Aracaju (SE), 26 de junho de 2026
POR: Laís Marques
Fonte: Asscom Unit
Em: 26/06/2026 às 09:36
Pub.: 26 de junho de 2026

Hiperconectividade e busca por desempenho alimentam o esgotamento mental

Psicóloga explica como redes sociais, notificações constantes e a pressão por produtividade afetam o bem-estar e dificultam os momentos de pausa

Hiperconectividade e busca por desempenho alimentam o esgotamento mental - Foto: Divulgação

Estar online deixou de ser apenas uma opção e passou a fazer parte das exigências da vida moderna. Entre mensagens instantâneas, alertas constantes e uma enxurrada de conteúdos nas redes sociais, o cérebro encontra cada vez menos oportunidades para descansar. 

Embora o burnout seja oficialmente associado ao ambiente de trabalho, a hiperconectividade e a pressão permanente por atenção, desempenho e produtividade também contribuem para o desgaste mental em diferentes esferas da vida. Como consequência, cresce o número de pessoas que se sentem exaustas, ansiosas e incapazes de se desligar.

De acordo com a psicóloga e professora da Universidade Tiradentes (Unit), Jucimara Cabral, esse contexto está ligado a fenômenos como fadiga digital, tecnoestresse e social media burnout, conceitos que descrevem os efeitos prejudiciais do uso excessivo de tecnologias e redes sociais sobre a saúde mental e o bem-estar. 

“Entre os fatores mais frequentemente associados a esses quadros estão a pressão para permanecer sempre disponível, a exigência de produzir e compartilhar conteúdo continuamente, o medo de julgamentos negativos e a comparação constante com versões idealizadas da vida exibidas nas plataformas digitais”, explica.

Esse mecanismo de comparação social tem sido associado não apenas ao desgaste emocional, mas também ao aumento da insatisfação com a própria aparência, já que os padrões estéticos amplamente divulgados nas redes podem reforçar sentimentos de inadequação e sofrimento psicológico. 

“Os sintomas descritos pela literatura incluem afastamento emocional gradual das plataformas, atitudes de desinteresse ou cinismo em relação às interações online, diminuição da sensação de realização pessoal, além de quadros de ansiedade e sintomas depressivos”, afirma.

Recompensa instantânea

Grande parte desse comportamento está relacionada ao funcionamento do cérebro. Curtidas, comentários e notificações ativam o sistema de recompensa, estimulando a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à motivação e à busca por sensações prazerosas. 

Segundo Jucimara, isso ajuda a compreender por que tantas pessoas sentem necessidade de consultar o celular repetidamente ao longo do dia.

“O que torna esse mecanismo ainda mais eficiente é o fato de que as recompensas não acontecem de maneira previsível. Nem toda publicação recebe a mesma quantidade de curtidas ou comentários, e essa imprevisibilidade mantém as pessoas buscando validação. 

Na Análise do Comportamento, esse processo é chamado de reforçamento intermitente e é considerado um dos métodos mais eficazes para manter um comportamento ao longo do tempo. Em outras palavras, não saber quando virá a próxima recompensa faz com que continuemos procurando por ela”, destaca.

Com o passar do tempo, essa dinâmica pode modificar a relação das pessoas com atividades rotineiras. Tarefas que exigem dedicação prolongada, como estudar, trabalhar ou praticar um hobby, passam a parecer menos atraentes diante da gratificação imediata oferecida pelas plataformas digitais.

“Esse processo pode favorecer o aumento da ansiedade, da baixa autoestima, de sintomas depressivos e de dificuldades de concentração. Na adolescência, os impactos tendem a ser ainda mais intensos. 

Isso ocorre porque, nessa fase, os sistemas cerebrais ligados às emoções e à busca por recompensas estão mais desenvolvidos do que aqueles responsáveis pelo autocontrole e pela regulação dos impulsos. Além disso, a necessidade de aceitação social, típica desse período da vida, torna os adolescentes mais suscetíveis à validação recebida no ambiente digital”, explica.

Pressão invisível

A sensação de precisar responder mensagens imediatamente, acompanhar tudo o que acontece em tempo real e permanecer conectado o tempo todo não é apenas uma percepção subjetiva.

Pesquisas já demonstram que esse padrão de hiperconectividade gera consequências concretas para a saúde física e mental. Um dos conceitos utilizados para compreender esse fenômeno é o tecnoestresse, relacionado ao desgaste provocado pelo uso contínuo das tecnologias digitais.

“Quando somos submetidos constantemente a notificações, interrupções, excesso de informações e à necessidade de executar várias tarefas simultaneamente, o organismo pode permanecer em estado de alerta por longos períodos. 

Estudos recentes associam esse processo ao aumento dos níveis de cortisol, conhecido como hormônio do estresse, além de sintomas de burnout, exaustão emocional e tensão psicológica.

O sono também é fortemente afetado. Muitas pessoas percebem que passam mais tempo do que gostariam utilizando o celular antes de dormir, e isso traz consequências importantes”, ressalta.

Por trás dessa realidade existe um fenômeno mais amplo: a valorização crescente da produtividade, do sucesso e da alta performance. Para Jucimara, a sociedade contemporânea tem levado muitas pessoas a acreditarem que seu valor está diretamente ligado ao que produzem ou conquistam. 

“A cultura da produtividade e da alta performance exerce um impacto significativo sobre a saúde mental porque cria a sensação constante de insuficiência. Vivemos em uma sociedade que valoriza resultados, desempenho e sucesso permanente, o que faz muitas pessoas acreditarem que seu valor depende daquilo que entregam. 

Quando essa lógica é internalizada, o descanso passa a ser visto como desperdício de tempo e os erros deixam de ser compreendidos como parte natural do aprendizado”, destaca.

Nesse cenário, comportamentos como perfeccionismo e workaholismo tornam-se cada vez mais frequentes. A pessoa passa a sentir necessidade contínua de produzir, alcançar resultados e corresponder às expectativas, mesmo quando isso prejudica sua saúde física e emocional. 

“Um dos fenômenos mais associados a esse contexto é o perfeccionismo. Hoje sabemos que muitas pessoas não querem apenas fazer um bom trabalho, mas sentem que precisam atingir padrões extremamente elevados para serem aceitas, reconhecidas ou valorizadas. 

O problema é que esses padrões costumam ser inalcançáveis. Como consequência, surgem sentimentos recorrentes de inadequação, autocrítica excessiva, ansiedade e esgotamento emocional”, relata.

A tecnologia potencializa ainda mais essa dinâmica. Com celulares, aplicativos e plataformas de comunicação disponíveis a qualquer momento, as fronteiras entre vida pessoal e profissional tornam-se cada vez mais difusas, dificultando momentos de descanso. 

“A pressão para produzir mais, apresentar melhor desempenho e alcançar resultados continuamente pode se transformar em uma fonte permanente de sofrimento psicológico. 

Cuidar da saúde mental exige não apenas estratégias individuais de enfrentamento, mas também uma reflexão crítica sobre as expectativas que a sociedade estabelece em torno do sucesso e da produtividade”, observa.

A armadilha da comparação

Além da cobrança por desempenho, as redes sociais favorecem comparações constantes. Viagens, conquistas profissionais, relacionamentos felizes e padrões de beleza idealizados aparecem diariamente nas telas, muitas vezes sem revelar os desafios, frustrações e dificuldades presentes na vida real. 

“Isso produz uma percepção distorcida da realidade, fazendo com que muitos usuários sintam que sua própria vida é menos interessante, menos bem-sucedida ou menos satisfatória do que a dos outros”, explica a especialista.

Segundo ela, o contato frequente com conteúdos idealizados está relacionado à diminuição da autoestima, à piora da percepção corporal e ao aumento de sintomas de ansiedade e depressão.

Os adolescentes estão entre os grupos mais vulneráveis, pois atravessam uma fase marcada pela construção da identidade e pela busca de pertencimento. Nesses casos, a aprovação recebida no ambiente digital pode influenciar fortemente a forma como percebem seu próprio valor.

Quando a autoestima passa a depender excessivamente de curtidas, elogios ou validação social, as necessidades emocionais individuais tendem a ser colocadas em segundo plano. 
“Esses efeitos não acontecem apenas porque vemos alguém mais bonito, mais rico ou mais bem-sucedido. Muitas vezes, eles são mediados por emoções como a inveja e por processos de ruminação, ou seja, aquela tendência de revisitar repetidamente as próprias falhas, limitações ou dificuldades. 

A pessoa começa a questionar seu valor, suas escolhas e suas conquistas a partir de parâmetros que, na prática, são irreais e altamente editados”, destaca.

Descansar sem culpa e manter o equilíbrio

Em uma sociedade marcada pela ideia de que é preciso produzir o tempo inteiro, até mesmo o descanso passou a ser motivo de culpa para muitas pessoas. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve esse fenômeno ao afirmar que as patologias do século XXI não surgem apenas de cobranças externas, mas também da exigência interna de fazer cada vez mais. 

“O cérebro não foi projetado para permanecer continuamente em estado de atenção e desempenho. Processos fundamentais ligados à memória, à criatividade, à aprendizagem e à regulação emocional acontecem justamente durante os períodos de pausa e recuperação”, explica.

Ela destaca que descansar não significa o oposto de produzir. Pelo contrário, trata-se de uma condição indispensável para sustentar o desempenho ao longo do tempo e preservar a saúde mental. 

Diante de uma cultura que incentiva a produtividade constante, o consumo permanente e a necessidade de parecer sempre ativo, construir uma relação mais equilibrada com a tecnologia exige mudanças de hábitos e de perspectiva. 

Para a psicóloga, o primeiro passo é desenvolver um uso mais consciente das redes sociais, compreendendo quais necessidades emocionais estão sendo buscadas nesses ambientes.

Também é fundamental criar momentos reais de desconexão, fortalecer vínculos presenciais, estabelecer limites claros entre trabalho e vida pessoal e reconhecer o descanso como parte essencial da rotina. 

Além disso, práticas como mindfulness e psicoterapia podem contribuir para o desenvolvimento de maior consciência sobre comportamentos automáticos e cobranças excessivas. “No fundo, construir uma relação mais saudável passa por compreender que produtividade, desempenho e reconhecimento têm seu valor, mas não podem ser os únicos critérios para definir quem somos. Saúde mental significa viver de maneira sustentável, preservando aquilo que nos permite continuar crescendo sem adoecer no processo”, finaliza.

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