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Aracaju (SE), 19 de fevereiro de 2026
POR: Bia Muniz
Fonte: Fausto Leite Portal de Notícias
Em: 19/02/2026 às 07:50
Pub.: 19 de fevereiro de 2026

A minha, a sua, a nossa Mulher Maravilha :: Por Bia Muniz

Tatiana Lobo Coelho de Sampaio - Foto: Reprodução | Fausto Leite Portal de Notícias

Ah, meu Deus. Eu não poderia deixar de falar dessa mulher. Eu, que já me achei plenamente realizada, com diplomas na parede, carreira consolidada, reconhecimento público e trajetória acadêmica respeitável, precisei recalibrar minha régua diante de Tatiana Lobo Coelho de Sampaio. Porque há uma diferença brutal entre sucesso pessoal e relevância histórica. E Tatiana não construiu uma biografia vaidosa. Construiu uma possibilidade concreta de devolver movimento a quem havia perdido quase tudo.

Professora associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, doutora em Ciências Biológicas, chefe de laboratório, pesquisadora com mais de duas décadas dedicadas à biologia regenerativa, ela não surgiu do nada nem de viralização oportunista. Sua trajetória é acadêmica, sólida, construída em silêncio metodológico. Enquanto o Brasil se entretinha com manchetes leves e disputas ideológicas rasas, ela estudava a matriz extracelular, aquele microambiente onde neurônios crescem, se organizam e se conectam.

A polilaminina, frequentemente chamada de vacina nas redes sociais, não é vacina no sentido clássico, mas uma abordagem terapêutica experimental baseada na proteína laminina, fundamental no desenvolvimento neural. A ideia é simples e sofisticada ao mesmo tempo: usar a própria lógica biológica do corpo para estimular regeneração em lesões medulares. Isso não é discurso místico, é engenharia biológica aplicada. E quando pacientes tetraplégicos e paraplégicos relatam recuperação de movimentos em protocolos clínicos autorizados, não estamos diante de fantasia. Estamos diante de ciência.

E é aqui que a indignação começa a ganhar contorno político. A pesquisadora já relatou que o Brasil perdeu a proteção internacional da patente por falta de pagamento das taxas no exterior, em meio a cortes orçamentários que atingiram duramente universidades federais a partir de 2015 e 2016, durante o governo Dilma. Perder patente internacional significa abrir mão da exclusividade global de exploração tecnológica. Significa que outros países podem copiar. Significa que o Brasil cria e o mundo comercializa.

Esse não é um detalhe burocrático. É um erro estratégico. País que investe décadas em pesquisa e não protege sua propriedade intelectual está dizendo, em alto e bom som, que não sabe transformar conhecimento em soberania. A perda da patente não é apenas falha administrativa. É sintoma de um modelo que trata ciência como despesa e não como ativo estratégico. E isso atravessou governos, porque o desmonte do financiamento científico não começou ontem nem terminou hoje.

Enquanto isso, assistimos a bilhões sendo discutidos em escândalos envolvendo o Banco Master, investigações sobre operações financeiras, suspeitas que atingem fundos garantidores e impactam inclusive sistemas ligados ao INSS e aos Correios. Quando o assunto é rombo financeiro, a mobilização é imediata. Quando o assunto é laboratório público sem verba, a resposta é silêncio técnico e nota protocolar. A diferença de tratamento revela a hierarquia real de prioridades.

E há ainda a contradição simbólica. O governo federal anunciou repasses milionários para o Carnaval, cifras que ultrapassam dezenas de milhões de reais em apoio cultural e turístico. Carnaval é cultura, é economia, é identidade nacional. Mas quando uma universidade federal enfrenta cortes de água, de energia, de insumos básicos para pesquisa, a pergunta que ecoa é simples: onde está o planejamento? Onde está o pacto estrutural pela ciência? A UFRJ não pode ser tratada como peso orçamentário quando abriga pesquisas capazes de transformar a vida de milhares.

A fala de reitores denunciando falta de recursos não é dramatização. É alerta institucional. Universidade pública não é luxo ideológico. É infraestrutura de país desenvolvido. Cada contingenciamento sucessivo envia ao pesquisador a mensagem de que seu trabalho é negociável. E ciência não floresce em ambiente de improviso permanente.

Agora, voltemos ao contraste social que escancara a distorção cultural brasileira. Influenciadoras com milhões de seguidores dominam timelines, campanhas publicitárias e debates superficiais. Mulheres bonitas, carismáticas, empresárias da própria imagem. Não é a beleza que está em julgamento. É o culto desproporcional à visibilidade vazia. O Brasil transforma estética em mérito e ignora densidade intelectual.

Durante o Carnaval, musas são celebradas como símbolos máximos de representação nacional. Corpos expostos, holofotes, patrocínios. Enquanto isso, uma pesquisadora que dedica 25 anos à biologia regenerativa mal recebe reconhecimento institucional consistente. O problema não é a festa. É o desequilíbrio. É a inversão de centralidade.

Tatiana não vende produto. Não faz publi. Não dança para algoritmo. Ela lidera um laboratório, orienta alunos, publica artigos, coordena equipe multidisciplinar, enfrenta trâmites regulatórios complexos e ainda precisa justificar por que ciência merece orçamento. Essa mulher não é apenas relevante. Ela é estratégica. Ela é o tipo de profissional que define se o Brasil será consumidor ou produtor de tecnologia.

Quando um país não enaltece suas cientistas, mas transforma entretenimento em eixo civilizatório, ele escolhe viver de curto prazo. E curto prazo não constrói soberania. O retorno social de uma pesquisa que pode devolver mobilidade a pessoas com lesão medular não é apenas médico. É econômico, psicológico, familiar, previdenciário. É redução de custo público a longo prazo. É dignidade humana restaurada.

Eu escrevo este editorial não como militante, mas como jornalista que aprendeu a cruzar dados, discursos e prioridades. O Brasil não olha para essa mulher como deveria. Não transforma seu trabalho em projeto de Estado. Não a protege com a robustez institucional que protegeria um ativo estratégico nacional. E isso revela uma imaturidade estrutural.

Enaltecer Tatiana não é ato simbólico. É reconhecer que ciência é a única forma sustentável de desenvolvimento. É pressionar governos, atuais e passados, a assumirem responsabilidade por cortes que comprometeram patentes, por falta de planejamento que fragilizou universidades, por negligência que custou protagonismo internacional.

Se queremos ser um país sério, precisamos inverter a lógica da celebração. Influência não pode valer mais que impacto. Aparência não pode pesar mais que descoberta. E governo nenhum deveria sair ileso quando a ciência brasileira perde espaço por falta de investimento. Eu sou Bia Muniz. E não escrevo para agradar. Escrevo para lembrar que na história das nações, quem escolhe o entretenimento como prioridade e negligencia a ciência acaba sempre pagando a conta.

Matéria cedida pelo Portal de Notícias Fausto Leite, para publicação na íntegra.


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