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Aracaju (SE), 06 de julho de 2026
POR: Murilo Gomes
Fonte: Murilo Gomes
Em: 06/07/2026
Pub.: 06 de julho de 2026

Da bola ao petróleo: como a Noruega venceu o Brasil também na economia :: Por Murilo Gomes

Da bola ao petróleo: como a Noruega venceu o Brasil também na economia - Imagem ilustrativa criada por Murilo Gomes/IA

Há derrotas que duram 90 minutos. Outras atravessam décadas. A recente vitória da Noruega sobre o Brasil no futebol serviu para lembrar que, quando o assunto é economia, o placar entre os dois países é ainda mais elástico. E, curiosamente, não porque os noruegueses tenham mais recursos naturais do que nós. Muito pelo contrário: eles apenas fizeram escolhas diferentes.

A Noruega tem pouco mais de 5,6 milhões de habitantes, um território pouco maior que o Estado do Rio de Janeiro e enfrenta invernos rigorosos, passando boa parte do ano sob neve. Ainda assim, figura entre os países com maior PIB per capita e melhor qualidade de vida do planeta.

Quando descobriu grandes reservas de petróleo no Mar do Norte, no fim da década de 1960, o país tinha diante de si um dilema semelhante ao enfrentado por tantas nações ricas em recursos naturais: gastar a riqueza imediatamente ou  transformá-lo em prosperidade permanente, sabendo que o petróleo é um recurso finito eles optaram por forrar o caixa. E a resposta foi surpreendente. Ao invés de vez de criar uma gigantesca estatal para concentrar toda a cadeia do petróleo, os noruegueses decidiram que a maior riqueza não seria o petróleo em si, mas a renda produzida por ele. Assim nasceu o Fundo Global de Pensões da Noruega, hoje o maior fundo soberano do planeta, com patrimônio superior a US$ 2 trilhões. O dinheiro é investido em milhares de empresas espalhadas pelo mundo, e não dentro da própria Noruega, justamente para evitar distorções na economia doméstica e garantir ganhos de longo prazo.

Na prática, isso significa que cada cidadão norueguês possui uma participação indireta nesse patrimônio equivalente a centenas de milhares de dólares por pessoa. O governo adota uma regra fiscal que permite utilizar, em média, apenas cerca de 3% do valor do fundo por ano no orçamento público, preservando o principal para as futuras gerações.

No Brasil, durante muitos anos repetiu-se a frase de que "era preciso fazer o bolo crescer para depois dividir". O problema é que, por aqui, muitas vezes comem o ovo, a farinha, a manteiga e o leite antes mesmo de bater a massa. E notem que eu não disse "comemos". Eu disse que comeram.

Nossa história econômica é marcada por oportunidades desperdiçadas, ciclos de crescimento interrompidos e uma enorme dificuldade de transformar riquezas naturais em patrimônio permanente para a sociedade. O próprio Brasil chegou a criar um fundo soberano, mas ele teve objetivos e trajetória muito diferentes do modelo norueguês e acabou sendo extinto anos depois.

O contraste fica ainda mais curioso quando observamos a relação entre os dois países. Se dentro de campo a Noruega é um adversário complicado, fora dele é também uma importante parceira do Brasil. Empresas norueguesas mantêm investimentos bilionários por aqui, especialmente nos setores de petróleo, energia renovável, mineração, agronegócio e indústria. Atualmente são mais de 230 empresas atuando em 18 estados brasileiros, gerando milhares de empregos diretos e indiretos.

É uma ironia da história.

O dinheiro que ajudou a enriquecer os noruegueses também financia negócios em território brasileiro. Eles investem aqui, obtêm retorno sobre o capital e continuam aumentando a riqueza do fundo que pertence ao povo da Noruega.

No futebol, um placar de 1 a 0 ou 2 a 1 ainda pode ser considerado equilibrado. Na economia, porém, a derrota brasileira parece um confortável 3 a 0.

Quando o assunto é desenvolvimento social, qualidade de vida e renda da população, o marcador se aproxima perigosamente de um doloroso 7 a 1.

A grande lição da Noruega não está apenas no petróleo, nem no dinheiro. Está na capacidade de pensar no longo prazo. Eles entenderam que riqueza não é aquilo que se extrai do solo, mas aquilo que se consegue preservar, multiplicar e devolver à sociedade.

No fim das contas, seja no gramado ou na economia, a Noruega nos ensina a mesma lição: talento ajuda, recursos naturais ajudam ainda mais, mas nenhum dos dois substitui planejamento, responsabilidade e gestão competente.

Afinal, uma boa decisão costuma puxar outra. E uma decisão ruim também. A diferença é que uma constrói prosperidade; a outra apenas acumula oportunidades perdidas.

Murilo Gomes - jornalista e empreendedor

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