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Aracaju (SE), 25 de setembro de 2026
POR: Marcio Rocha
Fonte: Marcio Rocha
Em: 25/09/2026 às 16:37
Pub.: 25 de setembro de 2026

Quando os juros começam a mandar no governo :: Por Marcio Rocha

Marcio Rocha*

Marcio Rocha - Foto: Arquivo Pessoal

Há um momento em que a dívida deixa de ser apenas uma questão de contabilidade pública e passa a determinar o espaço de decisão de um governo. O Brasil parece estar se aproximando desse ponto. Nos 12 meses encerrados em junho de 2026, o setor público acumulou aproximadamente R$ 1,16 trilhão em juros nominais da dívida. É uma conta equivalente a cerca de R$ 22,3 bilhões por semana, ou mais de R$ 3 bilhões por dia, em média. O número impressiona, mas o mais importante não é o tamanho isolado da cifra. É o que ela revela sobre a trajetória das contas públicas.

Nos mesmos 12 meses, o déficit nominal do setor público chegou a aproximadamente R$ 1,32 trilhão. Ou seja, os juros representaram uma parcela enorme do resultado negativo. Isso ajuda a explicar por que o debate fiscal brasileiro não pode mais ser reduzido à pergunta sobre quanto o governo arrecada. A questão decisiva é outra: por que um Estado que arrecada tanto continua convivendo com déficit elevado, dívida crescente e uma despesa financeira dessa magnitude?

Desde 2023, sucessivas medidas foram adotadas para ampliar receitas, recompor arrecadação e reduzir benefícios tributários. Algumas iniciativas podem ser justificadas sob diferentes perspectivas econômicas e fiscais. O problema é que aumentar a receita não resolve, por si só, uma estrutura de despesas que continua pressionando o orçamento. Se cada novo aumento de arrecadação é rapidamente absorvido por novas despesas, pela expansão de compromissos obrigatórios ou pelo custo da própria dívida, o resultado é apenas ganhar tempo.

E tempo, nesse caso, custa dinheiro.

A matemática da dívida é implacável. Em junho, a Dívida Pública Federal alcançou aproximadamente R$ 9,27 trilhões, dos quais cerca de R$ 8,92 trilhões estavam na dívida mobiliária federal interna. Quanto maior o estoque da dívida, maior a necessidade de refinanciamento. Quanto maior o custo desse financiamento, maior a despesa com juros. E quanto maior a despesa financeira, menor o espaço disponível para outras prioridades. É um mecanismo que pode se retroalimentar.

O problema não é simplesmente ter dívida. Economias modernas convivem com dívida pública e, em determinadas circunstâncias, o endividamento pode financiar investimentos, amortecer crises e sustentar políticas anticíclicas. A questão é a trajetória. Uma dívida sustentável é instrumento de política econômica. Uma dívida que cresce persistentemente mais rápido do que a capacidade de pagamento começa a se transformar em restrição à própria política econômica.É nesse ponto que os juros deixam de ser apenas uma despesa e passam a influenciar as escolhas do governo.

Quando bilhões precisam ser destinados ao serviço da dívida, cada decisão orçamentária passa a disputar espaço com uma conta financeira que não desaparece porque outras prioridades são consideradas mais importantes. O governo pode querer investir mais em infraestrutura, ampliar programas sociais, melhorar serviços públicos ou reduzir impostos, mas todas essas decisões precisam ser compatíveis com uma realidade: existe uma parcela crescente do orçamento que já está comprometida com decisões tomadas no passado.

É por isso que os R$ 22,3 bilhões por semana são mais do que uma estatística impressionante. Eles representam uma forma de medir o custo da perda de espaço fiscal.

E espaço fiscal é liberdade.

Um governo com margem financeira consegue responder a uma recessão, enfrentar uma emergência, acelerar investimentos ou adotar medidas temporárias para estimular a economia. Um governo com pouca margem precisa escolher entre aumentar receitas, cortar despesas, elevar o endividamento ou aceitar uma deterioração ainda maior das contas. A diferença entre essas duas situações não aparece necessariamente em um único indicador. Ela aparece na capacidade de decidir.

Por isso, o debate fiscal precisa amadurecer. A pergunta não deveria ser apenas se o governo arrecadou mais ou menos. Também não deveria se limitar à discussão sobre qual imposto aumentou ou qual benefício tributário foi reduzido. O ponto central é saber se a estrutura de receitas e despesas é compatível com o tamanho da economia brasileira e com a trajetória da dívida.

Aumentar a arrecadação pode fazer parte da solução. Mas existe um limite econômico para essa estratégia. Empresas precisam investir, consumidores precisam ter renda disponível, empreendedores precisam assumir riscos e a produtividade precisa crescer. Se a resposta para cada desequilíbrio fiscal for simplesmente buscar mais receita, chega-se inevitavelmente a uma questão maior: qual é o impacto dessa estratégia sobre o próprio crescimento econômico?

É preciso olhar também para a qualidade do gasto. Não basta perguntar quanto o Estado gasta. É necessário perguntar o que esse gasto entrega, quais despesas são prioritárias, quais produzem retorno econômico e social e quais compromissos podem ser revistos. O debate responsável não é entre “mais Estado” ou “menos Estado” como se fossem conceitos absolutos. É sobre qual Estado o país consegue financiar de forma sustentável.

O custo de adiar essa discussão também cresce com o tempo. Reformas são politicamente difíceis, revisão de despesas é complexa e mudanças estruturais raramente produzem resultados imediatos. Mas a matemática não espera que o ambiente político fique conveniente. A dívida continua sendo refinanciada, os juros continuam incidindo e o orçamento continua sendo pressionado.

O risco, portanto, não precisa ser uma crise espetacular. Pode ser algo mais silencioso: uma economia que cresce menos porque o setor público tem cada vez menos capacidade de investir; um orçamento progressivamente engessado; uma política econômica com menor margem de manobra; e uma sociedade que paga mais impostos sem perceber melhora proporcional na qualidade dos serviços públicos.

Esse é o paradoxo que precisa ser enfrentado.

O Brasil arrecada muito, mas ainda assim não consegue produzir uma trajetória fiscal confortável. A dívida cresce, os juros pesam e o espaço para novas escolhas diminui. A discussão deixou de ser apenas sobre quanto o governo consegue arrecadar. É preciso discutir quanto consegue gastar, onde gasta, qual retorno obtém e, principalmente, qual dívida está disposto a transferir para o futuro. Porque existe uma diferença importante entre financiar o presente e hipotecar o futuro.

R$ 1,16 trilhão em juros em apenas 12 meses é um número grande demais para ser tratado como simples estatística. É o preço de uma escolha econômica acumulada ao longo do tempo. E talvez a pergunta mais importante não seja quanto o governo ainda consegue arrecadar. A pergunta é: quanto do futuro do Brasil ainda poderá ser decidido livremente se uma parcela cada vez maior do orçamento continuar comprometida com o passado?

A dívida não tira apenas dinheiro do presente. Quando cresce sem controle, começa a tirar escolhas do futuro.

*Jornalista formado pela UNIT, radialista formado pela UFS e economista formado pela Estácio, especialista em jornalismo econômico e empresarial, especialista em Empreendedorismo pela Universitat de Barcelona, MBA em Assessoria Executiva e MBA em Business Intelligence com experiência de 26 anos na comunicação sergipana, em rádio, impresso, televisão, online e assessoria de imprensa.

Confira AQUI mais artigos de Marcio Rocha.

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