Aracaju (SE), 18 de junho de 2026
POR: Marcio Rocha
Fonte: Marcio Rocha
Em: 18/06/2026 às 10:45
Pub.: 18 de junho de 2026

A taxa das blusinhas vai voltar. Enganaram o eleitor! :: Por Marcio Rocha

Marcio Rocha*

Marcio Rocha - Foto: Arquivo Pessoal

Se existe uma coisa que não se pode tolerar, é a utilização de políticas públicas como instrumento de conveniência política em vez de compromisso permanente com a sociedade.
A trajetória da chamada "taxa das blusinhas" revela um problema que vai muito além da cobrança de um imposto sobre compras internacionais. 

Ela expõe uma prática recorrente da política brasileira: a transformação de temas complexos em narrativas simplificadas, vendidas ao cidadão como solução definitiva, quando na realidade muitas vezes representam apenas movimentos temporários dentro de um cenário muito maior.

Primeiro, o brasileiro ouviu que era necessário tributar compras internacionais de pequeno valor para proteger a indústria nacional, garantir isonomia concorrencial e preservar empregos. O argumento apresentado era de que empresas brasileiras enfrentavam uma carga tributária pesada enquanto gigantes estrangeiras vendiam para o país com vantagens competitivas significativas. Era uma justificativa legítima e defensável do ponto de vista econômico.

Pouco tempo depois, a narrativa mudou. A mesma cobrança passou a ser vista como um peso excessivo para o consumidor. O governo recuou, anunciou a retirada do imposto e transmitiu à população a sensação de alívio. Milhões de brasileiros voltaram a acreditar que poderiam comprar produtos mais baratos no exterior sem o impacto daquela tributação adicional.

Mas a grande questão nunca foi o imposto em si. O problema está na forma como essas decisões são comunicadas e percebidas pela sociedade. Quando um tributo é criado, removido ou substituído em intervalos curtos de tempo, o que fica para o cidadão é a sensação de improviso. A impressão é que as regras mudam constantemente, sem estabilidade, sem horizonte e sem compromisso de longo prazo.

A insegurança aumenta quando se percebe que aquilo que foi apresentado como solução definitiva pode, na prática, ser apenas uma pausa temporária. O consumidor não acompanha os detalhes técnicos das mudanças tributárias. Não acompanha as discussões sobre CBS, IVA, reforma tributária ou mecanismos de compensação fiscal. O que ele entende é algo muito mais simples: ontem pagava, hoje não paga, amanhã talvez pague novamente.

A coincidência entre a revogação da taxa e o ambiente eleitoral também merece reflexão. Em política, o tempo das decisões raramente é irrelevante. Reduzir ou eliminar um imposto que afeta milhões de consumidores gera impacto imediato na percepção popular e produz dividendos políticos evidentes. O problema surge quando essa desoneração é apresentada como solução definitiva, enquanto o próprio sistema já aponta para uma nova tributação em 2027.

Na prática, o consumidor pode estar diante de uma ilusão temporária: deixa de pagar hoje para voltar a pagar amanhã. A diferença é que o benefício é sentido imediatamente, enquanto a futura cobrança fica escondida nos detalhes técnicos da reforma tributária. Essa lógica alimenta a desconfiança da população e reforça a sensação de que muitas vezes as decisões são tomadas pensando no próximo ciclo eleitoral, e não na estabilidade econômica do país.

Essa dinâmica gera um desgaste profundo na confiança da população. O cidadão passa a enxergar qualquer anúncio de redução de impostos com desconfiança. Passa a questionar se aquela medida realmente veio para ficar ou se será revertida em um futuro próximo. Em vez de transmitir segurança, a política tributária passa a produzir incerteza.

O mais preocupante é que essa lógica não se restringe às compras internacionais. Ela se repete em diversos setores da economia brasileira. Incentivos são criados e retirados. Benefícios são anunciados e posteriormente revistos. Programas surgem com grande publicidade e desaparecem sem a mesma repercussão. Enquanto isso, empresas, investidores e consumidores tentam planejar suas vidas em um ambiente onde as regras parecem estar sempre sujeitas a revisão.

Nenhuma economia cresce de forma sustentável sem previsibilidade. O empresário não investe quando não sabe qual será sua carga tributária daqui a dois anos. O consumidor não organiza seu orçamento quando não consegue prever o impacto dos impostos sobre os produtos que compra. O investidor não amplia seus aportes quando percebe que o ambiente regulatório muda constantemente.

O caso da taxa das blusinhas tornou-se simbólico porque atinge diretamente milhões de brasileiros. Diferentemente de outros tributos que passam despercebidos, esse imposto afeta uma compra visível, cotidiana e facilmente compreendida pela população. É o jovem comprando roupas, o trabalhador adquirindo acessórios, a família buscando alternativas mais baratas para seu consumo. Quando o preço sobe, todos percebem imediatamente.

Por isso, a discussão deveria ser muito mais profunda do que simplesmente ser favorável ou contrário à tributação. O verdadeiro debate precisa girar em torno da qualidade das decisões públicas. O Brasil precisa de uma política tributária estável, transparente e coerente. Precisa que governos expliquem com clareza não apenas o que estão fazendo hoje, mas quais serão as consequências amanhã.

A sociedade brasileira está cansada de conviver com um sistema em que quase tudo parece provisório. Cansada de anúncios grandiosos que se transformam em frustrações futuras. Cansada de mudanças constantes que dificultam o planejamento das famílias e das empresas. O cidadão não quer privilégios. Não quer favores. Não quer benefícios passageiros. Quer apenas saber quais são as regras e ter a confiança de que elas não serão alteradas a cada nova conveniência política ou fiscal.

No final das contas, o debate sobre a taxa das blusinhas não é sobre roupas, compras internacionais ou plataformas digitais. É sobre credibilidade. É sobre a relação de confiança entre Estado e sociedade. E confiança é algo que se constrói com coerência, previsibilidade e transparência — nunca com decisões que parecem mudar ao sabor das circunstâncias.

O contribuinte brasileiro já suporta uma das maiores e mais complexas cargas tributárias do mundo. O mínimo que ele merece em troca é clareza. Porque impostos podem até ser necessários. Mas a insegurança, a imprevisibilidade e a falta de coerência jamais deveriam ser.

*Jornalista formado pela UNIT, radialista formado pela UFS e economista formado pela Estácio, especialista em jornalismo econômico e empresarial, especialista em Empreendedorismo pela Universitat de Barcelona, MBA em Assessoria Executiva e MBA em Business Intelligence com experiência de 26 anos na comunicação sergipana, em rádio, impresso, televisão, online e assessoria de imprensa.

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