Dois caminhos para Lula 4, qual será? :: Por Marcio Rocha
Marcio Rocha*
Confirmado um quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva: o Brasil entrará em um novo ciclo político diante de uma questão fundamental: será possível conciliar inclusão social, crescimento econômico e equilíbrio das contas públicas em uma mesma estratégia de desenvolvimento?
O desafio vai além da disputa entre desenvolvimentismo e austeridade fiscal. O país precisa continuar gerando empregos, ampliando a renda e movimentando o mercado interno, mas também necessita investir mais, elevar a produtividade e criar condições para que o crescimento não dependa permanentemente de estímulos ao consumo e da expansão das despesas públicas.
Há dois caminhos possíveis para a economia brasileira nos próximos anos. Um poderá conduzir a um ciclo de maturidade econômica, com investimentos, estabilidade e ganhos de produtividade. O outro poderá manter o país preso a um crescimento limitado, marcado por juros elevados, restrições fiscais e dificuldades para ampliar a competitividade. O resultado dependerá, sobretudo, das escolhas econômicas do próximo governo.
O primeiro caminho: transformar crescimento em desenvolvimento
O cenário mais favorável começa pelo reconhecimento de que inclusão social e responsabilidade fiscal não são objetivos necessariamente incompatíveis. Políticas sociais sustentáveis dependem de uma economia capaz de produzir riqueza, gerar empregos e financiar os serviços públicos sem comprometer a estabilidade.
Nesse contexto, Lula 4 teria a oportunidade de amadurecer a política econômica, avançando de uma estratégia concentrada na sustentação do consumo para outra que também privilegie a formação de capital, a inovação e a produtividade. Isso exigiria maior previsibilidade fiscal, controle do crescimento das despesas, melhoria da qualidade do gasto público e uma relação mais consistente com o investimento privado. Não se trata de defender a redução indiscriminada do Estado, mas de assegurar que os recursos públicos produzam resultados econômicos e sociais duradouros.
O Brasil possui vantagens importantes para essa transformação. A força do agronegócio, os recursos minerais e energéticos, o potencial das fontes renováveis, a dimensão do mercado consumidor e as oportunidades de reindustrialização podem sustentar uma nova etapa de expansão. Entretanto, essas vantagens não se convertem automaticamente em desenvolvimento. São necessários infraestrutura, segurança jurídica, qualificação profissional, tecnologia e um ambiente de negócios que estimule a ampliação da capacidade produtiva. A reforma tributária também poderá contribuir para esse processo, desde que sua implementação reduza distorções e custos, simplifique obrigações e ofereça previsibilidade às empresas durante a transição.
Se esse conjunto de medidas avançar, haverá condições para uma redução gradual dos juros, desde que a inflação e as expectativas permitam, favorecendo o crédito, o investimento empresarial e a expansão do comércio e dos serviços.
Nesse ambiente, o crescimento da renda seria acompanhado por ganhos de produtividade. As famílias teriam melhores condições de consumo, as empresas encontrariam incentivos para investir e o Estado ampliaria sua capacidade de financiar políticas públicas. Seria a oportunidade de transformar crescimento econômico em desenvolvimento efetivo.
O segundo caminho: a armadilha do crescimento insuficiente
Existe, porém, uma trajetória menos favorável. Nela, o governo priorizaria a sustentação da atividade econômica por meio da expansão dos gastos e de estímulos à demanda, sem conseguir enfrentar satisfatoriamente os problemas fiscais e estruturais do país.
O consumo poderia continuar movimentando a economia, mas seus efeitos seriam limitados pela baixa produtividade, pelo endividamento das famílias e pelo custo elevado do crédito. Se a trajetória das contas públicas gerasse dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida, os investidores poderiam exigir remunerações maiores para financiar o Estado. Esse movimento pressionaria os juros de longo prazo, dificultaria a redução das taxas de crédito e reduziria o espaço para investimentos privados.
Esse resultado não é automático: a evolução dos juros depende também da inflação, das expectativas, da política monetária e das condições internacionais. Ainda assim, a combinação de incerteza fiscal e baixa produtividade representa um risco concreto para o crescimento. O problema seria especialmente relevante para pequenas e médias empresas, que dispõem de menos alternativas de financiamento. Com crédito caro e perspectivas incertas de vendas, muitos empresários adiariam investimentos, limitariam contratações e concentrariam esforços na manutenção das operações.
O comércio poderia experimentar um paradoxo: uma população que continua demandando bens e serviços, mas com parte crescente da renda comprometida com dívidas e despesas financeiras. O resultado seria uma expansão menos consistente das vendas, pressão sobre as margens e menor disposição para ampliar os negócios.
Nesse cenário, o governo também enfrentaria dificuldades para conciliar despesas obrigatórias, investimentos públicos e metas fiscais. A necessidade de elevar receitas, rever despesas ou adiar projetos poderia aumentar as tensões políticas e reduzir a previsibilidade econômica. O país não precisaria necessariamente entrar em recessão para enfrentar esse problema. Bastaria permanecer crescendo abaixo de seu potencial, sem avanços suficientes na renda por habitante, na produtividade e na qualidade dos empregos. Seria mais um ciclo em que a economia consegue evitar uma deterioração profunda, mas encontra dificuldades para dar o salto de desenvolvimento de que necessita.
O que está em jogo para o Brasil?
A diferença entre os dois caminhos não está simplesmente no tamanho do Estado, no volume de recursos destinados aos programas sociais ou na intensidade do ajuste fiscal. Está na capacidade de articular políticas públicas, estabilidade macroeconômica e investimento produtivo em uma estratégia coerente.
O Brasil precisa de responsabilidade fiscal, mas não de um ajuste que ignore os efeitos sobre o crescimento e a infraestrutura. Precisa de políticas sociais associadas à ampliação de oportunidades, à qualificação profissional e à inserção produtiva. Precisa de investimento público, mas também de condições para mobilizar capital privado e aumentar a eficiência dos recursos disponíveis.
A produtividade será decisiva. O país não poderá depender indefinidamente da ampliação da população ocupada, do crescimento da massa salarial ou das transferências de renda para expandir sua economia. Esses fatores são relevantes, mas precisam ser acompanhados de inovação, educação, infraestrutura e modernização empresarial.
A conjuntura internacional também influenciará o resultado. A demanda por commodities, as relações comerciais com a China, os conflitos geopolíticos e as condições financeiras globais poderão ampliar ou restringir as oportunidades brasileiras. A política econômica precisará combinar prudência macroeconômica com uma estratégia ativa de inserção internacional.
A escolha: administrar e transformar
O eventual quarto mandato de Lula terá uma oportunidade importante: consolidar avanços sociais e enfrentar os obstáculos que historicamente limitam o crescimento brasileiro. Para isso, será necessário superar a ideia de que distribuir renda e produzir riqueza são agendas concorrentes. Uma política de desenvolvimento consistente precisa fazer as duas coisas, criando condições para que os ganhos sociais sejam sustentados pelo aumento da capacidade produtiva do país.
O cenário mais otimista exige previsibilidade, responsabilidade fiscal, investimento, estabilidade monetária e compromisso com a produtividade. O cenário adverso, por sua vez, não é inevitável: pode ser evitado se as decisões econômicas forem capazes de antecipar riscos e corrigir desequilíbrios.
O sucesso de Lula 4 não deverá ser medido apenas pelo crescimento do Produto Interno Bruto ou pelos números do emprego. Será necessário observar se o país conseguirá ampliar persistentemente a renda real por habitante, elevar a produtividade, atrair investimentos e manter as contas públicas em trajetória sustentável.
O Brasil não precisa escolher entre crescimento e responsabilidade, nem entre desenvolvimento econômico e inclusão social. Precisa encontrar uma forma de conciliá-los. O verdadeiro teste do próximo governo será transformar a capacidade de movimentar a economia em capacidade de desenvolver o país. Se conseguir, Lula 4 poderá representar uma mudança de patamar. Caso contrário, o Brasil correrá o risco de continuar administrando suas potencialidades sem convertê-las plenamente em prosperidade.
*Jornalista formado pela UNIT, radialista formado pela UFS e economista formado pela Estácio, especialista em jornalismo econômico e empresarial, especialista em Empreendedorismo pela Universitat de Barcelona, MBA em Assessoria Executiva e MBA em Business Intelligence com experiência de 26 anos na comunicação sergipana, em rádio, impresso, televisão, online e assessoria de imprensa.
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