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Aracaju (SE), 10 de fevereiro de 2026
POR: Gabriel Damásio
Fonte: Asscom Unit
Em: 10/02/2026 às 08:31
Pub.: 10 de fevereiro de 2026

Biomolécula extraída do quiabo pode ser usada no tratamento de água potável

Uma pesquisa realizada na Unit está desenvolvendo o polímero, que pode diminuir a turbidez da água e ampliar o acesso ao saneamento, reduzindo custos e riscos de doenças

Biomolécula extraída do quiabo pode ser usada no tratamento de água potável - Foto: Asscom Unit

O quiabo, além de ser o principal ingrediente do caruru, um prato típico das culinárias baiana e sergipana, pode baratear e ampliar o alcance do processo de purificação da água. Esta afirmação é possível e vem se confirmando através de uma pesquisa realizada por professores e alunos de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos (PEP), da Universidade Tiradentes (Unit). O projeto, que ganhou o sugestivo nome de “Caruru Tecnológico”, visa desenvolver a partir da mucilagem, conhecida como “baba do quiabo”, uma biomolécula capaz de reduzir a turbidez da água, tornando-a potável e apta para o consumo humano. 

O estudo vem sendo desenvolvido há cerca de dois anos pelos professores Denisson Salustiano dos Santos e Sílvia Maria Egues Dariva, com a participação do pesquisador João Pedro Moreira Prado, aluno de mestrado do PEP, e de outros estudantes de graduação e pós-graduação. Eles ampliaram e aprofundaram uma pesquisa de iniciação científica realizada entre 2022 e 2023 por alunos de Ensino Médio do Centro de Excelência Dom Juvêncio de Brito, escola pública estadual situada em Canindé do São Francisco, sertão sergipano. De acordo com Denisson, eles desenvolveram uma cápsula a partir da fibra do quiabo para reduzir a sujeira de águas barrentas. 

“Eles descobriram na literatura que existia essa potencialidade do quiabo no tratamento da água. Só que a maneira como eles utilizavam ainda não tinha um aprimoramento para potencializar ainda mais o resultado. E eles identificaram dois fatores limitantes para que essa tecnologia evoluísse: o fornecimento contínuo de quiabo, que não é produzido em todo o país; e a garantia de eficiência, pois o processo anterior tinha resultado, mas poderia sofrer algumas oscilações. A gente pegou essa inspiração deles e aprimorou aqui no laboratório, purificando a molécula. Essa modificação garantiu aumento de eficiência, uma estabilidade maior e uma capacidade de aplicação mais diversa”, explica o professor. 

Estas etapas da pesquisa vêm acontecendo no Laboratório de Prevenção e Controle de Incrustação (LPCI), ligado ao Núcleo de Estudos em Sistemas Coloidais (Nuesc), do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP). Nele, os pesquisadores extraem a “baba” do quiabo, cozinhando-o apenas com água, e fazem a purificação dela com água deionizada e outros solventes naturais. Desse processo, é extraído um polímero, com propriedades semelhantes à do amido de milho. Ao ser colocado na água, ele começa a atrair para si as substâncias inorgânicas presentes nela, como barro, areia e poluentes. 

Segundo o professor Denisson, o biopolímero do quiabo já demonstrou boas vantagens em relação aos métodos e insumos convencionais de tratamento de água, que são geralmente baseados em produtos químicos. “O sulfato de alumínio é largamente utilizado hoje, porque é barato, mas tem alguns malefícios. Se aumentar sua concentração na água, ele pode trazer alguns problemas de saúde, principalmente porque ele é consumido ao longo prazo e vai se acumulando no organismo, podendo gerar inclusive malefícios neurológicos. Além disso, o sulfato é oriundo da mineração, que tem uma carga de carbono associada à atividade em si. Com esse polímero do quiabo, estamos usando uma molécula barata, renovável e que envolve uma cadeia de valor que é biodegradável e biocompatível”, argumenta ele. 

Fase de testes

O polímero do quiabo já entrou na fase de testes práticos que analisam a sua eficácia. O primeiro deles, realizado numa estação de tratamento de água em Maceió (AL), analisou a aplicação do produto em escala industrial, substituindo o sulfato de alumínio. Os resultados validaram o sucesso da aplicação, confirmando que ela conseguiu retirar a turbidez da água destinada ao consumo humano. Agora, a substância passa pelas análises de qualidade, que englobam o Laudo de Atendimento aos Requisitos de Saúde e outros testes de laboratório exigidos pelos órgãos reguladores. A partir dos resultados, o produto entra na fase de registro de patentes e de certificações, podendo ser inserido no mercado após a conclusão do processo e as devidas validações.  

O processo de certificação e de inserção no mercado conta ainda com a participação da Aqualuffa, uma startup que surgiu em 2019, a partir de uma pesquisa feita no PEP/Unit pela professora Sílvia Egues com os então doutorandos Denisson Salustiano e Mychelli Andrade Santos. Em processo de implantação no futuro Tiradentes TechPark (TTP), ela oferece soluções sustentáveis para tratamento de água, a partir de um produto que faz a descontaminação de águas oleosas utilizando materiais sustentáveis, além da degradação dos contaminantes e da preparação de microalgas para a produção de energia. O produto desenvolvido durante a pesquisa teve a sua patente concedida há dois anos pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). 

Impactos sociais

Para além do barateamento dos cursos do tratamento de água e esgoto, o novo método tem potencial para ampliar o acesso à água potável em povoações ou comunidades que ainda não tenham acesso a uma rede de saneamento básico. Sílvia Egues acredita que o biopolímero desenvolvido no “Caruru Tecnológico” tem “uma gama de aplicações bastante interessante”, que vai desde o uso doméstico até a aplicação em escala industrial, nas empresas e companhias de saneamento. 

“Estamos desenvolvendo uma tecnologia que possa ser utilizada num processo relativamente simples, como uma filtração. Esse processo pode ser usado como alternativa para locais de difícil acesso, comunidades que não são atendidas por água encanada ou até mesmo comunidades que têm aquelas cisternas para guardar água de chuva. Outra ideia é ter módulos desse material incorporados a reatores que possam ser usados em situações de emergência climática, como uma seca muito grave, uma tempestade ou uma inundação que deixe as pessoas com dificuldade de acesso à água limpa”, sugere ela.

Outro impacto é a abertura de mais uma possibilidade de uso para o quiabo, produto do qual Sergipe figura hoje como o maior produtor do Nordeste, e cuja atividade se concentra principalmente em perímetros irrigados de cidades como Canindé do São Francisco, Poço Redondo, Itabaiana, Lagarto e Ribeirópolis, entre outras. “Como pesquisadores, é sempre prazeroso quando estamos trabalhando em algo que se vê uma aplicação real, em uma pesquisa que pode gerar outro valor que não seja só o acadêmico. Estamos formando alunos para atuarem no mercado de trabalho e ao mesmo tempo dando suporte às empresas, apresentando opções para a indústria, além da possibilidade atender às demandas da comunidade como um todo”, destacou Sílvia. 

Ela se refere aos pesquisadores de pós-graduação e de alunos de iniciação científica que passam pelo projeto durante um período e acabam levando a experiência da universidade para o mercado, ao serem requisitados por empresas e órgãos públicos. É o caso do mestrando João Pedro Moreira, que é formado em Engenharia Civil pela Unit e, ao entrar para equipe do “Caruru Tecnológico”, se envolveu completamente com a área de saneamento básico, onde pretende atuar no futuro. 

“O interesse veio a partir da necessidade de achar um meio de tratamento da água que não fosse tóxico para o meio ambiente, nem para as pessoas. Esse é um interesse bom do saneamento. Trabalhar com isso é um desafio, mas tem conexão, porque o saneamento também é uma vertente da engenharia civil, que sai um pouco dessa ideia de estrutura, concreto, construção. Na perspectiva profissional, eu acredito que a minha participação nesse projeto vai agregar para que eu siga na área de saneamento, se eu for para a indústria ou para pesquisa. Tanto um quanto o outro podem andar de mãos dadas”, garante. 


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