréstimos pessoais, cheque especial e crédito consignado estão entre as modalidades mais utilizadas.
Em muitos casos, elas são acionadas quando outras alternativas já foram esgotadas, elevando ainda mais o comprometimento da renda”, alerta.
Embora a restrição financeira seja um fator central para explicar o crescimento do endividamento, ela não é a única causa do fenômeno.
Nos últimos anos, a relação dos brasileiros com o consumo também passou por mudanças importantes.
Para as famílias de menor renda, o crédito deixou de ser uma ferramenta pontual e passou a funcionar como complemento do orçamento, sendo frequentemente utilizado para custear despesas essenciais.
Aspectos culturais também influenciam esse comportamento. “O hábito de parcelar compras, a influência exercida pelas redes sociais, a praticidade do comércio eletrônico e a menor percepção dos gastos realizados por meios digitais estimularam escolhas de consumo mais imediatas”, observa o economista.
Embora o problema atinja diferentes perfis, as famílias de baixa renda estão entre as mais vulneráveis, especialmente aquelas que sobrevivem com até três salários mínimos, já que possuem pouca margem financeira para absorver aumentos de preços ou atrasos no pagamento de contas.
“Também merecem destaque as mulheres responsáveis pelo sustento da família, que frequentemente convivem com renda instável, trabalho informal e a responsabilidade exclusiva pelos filhos, recorrendo ao crédito de curto prazo para cobrir despesas básicas”, afirma.
O professor também cita jovens em início de carreira, trabalhadores de aplicativos, autônomos, aposentados e integrantes da classe média baixa entre os grupos mais expostos ao risco de inadimplência.
“Esses segmentos costumam reunir fatores como renda irregular, facilidade de acesso ao crédito digital ou consignado, custos elevados com saúde, educação e despesas do cotidiano, além de pouca proteção financeira para lidar com imprevistos”, completa.
Quando a dívida vira problema
Ter dívidas não significa, necessariamente, estar em situação financeira crítica. “O problema surge quando elas passam a consumir uma parcela excessiva da renda familiar, especialmente acima do limite considerado prudencial, de 30%, reduzindo a capacidade de custear despesas essenciais.
O risco aumenta quando a família passa a recorrer a uma dívida para pagar outra, utilizando, por exemplo, cheque especial para quitar cartão de crédito ou contratando empréstimos para cobrir contas básicas, o que indica desequilíbrio no fluxo financeiro”, alerta.
O cenário se torna ainda mais preocupante quando a reserva de emergência é consumida, quando a família perde o controle sobre financiamentos, parcelas e cartões ou quando o endividamento começa a afetar a saúde emocional, os relacionamentos e o desempenho profissional.
“Nesse estágio, a dívida deixa de ser apenas uma questão financeira e passa a representar uma crise estrutural, marcada por ansiedade, falta de organização e maior vulnerabilidade diante de qualquer imprevisto”, acrescenta.
Impactos para a economia
O elevado nível de endividamento também produz reflexos além das finanças familiares. Com uma parcela significativa da renda comprometida, o consumo tende a diminuir em áreas como comércio, lazer e serviços.
“Com menos recursos disponíveis para a compra de bens e contratação de serviços, empresas registram queda de faturamento, adiam investimentos e reduzem o ritmo de geração de empregos formais, enfraquecendo a dinâmica econômica”, avalia.
As consequências também atingem o sistema de crédito. O aumento da inadimplência leva bancos e instituições financeiras a adotarem critérios mais rígidos para concessão de empréstimos, dificultando o acesso a recursos tanto para consumidores quanto para pequenos empreendedores.
“Além disso, o problema afeta a arrecadação de tributos, aumenta a pressão sobre programas sociais e reduz a produtividade, já que trabalhadores endividados costumam apresentar mais estresse, dificuldades de concentração e problemas de saúde, alimentando um ciclo de crescimento econômico mais lento”, observa.
Mesmo com a melhora observada em alguns indicadores de emprego e renda nos últimos anos, Rodrigo Rocha acredita que isso ainda não foi suficiente para reduzir significativamente o endividamento.
“A recomposição salarial ocorre de forma gradual, enquanto os encargos das dívidas crescem rapidamente. Assim, boa parte da renda continua sendo direcionada para o pagamento de juros.
Além disso, muitas das vagas criadas oferecem remuneração baixa, instabilidade ou informalidade, garantindo apenas condições mínimas de sobrevivência, sem permitir a quitação de débitos acumulados”, explica.
Outros fatores também limitam os efeitos positivos da recuperação econômica, como a demanda reprimida por consumo, que leva muitas famílias recém-empregadas a retomarem compras parceladas, além do peso contínuo de gastos essenciais, como saúde, educação, transporte e tarifas públicas.
“Também se soma a isso o crescimento das apostas digitais, que absorvem parte dos rendimentos. Dessa forma, o aumento da renda, isoladamente, não é suficiente para resolver uma situação marcada por juros elevados, despesas fixas altas e mudanças nos hábitos de consumo”, acrescenta.
Perspectivas
Para os próximos meses de 2026, a expectativa é de que o endividamento permaneça elevado, embora possa ocorrer uma desaceleração gradual do crescimento, sem uma redução rápida da inadimplência.
“Isso tende a acontecer tanto porque muitas famílias já atingiram o limite da capacidade de assumir novas dívidas quanto porque bancos e financeiras devem adotar uma postura mais cautelosa na concessão de crédito para consumidores já bastante comprometidos”, afirma.
Ao mesmo tempo, iniciativas de renegociação, como o Novo Desenrola Brasil, e ações de fiscalização mais rigorosas sobre plataformas de apostas online podem contribuir para aliviar parte da pressão sobre os orçamentos familiares, permitindo a reorganização das finanças e a retomada do pagamento de despesas essenciais.
“Ainda assim, a recuperação deverá ocorrer de forma lenta e desigual, beneficiando primeiro as famílias de renda mais alta, enquanto os grupos de menor renda continuarão mais dependentes de programas de apoio e mais vulneráveis aos efeitos dos juros elevados”, conclui.