Atividade física cresce no Brasil, mas casos de diabetes e obesidade disparam
Dados do Ministério da Saúde revelam que a prática de exercício físico aumentou, mas a hipertensão e excesso de peso também cresceram, praticamente ao mesmo tempo
Um levantamento divulgado recentemente pelo Ministério da Saúde aponta que os brasileiros estão se exercitando mais e mudando mais a alimentação, mas ao mesmo tempo tiveram mais casos de diabetes, hipertensão e obesidade. Os dados, que se referem ao período entre 2006 e 2024, são do estudo Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), um levantamento sobre a incidência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) na população, bem como seus fatores de proteção e de risco.
A pesquisa mostra que, neste espaço de 18 anos, a proporção de adultos que realizam atividades físicas moderadas no tempo livre aumentou de 30,3% para 42,3%, mas houve um aumento de 135% na população de adultos com diabetes, passando de 5,5% para 12,9%. Houve crescimento significativo nas condições relacionadas à hipertensão (31%), à obesidade (118%) e ao excesso de peso (47%). Por outro lado, houve uma melhoria na alimentação: o consumo regular de frutas e hortaliças permaneceu estável, em torno de 31% da população; mas o de refrigerantes caiu de 30,9% para 16,2%. Quanto às horas regulares de sono, 20,2% dos adultos dormem menos de seis horas por noite, e 31,7% apresentam sintomas de insônia, com maior prevalência entre as mulheres.
“Não é exatamente uma contradição, mas são movimentos que acontecem paralelamente. Houve, sim, crescimento na prática de atividade física no tempo livre, o que é uma excelente notícia. Porém, isso não significa que a população tenha se tornado menos sedentária como um todo. Muitas pessoas fazem uma hora de exercício por dia, mas passam o restante do tempo sentadas, no trabalho, no trânsito ou em frente às telas. Além disso, doenças como obesidade e diabetes têm múltiplas causas. Não dependem apenas de exercício, mas também de alimentação, sono, estresse, genética, ambiente e acesso à saúde”, contextualiza o médico endocrinologista Leonardo Figueiredo Inácio de Souza, professor do curso de Medicina da Universidade Tiradentes (Unit).
Ele atribui o crescimento das DNCTs às mudanças profundas que a sociedade viveu em seu estilo de vida nas últimas décadas, com maior consumo de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sal. “Dormimos menos, trabalhamos muitas horas sentados, passamos mais tempo em frente às telas e nos deslocamos menos a pé. Além disso, a população está envelhecendo, e o risco dessas doenças aumenta com a idade. Portanto, mesmo com mais pessoas praticando atividade física, o conjunto de fatores que favorecem alterações metabólicas continua presente”, afirma o professor.
Por sua parte, o crescimento da atividade física nas horas de lazer, principalmente com uma maior presença de pessoas nas academias de ginástica e musculação, é creditada a “uma mudança cultural importante” que está em curso neste momento, com uma melhor conscientização das pessoas sobre os cuidados com a própria saúde e com a qualidade de vida. “Hoje, há mais informação disponível sobre prevenção e qualidade de vida. A atividade física passou a ser associada não apenas à estética, mas à saúde mental, ao envelhecimento saudável e ao bem-estar. Também houve maior oferta de academias, grupos de corrida, assessorias esportivas e espaços públicos voltados à prática de exercícios. Isso facilita a adesão e estimula a continuidade. É um movimento positivo e que deve ser fortalecido”, elogia Leonardo.
Escolhas e incentivos
Este movimento vem sendo acompanhado por políticas públicas que incentivam a prática esportiva e a atividade física orientada. Estados e municípios são estimulados a criar seus programas esportivos e a investir na construção de ciclovias, calçadões, parques e programas comunitários de exercício, a exemplo do “Academia da Cidade”, realizado desde 2004 pela Prefeitura de Aracaju. Nacionalmente, o Ministério da Saúde anunciou no mês passado a “Viva Mais Brasil”, estratégia de mobilização que prevê investimentos de R$ 340 milhões em ações de promoção da saúde, prevenção de doenças crônicas e incentivo à atividade física, como o “Academia da Saúde”.
O professor avalia que, quando cada cidade oferece espaços seguros e propícios para a atividade física a seus moradores, ela facilita a adoção de escolhas mais saudáveis. “A prática de não pode depender exclusivamente da motivação individual. O ambiente precisa favorecer esse comportamento. Quanto mais acessível e seguro for se movimentar, maior tende a ser a adesão da população”, considera ele, frisando que o enfrentamento das doenças crônicas exige planejamento de longo prazo, integração entre diferentes áreas e continuidade das ações.
“Além de estimular a atividade física, é fundamental investir em educação alimentar desde a infância, facilitar o acesso a alimentos saudáveis, fortalecer a atenção primária à saúde e ampliar ações de prevenção e diagnóstico precoce. Doenças crônicas não são resultado de um único fator. Por isso, a resposta também não pode ser isolada. O mais importante é que essas estratégias tenham implementação efetiva e acompanhamento constante”, acrescenta Figueiredo.
Tais estratégias não surtem efeito se não forem acompanhadas pela adesão individual de cada pessoa, a partir de escolhas individuais que impulsionem a mudança coletiva. “Inserir movimento na rotina, priorizar alimentos naturais, manter acompanhamento médico regular e monitorar peso, pressão e glicemia são atitudes simples que fazem grande diferença ao longo do tempo. Não se trata de buscar perfeição, mas de constância. Pequenas decisões repetidas diariamente têm impacto significativo na saúde”, conclui o endocrinologista.