Terra de cabra ruim :: Por José Lima Santana
José Lima Santana*
Hora de comer. O almoço na casa de Américo Bosta Seca era uma fartura. Mesa para ninguém botar defeito, na qualidade e na quantidade de comida. Dona Prazeirinha era cozinheira de mão cheia.
Fazia pratos de dar água na boca até em visagem. Naquela sexta-feira, um grandola da capital iria almoçar na casa de Américo, um deputado amigo de Ferreirinha do Poço do Boi, cunhado de Américo, que andava procurando terras para comprar por ali. Sujeito endinheirado já no primeiro mandato.
Dizia-se que foi eleito a duras penas, arrastado pela legenda do Partido, na última vaga. Não teve nem 10 mil votos, mas elegeu-se. Não era homem de posses, ao candidatar-se e eleger-
se. Todavia, era de negociações com o governo e com empresários. Se terras queria comprar, estaria de burra cheia.
Dona Prazeirinha caprichou mais que o de costume. Duas titelas de capão assadas, frito de folha de couve com charque da chã de dentro, comprada a Manoel de Cirilo da Jabá, galinha de cabidela com pirão amarelinho e temperado de dar gosto, um assado de porco na folha de alumínio, recheado com pedaços de toucinho, feijão verde e arroz temperado. Mesa para ninguém botar defeito.
Assim era a comida na casa de Américo Porto Junqueira, ou Américo Bosta Seca, apelido adquirido ainda nos tempos de menino. E assim ficou. Dona Prazeirinha também caprichou na sobremesa: doce em calda de caju (de caju, não; de cajuí, que era melhor para doce do que o próprio caju), doce de leite curado com cascas de laranja e pudim em calda com ameixa. Para beber, licoes de jenipapo e de jabuticaba, para abrir o apetite, e suco de graviola.
Na casa de Américo não faltavam umas cervejinhas, mais geladas do que mãos desprotegidas de esquimó. Nem umas garrafas de cachaça do alambique Murici. O que o deputado quisesse, seria só se servir. Ou ser servido. Autoridade era autoridade.
Américo Bosta Seca tomou banho por volta das 11 horas. Coisa rara. Não queria passar vergonha diante do deputado, amigo do seu cunhado. Ajeitou-se. Trocou a calça caqui mais suja do que pau de galinheiro por uma de mescal azul e vestiu uma camisa branca de algodão, fresquinha. Afinal, o calor de outubro já era de lascar. Verão na primavera.
Dona Prazeirinha estava com tudo pronto. Até o molho de pimenta malagueta estava nos trinques. Uma tolha xadrez forrava a mesa. Cadeiras espanadas. Pratos, copos e talheres em posição. Nunca que um deputado apareceu para comer em sua casa.
Estava ansiosa. E se o tal não aprovasse a sua comida? Ora, fosse para a casa da peste! Ninguém jamais reclamou ou fez beicinho por conta de seus pratos.
Ferreirinha deveria, então, levar o amigo para a pensão de Loló de Zé Cordeiro, cuja cozinheira, Doralice, conservava vistoso colar de lodo em volta do pescoço.
Passavam uns quinze minutos do meio-dia quando Ferreirinha chegou com o deputado e mais dois sujeitos mal-encarados. Eram o motorista e o segurança do deputado. Mal tiraram os chapéus das cabeças, foram tomando assento à mesa. Almoço servido. Comeram como bichos esfomeados. Elogios em profusão. Um bom café coado desceu pelas goelas do deputado e de Ferreirinha. Os dois acompanhantes recusaram.
Saíram da mesa para um dedo de prosa na varanda. Conversa vai, conversa vem, eis que chegou Tonho de Maurício do finado João Coceira. “Boa tarde, gente”. Ouviu-se um “Boa tarde”, uníssono, em resposta. “Se abanque aqui, compadre Tonho”, convidou Américo.
O deputado, tentando ser agradável, perguntou: “O amigo é daqui mesmo”. A resposta veio ligeira: “Sou não, sinhô. Eu sou do Capão do Mato. O senhor conhece”? O deputado balançou a cabeça, negativamente.
O motorista enxeriu-se e disse: “Terra de cabra ruim, esse Capão do Mato”. Tonho de Maurício era desses cabras destemidos, que não levavam desaforo para casa, fosse de quem fosse. Passou a mão no quarto, onde dormia um Taurus 38, canela seca, que já tinha feito de 10 a 12 defuntos, e perguntou, com a cara mais fechada que traseiro de sapo: “Como é, rapaz”? O sujeito enxerido sentiu o clima e disse, de pronto: “Eu por lá comprei uma cabra, que não dava nem dois litros de leite”. Tirou a sorte grande.
Salvou-se.
*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.
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