Unit promove formação internacional com pesquisadores dos EUA para discutir inteligência artificial na Educação
Encontro com especialistas da Molloy University abordou uso consciente da IA, desafios para professores e estudantes e novas estratégias para o ensino e a aprendizagem
O avanço da inteligência artificial (IA) e a popularização de ferramentas capazes de gerar textos, imagens, códigos e outros conteúdos vêm modificando a maneira como as pessoas estudam, trabalham e constroem conhecimento. No campo educacional, esse cenário também impõe novos desafios: professores e estudantes precisam compreender as limitações dessas tecnologias, analisar criticamente os conteúdos produzidos e encontrar maneiras de utilizá-las sem comprometer o desenvolvimento da aprendizagem.
É diante dessa realidade que a Universidade Tiradentes (Unit), por meio da Gerência de Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPED), realiza o ciclo de formação internacional “Demystifying AI for Humanizing Education”. Fruto da parceria entre o PPED e a Molloy University, a iniciativa conta com a participação presencial dos pesquisadores norte-americanos Dra. Tricia Kress, Dr. Max Renner e Dra. Sarah Evans.
Para o assessor de Relações Internacionais da Unit, Ian Bacellar, a vinda dos pesquisadores dos Estados Unidos amplia a oportunidade de discutir uma tecnologia que vem transformando rapidamente o ambiente educacional. Entre os temas trabalhados estão as atividades acadêmicas e as estratégias que podem ser utilizadas pelos professores para que a tecnologia contribua para o desenvolvimento das competências e habilidades esperadas na formação.
“Muitos professores e alunos acabam ficando confusos sobre como realmente lidar com esse processo, quais são as limitações e como a gente deve trabalhar de forma correta para não minar a educação e o processo educativo e de aprendizado. Então, ter os professores Sarah, Max e Tricia conosco para compartilhar o conhecimento deles, a partir de uma posição diferente da nossa, do Brasil, e também de uma perspectiva de pesquisa diferente, é muito enriquecedor”, destaca.
Para Simone Amorim, coordenadora do Núcleo Docente Estruturante (NDE) e professora do PPED, o debate é fundamental porque os desafios da IA não estão restritos ao domínio das ferramentas, mas envolvem a maneira como elas são inseridas nas práticas pedagógicas. “Precisamos fazer com que a inteligência artificial realmente contribua para o aprendizado, porque não é apenas o uso pelo uso, mas o uso consciente. É saber como vamos utilizar esse recurso como uma ferramenta pedagógica para o aprendizado e entender que ele não é somente algo ao qual você faz perguntas e recebe respostas. É preciso analisar essas respostas, ter segurança e ser um profissional ciente e consciente daquilo que está fazendo e apresentando para a sociedade”, afirma.
A programação presencial aconteceu de 17 a 20 de setembro, promovendo discussões sobre os impactos da inteligência artificial nos processos de ensino e aprendizagem. Antes da etapa presencial, o ciclo já havia realizado dois encontros on-line, nos dias 31 de julho e 7 de agosto. Ao todo, a formação reúne docentes da Unit Sergipe e Pernambuco, estudantes de graduação e pós-graduação, integrantes do Tiradentes Tech Park e pesquisador do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP).
Conhecer os limites
O professor Max Renner, da Molloy University, explica que a aproximação com a Unit surgiu a partir de conversas com pesquisadores da instituição e da constatação de que universidades inseridas em diferentes realidades enfrentam desafios semelhantes com a chegada da IA às salas de aula. “Percebemos que todos tínhamos problemas semelhantes sobre como os alunos entendem e aprendem com a inteligência artificial e que tínhamos a oportunidade de nos reunir e compartilhar os problemas que estamos enfrentando”, relata.
Durante a formação, Renner propõe discutir em quais situações e de que maneira a inteligência artificial generativa pode ser incorporada ao ensino, mantendo relação com os objetivos de cada disciplina. Na avaliação dele, não há um modelo único para inserir a tecnologia nas atividades acadêmicas. A utilização deve levar em conta o que o professor deseja ensinar, quais competências pretende desenvolver e quais resultados espera alcançar com os estudantes.
Essa percepção também representa uma transformação na experiência da própria Molloy University. “A instituição inicialmente adotava uma postura mais contrária ao uso da IA, mas passou a reconhecer que simplesmente proibir a tecnologia não prepara os estudantes para lidar com uma ferramenta que já está presente na sociedade e no mercado de trabalho. A proposta, então, passou a ser compreender em quais situações a IA pode contribuir efetivamente para a aprendizagem”, destaca Max.
A professora Sarah Evans chama atenção para outro aspecto relacionado ao uso das ferramentas: o risco de dependência. Segundo ela, a própria dinâmica desses sistemas pode estimular uma interação constante, o que exige cuidado para que a tecnologia não substitua o esforço de pensar e elaborar respostas. A pesquisadora relata que percebeu esse comportamento em si mesma ao começar a recorrer automaticamente ao ChatGPT diante de problemas ou quando precisava desenvolver uma ideia. “Eu queria chegar às minhas próprias soluções. Então, acredito que seja possível utilizar a inteligência artificial de maneira equilibrada, mas isso exige muita disciplina”, conta.
A professora Tricia Kress, por sua vez, apresenta possibilidades de utilização da IA como recurso complementar à construção do conhecimento. “A tecnologia pode auxiliar em tarefas que demandam tempo, como a organização de pensamentos e o levantamento de ideias para um brainstorming, além de funcionar como uma ferramenta de diálogo para que estudantes e professores revisitem aquilo que já produziram e encontrem novas possibilidades de interpretação”, completa.
Para os professores que participam da formação, a experiência representa uma oportunidade de ampliar a compreensão sobre o uso da tecnologia. O diretor de Tecnologia da Unit, professor Fábio Santos, destaca que o encontro permite aos docentes conhecer outras perspectivas sobre a inteligência artificial, além de trocar experiências com pesquisadores estrangeiros. “Tem sido dias de muito aprendizado, de muitas discussões, que fortalecem efetivamente os nossos professores e, consequentemente, os nossos alunos, a partir do momento em que absorvemos esses novos conhecimentos e compartilhamos com eles”, afirma.
De acordo com Fábio, a iniciativa também favorece o contato com especialistas internacionais e proporciona uma experiência de imersão na língua inglesa, utilizada durante as atividades. “Isso nos ajuda a pensar, compartilhar o nosso conhecimento e também aprender com professores renomados do exterior. Nos ajuda também a praticar o inglês, que é uma língua mundial e muito importante para nós”, ressalta.
Desafios em sala
Para o professor Caio Alcântara, dos cursos de Comunicação da Unit, a formação ganha ainda mais relevância diante de uma questão que já faz parte da rotina universitária: como avaliar efetivamente o aprendizado dos estudantes em um contexto no qual ferramentas de inteligência artificial conseguem produzir trabalhos, textos e respostas?
Segundo ele, a inteligência artificial não surgiu apenas recentemente. Recursos baseados nesse tipo de tecnologia já fazem parte de ferramentas utilizadas cotidianamente, como redes sociais e serviços de streaming. “É a primeira vez na história da humanidade que recebemos uma tecnologia que ainda está em processo de desenvolvimento e que ninguém sabe completamente como funciona. Ela não nos foi apresentada como uma tecnologia pronta, resolvida e fechada”, explica.
Esse cenário modifica a relação estabelecida entre professor, estudante e conhecimento. Caio lembra que, antes da popularização da IA generativa, o professor contava com diferentes recursos para verificar a assimilação dos conteúdos, entre eles trabalhos, avaliações e seminários. Com as novas ferramentas, entretanto, torna-se necessário repensar essas formas de avaliação. “Hoje, eu ensino, passo um trabalho e eles podem fazer o trabalho utilizando a inteligência artificial. Então, o que eles me entregam pode ser aquilo que a IA produziu para eles”, pontua.
É diante de situações como essa que Caio considera relevante a proposta do “Demystifying AI for Humanizing Education”. Para ele, a formação se diferencia por não tratar a inteligência artificial apenas como algo positivo ou negativo. Outro aspecto que chamou atenção foi perceber que os desafios enfrentados pela Unit também aparecem em instituições de outros países. “Temos percebido que muitas das angústias e dos problemas que a gente vive aqui, eles também têm vivido lá nos Estados Unidos. Pessoas na Austrália têm vivido, professores na Inglaterra têm vivido. Então, não é uma exclusividade nossa”, relata.
A experiência também possibilita que os conhecimentos desenvolvidos durante a formação sejam posteriormente compartilhados com outros docentes da instituição. Caio considera que, apesar das limitações relacionadas ao número de participantes e à própria barreira linguística, os professores envolvidos diretamente podem contribuir para disseminar os aprendizados. “Podemos nos colocar como multiplicadores dessa formação e só temos a ganhar. Tem sido uma oportunidade ímpar para todo mundo que está participando”, conclui.
Para Fábio, essa disseminação do conhecimento é um dos caminhos para fazer com que os aprendizados da experiência internacional ultrapassem o grupo que participa diretamente das atividades e cheguem a outros professores e, consequentemente, aos estudantes. Dessa maneira, a proposta vai além da capacitação individual e contribui para a construção de uma compreensão coletiva na universidade sobre formas mais conscientes, críticas e alinhadas aos objetivos educacionais de utilizar a inteligência artificial.