Sergipe tem mais famílias endividadas que a média do Brasil
Análise realizada pelo Núcleo de Comunicação e Inteligência do Sistema Fecomércio-Sesc-Senac, com dados da Pesquisa de Endividamento de Inadimplência do Consumidor (PEIC), indica que Sergipe reúne, ao mesmo tempo, uma proporção de famílias endividadas acima da média observada nas capitais brasileiras e indicadores de inadimplência inferiores aos registrados no país.
Em agosto de 2026, 86% das famílias sergipanas tinham algum tipo de dívida, contra 82% no conjunto das famílias pesquisadas pela PEIC Brasil, desenvolvida pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). Mas, quando o foco passa do tamanho do endividamento para a capacidade de honrar os compromissos, o quadro muda: 23,2% das famílias em Sergipe estão com dívidas em atraso, ante 29,9% no Brasil, e 7,8% declararam não ter condições de pagar as dívidas atrasadas, admitindo insolvência, contra 12,5% no levantamento nacional.
“O contraste ajuda a mostrar por que o nível de endividamento, isoladamente, não é suficiente para medir o grau de estresse financeiro das famílias. Uma parcela elevada da população pode utilizar crédito e ainda assim manter capacidade de pagamento. Para compreender o risco financeiro, é necessário observar também a inadimplência, a duração dos atrasos, o comprometimento da renda e a composição das dívidas”, explica o economista, Marcio Rocha.
A trajetória recente de Sergipe acrescenta uma camada importante à leitura dos dados. Na comparação com agosto de 2025, o percentual de famílias endividadas passou de 82,8% para 86,0%. Ao mesmo tempo, a parcela com dívidas em atraso avançou de 20,2% para 23,2%, enquanto a proporção sem condições de pagar aumentou de 6,6% para 7,8%. Em termos econômicos, isso significa que a parcela de famílias que declararam possuir dívidas não veio acompanhada, no mesmo mês, de uma melhora dos indicadores de atraso. O movimento não permite afirmar, por si só, que houve uma causa específica para essa combinação, mas indica que o estoque de famílias endividadas está enfrentado problemas com diminuição do valor do dinheiro, corroído pela inflação e pelos juros altos, além de outros fatores.
O que diferencia Sergipe do cenário brasileiro
A principal diferença não está apenas na quantidade de famílias que recorrem ao crédito, mas na proporção daquelas que enfrentam dificuldades para administrar os compromissos assumidos. Em Sergipe, 23,2% das famílias estavam com dívidas em atraso, 6,7 pontos percentuais abaixo dos 29,9% registrados no Brasil. A diferença também aparece na incapacidade declarada de pagamento: 7,8% em Aracaju contra 12,5% no Brasil.
A duração dos atrasos reforça a leitura. 39,5% dos inadimplentes sergipanos têm contas vencidas havia mais de 90 dias, enquanto no Brasil esse percentual chegava a 48,5%. O atraso médio, por outro lado, era de 68 dias em Aracaju, ligeiramente superior aos 65 dias registrados no conjunto das capitais brasileiras.
Ou seja, Sergipe apresenta uma parcela menor de inadimplentes e uma participação menor de atrasos superiores a 90 dias, embora o tempo médio de atraso seja um pouco maior. Os indicadores, portanto, não apontam para uma única dimensão de comportamento: há diferenças entre a extensão da inadimplência e a duração média dos atrasos. A divisão por faixa de renda torna essa diferença ainda mais evidente.
Entre as famílias com renda de até 10 salários-mínimos, 86,6% estavam endividadas em Aracaju, contra 84,0% no Brasil. A inadimplência, contudo, alcançava 25,1% em Sergipe, abaixo dos 33,3% observados no conjunto nacional. A incapacidade declarada de pagamento também era menor: 8,1% contra 14,3%.
Entre as famílias com renda superior a 10 salários-mínimos, a distância é ainda maior. Em Sergipe, 80% estão endividadas, contra 72,3% no Brasil. Apesar disso, somente 3,6% tinham dívidas em atraso, ante 15,1% no Brasil, e 1,8% declaravam não ter condições de pagar, contra 5,4%.
O dado sugere que, nas duas faixas de renda, o endividamento elevado não se traduz automaticamente em inadimplência na mesma proporção. A renda disponível e a capacidade de absorver parcelas e imprevistos são elementos importantes para compreender essa diferença. O presidente do Sistema Fecomércio-Sesc-Senac, Marcos Andrade, explica a situação.
“Para as famílias de menor renda, a margem de segurança do orçamento tende a ser mais estreita. Por isso, oscilações de renda ou despesas inesperadas podem ter impacto maior sobre a capacidade de pagamento. Os dados da PEIC não permitem, entretanto, atribuir a evolução mensal a uma causa específica sem informações adicionais sobre renda, emprego, preços ou outras condições econômicas. Mas está claro que as famílias mais pobres estão sofrendo com a perda do valor do dinheiro e a dificuldade para honrar seus compromissos, causas diretas do endividamento e inadimplência”, afirmou.
A composição do endividamento também ajuda a explicar o perfil do crédito utilizado pelas famílias.
O cartão de crédito aparece em 99,2% das famílias endividadas em Sergipe, contra 85,1% no Brasil. A diferença é de 14,1 pontos percentuais e coloca o cartão como elemento central da estrutura de crédito na capital sergipana. Os carnês também apresentam participação significativamente maior: 34,0% no estado, mais que o dobro dos 15,8% observados no Brasil. Já o crédito pessoal aparece em 15,9% das famílias sergipanas endividadas, contra 13,1% no levantamento nacional. O crédito consignado alcança 12,2% em Sergipe, ante 7,3% no Brasil.
Em sentido contrário, modalidades associadas à aquisição de bens de maior valor, como financiamentos imobiliário e de veículos, têm participação relativamente maior no conjunto brasileiro.
O desenho sugere uma estrutura de crédito mais concentrada, em Sergipe, nos cartões e compras parceladas, enquanto o conjunto das capitais brasileiras apresenta uma composição relativamente mais diversificada, com maior peso de financiamentos. Indicativo que mostra a baixa renda média da população do estado implica no uso maior do crédito para compras parceladas ou no rotativo. Rocha explica que cartões fazem parte do cotidiano econômico das pessoas.
“Em um país em que tudo está mais caro e o dinheiro perdendo valor significativamente, as pessoas estão usando o crédito até para comprar comida. Essa indignidade chega ao limite de famílias ficarem inadimplentes, apenas para poder sobreviver, comprando alimentos em até 3x no cartão, como é oferecido nos supermercados hoje em dia. A conta não bate e a receita familiar não dá pra manter a casa. Algo de muito errado existe na estrutura econômica, sendo claro, com o governo federal, quando esse absurdo acontece”, comentou.
É importante destacar que os percentuais dos diferentes tipos de dívida não devem ser somados. Uma mesma família pode possuir cartão de crédito, carnê, crédito pessoal e financiamento simultaneamente. Os indicadores representam a participação de cada modalidade entre os endividados.
Endividamento não é sinônimo de inadimplência
Endividamento significa possuir compromissos financeiros ou dívidas. Inadimplência ocorre quando esses compromissos entram em atraso. O atraso pode se prolongar por meses e aumentar a dificuldade de regularização. Já a incapacidade declarada de pagamento representa a situação em que a família afirma não ter condições de quitar as dívidas atrasadas. Marcos Andrade passa o entendimento.
“A existência de uma dívida atrasada, portanto, não significa necessariamente ausência completa de recursos para regularização. Da mesma forma, a incapacidade declarada de pagamento medida pela pesquisa não equivale a um diagnóstico jurídico de insolvência. Tal como ter uma dívida não é ruim, desde que se tenha condições de pagá-la. Pois isso estimula o consumo, gera empregos e retorna no formato de renda salarial para as famílias. O consumo é importante para o funcionamento da economia. O excesso é que é o erro”, disse Andrade.
O Sistema S do Comércio é composto pela Fecomércio, Sesc, Senac, Instituto Fecomércio e 13 Sindicatos Patronais em Sergipe. Presidida por Marcos Andrade, a entidade é filiada à Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que está sob o comando de José Roberto Tadros.