Uso excessivo de telas na infância exige reeducação digital de pais e filhos
No mês dedicado à saúde mental, psicólogo aponta a necessidade de interações reais e contato com a natureza
Com o Brasil figurando entre os países com maior tempo de conexão do mundo — atingindo a média de 116 horas semanais por pessoa, conforme levantamento da empresa de cibersegurança NordVPN —, o uso de dispositivos eletrônicos na primeira infância acende um alerta entre especialistas. Neste Setembro Amarelo, em que a campanha nacional é destinada à conscientização, prevenção do suicídio e cuidado com a saúde mental, psicólogos voltados ao tratamento de ansiedade e distúrbios comportamentais reforçam a necessidade de disciplina e limites conscientes no acesso à tecnologia por crianças.
Diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendam que a exposição às telas ocorra apenas a partir dos 2 anos de idade. No entanto, diante da rotina sobrecarregada das famílias, os eletrônicos frequentemente viram um recurso de afastamento do cotidiano e entretenimento imediato. É nesse contexto que o psicólogo Elvis Vaz reforça a urgência de uma reeducação digital conjunta entre pais e filhos.
“Enquanto mães e pais acompanham a evolução tecnológica, as crianças atuais já nascem imersas nesse universo. Diversos estudos associam o excesso de telas a distúrbios como sono irregular, ansiedade e déficit de atenção. Como os filhos se espelham no comportamento dos adultos, não basta apenas adiar o acesso até os dois anos; é preciso limitar o uso diante das crianças para consolidar uma rotina saudável no ambiente familiar”, explica o especialista.
Vaz ressalta que o ritmo acelerado inerente às telas altera hábitos básicos sem que os adultos percebam. “Ao se alimentar em frente à televisão ou ao smartphone, o adulto mastiga mais rápido, impulsionado pela velocidade do consumo de vídeos e fotos. Isso afeta a absorção de nutrientes e a percepção de saciedade. Essa urgência sutil acaba sendo transmitida às crianças”, alerta.
Consciente dessas diretrizes, a jornalista Michelle Almeida optou por introduzir telas na rotina da filha, Nina, somente aos dois anos e meio. “É tentador colocar um desenho para distrair a criança, mas seguramos até a idade recomendada. Impomos limites claros e policiamos nosso próprio uso do celular perto dela. Televisão é monitorada e ela não faz uso de celular. A presença física e a atenção integral são fundamentais”, relata.
Para o psicólogo, o letramento digital deve ser integrado ao processo de formação da criança, assim como o aprendizado de andar ou falar. “As telas agora fazem parte do universo educacional. É preciso respeitar as etapas do desenvolvimento e orientar o uso com limites bem definidos, evitando prejuízos ao crescimento físico, mental, cognitivo e social. Ensinar as crianças a usar telas é tão importante quanto ensinar a andar”, conclui.
Assim, para além de um uso consciente das telas em geral, estabelecendo limites de exposição, adotar hábitos presenciais no mundo físico, reforçando as interações interpessoais reais e o contato com a natureza se tornam pilares do Setembro Amarelo, que reforça a importância de fortalecimento das redes de apoio e vínculos afetivos.
"As interações sociais no mundo real e a convivência com a natureza são pilares essenciais para a evolução e o crescimento humano. Explorar ambientes reais, como parques e áreas ao ar livre, estimula nossas percepções, atribui novos sentidos às experiências e promove a saúde integrada, fortalecendo tanto o corpo quanto a mente", ressalta o especialista Elvis Vaz.