Aracaju (SE), 08 de janeiro de 2026
POR: Gabriel Damásio
Fonte: Ascom Unit
Em: 07/01/2026 às 14:30
Pub.: 07 de janeiro de 2026

Estresse e ansiedade podem agravar crises de enxaqueca

Especialista fala sobre os gatilhos da doença e por que o tratamento vai além do uso de analgésicos; técnicas psicológicas e abordagem multidisciplinar ganham espaço 

Caracterizada pelas fortes e pulsantes dores de cabeça, a enxaqueca é uma das doenças que mais afetam a população - Foto: Drazen Zigic/Freepik

Uma boa parte da população brasileira se vê forçada a conviver diariamente com dores de cabeça fortes, pulsantes e torturantes, que podem vir acompanhadas por outros sintomas como náuseas, vômitos e sensibilidade à luzes, cheiros e sons. É a chamada enxaqueca, doença neurológica crônica que, de acordo com estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), afeta aproximadamente 34 milhões de pessoas no Brasil, em sua maioria mulheres com idade entre 30 e 50 anos. O alcance do problema impõe uma série de desafios sobre como tratar ou enfrentar essa doença, que ainda não tem uma causa exata definida pela ciência, mas está totalmente relacionada à interação entre o corpo e a mente. 

Já se sabe que existem uma série de “gatilhos” que podem desencadear as crises de enxaqueca, por meio da “liberação de substâncias inflamatórias que produzem dor ao redor dos nervos e vasos sanguíneos da cabeça”, conforme descreve a própria OMS. Esses fatores podem ser corporais, como distúrbios do sono, alterações hormonais e o consumo de álcool e de certos alimentos, e também psicológicos ou emocionais, como o estresse diário, as alterações de humor e até mesmo o medo de enfrentar as crises que virão a qualquer momento. 

“O estresse crônico, a ansiedade e a dificuldade de regulação emocional podem atuar como gatilhos ou amplificadores das crises. Não é que ‘a dor é psicológica’, mas o modo como a pessoa percebe, interpreta e reage à dor influencia o ciclo todo. Por exemplo, a catastrofização, que é aquele pensamento do tipo ‘Essa dor vai me destruir!’, aumenta a ativação fisiológica e, por tabela, a dor. Então, quando a gente trabalha as emoções e pensamentos, a gente não está “tirando a dor da cabeça”, mas modulando o funcionamento do corpo”, explica o professor José Marcos Melo dos Santos, do curso de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit). 

Um caminho que pode ajudar a diminuir o sofrimento das pessoas que convivem com a enxaqueca (e outros tipos de dor de cabeça) pode estar em intervenções comportamentais como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), as técnicas de relaxamento, a atenção plena (mindfulness) e o biofeedback. Segundo o professor, tratam-se de estratégias terapêuticas que ajudam a pessoa a manejar o estresse, reorganizar hábitos e modificar padrões mentais e emocionais que mantêm o ciclo da dor, ensinando o corpo e a mente a saírem do modo ‘alerta constante’ que alimenta a enxaqueca.

“Na prática, estas técnicas mudam a relação de cada pessoa com a dor. Ao invés de lutar contra a dor, o que paradoxalmente intensifica a percepção dela, o paciente aprende a responder de forma mais funcional. Na prática, isso significa menos tensão muscular, menos ansiedade, menos ativação fisiológica e, consequentemente, menos crises. A pessoa deixa de viver “refém” do medo da dor e volta a se perceber no controle da própria vida, mesmo quando a dor aparece”, afirma José Marcos.

Comprovação científica

As consequências positivas da aplicação destas técnicas no combate à enxaqueca estão a poucos passos de serem comprovadas pela ciência. Uma pesquisa publicada em fevereiro do ano passado pela revista científica Headache, com base na revisão de 63 estudos clínicos realizados entre 1975 e 2023, apontou que as intervenções comportamentais, combinadas entre si, podem ajudar a diminuir a frequência das crises de enxaqueca e a intensidade das dores, melhorando a qualidade de vida dos pacientes. Os resultados mostraram uma redução média de cerca de um dia de enxaqueca por mês. 

José Marcos acredita que a conclusão do estudo é uma evidência promissora e esperada, mesmo mantendo o olhar crítico. “A evidência ainda é considerada de baixa certeza e os estudos são heterogêneos, mas a direção é clara: trabalhar o comportamento e o emocional faz diferença. O ponto é que a ciência está apenas quantificando algo que, clinicamente, nós já vínhamos observando há anos: o corpo e a mente não se separam na dor”, avalia, destacando que o estudo aponta caminhos e possibilidades que devem ser seguidas no enfrentamento contra a enxaqueca. 

Tratamento interdisciplinar

Estas intervenções são conduzidas principalmente por psicólogos, especialmente os que trabalham com TCC ou ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso). O professor da Unit, no entanto, defende que elas sejam indicadas pelos médicos e tenham uma abordagem multidisciplinar. “O médico pode e deve indicar, porque o manejo comportamental complementa o tratamento farmacológico. Aliás, quando o paciente só depende da medicação, corre o risco de entrar no chamado ‘uso excessivo de analgésicos’, que piora a enxaqueca. Então, o caminho é justamente unir as duas frentes: médica e psicológica”, argumenta Marcos.

O principal deles, em sua visão, é o tratamento integrado e interdisciplinar entre os profissionais de saúde. “O caminho é interdisciplinar: neurologista, psicólogo, fisioterapeuta, nutricionista… Todo mundo falando a mesma língua. E, do ponto de vista psicológico, investir em programas de manejo do estresse, grupos de TCC, práticas de mindfulness, psicoeducação sobre sono e regulação emocional. A enxaqueca não é só um problema de dor, é um problema de vida. E tratar a vida, isto é, os hábitos, as emoções e a forma como se lida com o próprio corpo, é o que realmente muda o jogo”, completa o professor da Unit.


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