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Aracaju (SE), 21 de agosto de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 21/08/2026 às 14:24
Pub.: 21 de agosto de 2026

Vida destroncada :: Por José Lima Santana

José Lima Santana*

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal/José Lima Santana)

Vida destroncada. Viver assim não é viver direito. Não é nem viver torto. Porque não é viver coisa nenhuma. No aperreio, dia e noite. Um sofrimento só. Uma agonia a cada pedaço de minuto. Olho em derredor e o que vejo? Precisão. Mágoa. Abandono. Uma matula de precisão. Que só cresce. Que só se enrosca como cobra ferina em perna de boi desatento. Desatento sou não. Sofredor, sim. Desde que pai meu caiu no mundo de Nosso Senhor. Manequinha das Porteiras torrou juízo pai meu. Azucrinou. Motivo? Belizário de Eliseu, aquele pai meu, este avô de distante defuntação, nunca que se curvou a homem daqui ou dalém. Nunca. Nunca. Nunca. 

Fazendeiro quis comprar por tostões terrinha pai meu. “Vendo não”, disse. 

Fazendeiro de largas terras e maus bofes botou fama ruim em pai meu. “Ladrão de cavalo”. Pai meu, não. Nunca. Nunca que pegou no alheio, nem gerou filhos, este que vos fala e irmão deste, porque somos só dois gerados por Belizário de Eliseu com mãe nossa, morta do segundo parimento, que gerou Pedro, irmão meu, que vó Totonha com ele arribou para Mata Verde, ainda nos cueiros, mal vindo ao mundo. Mãe minha, Rosinha de Belizário, dela lembro pouco, mas lembrança ainda tenho. Do rosto, lembro com uma nuvem por cima, mas que não cobriu os olhos de um azulão de clarear o mundo. Pouco clareou vida minha de quatro anos quando ela partiu. Com pai meu fiquei. Madrasta pai me deu. Donana de Sinhazinha do finado Zé de Mariquinha, gentes que nunca vi. Só de ouvir eu sei. 

Dezoito ou dezenove anos eu fiz. Ao certo, não sei. Papel para provar tenho não. Nem de batismo. Batizado sou não. Donana madrasta minha dizia que futuro bom eu não haveria de ter, sem água benta na moleira pingada por mãos de padre. Sei não. Água na moleira muita eu tomei nos banhos do riacho Capivara. Madrasta minha foi como mãe, mas não foi. Mãe é uma só. Sem igual. Sempre ouvi dizerem isso. Pelo menos, olhos de azulão como mãe minha, Donana nunca que teve. Tinha olhos amarelados como de defunto que não fechava as vistas. Defunto assim eu vi. Marcolino da Tijuquinha, comido de bala em briga por causa de mulher. Briga nenhuma é coisa de valimento. Pena vale viver no sossegado. Pai meu sossego nunca mais teve. Arribou. Para não morrer, nem matar. Donana se foi com ele. Eu fiquei em terra nossa. Pai meu foi viver em terra roxa de cunhado, irmão de Donana. 

Tenho quengo meu em aprumado ajuizamento. Disse a pai meu: “Aqui umbigo meu enterrado. De todo sou obediente. Sempre fui. No entanto, vou zelar cova mãe minha. Até dia de minha arribada. Para ver de novo olhos de azulão”. Dizem que a gente encontra no céu quem antes partiu. Quero ver rosto mãe minha. Sem nuvem. Chorei, não nego. Escondido. Diante de pai meu, não houvera de derramar água dos olhos. Em noite escura de chuva caindo pai meu mais Donana se foram pelo mundo. Jagunços de Manequinha tempo não tiveram para tocaia.

Notícia tenho não. Pai meu e Donana nunca que deram. Por certo, risco não correm de encontrados serem. Tempo houve que conversa de bodega dava conta que Manequinha me pegaria em lugar de pai meu. Medo nunca tive. Um velho aluado, Robertão de Alfredo Zabelê, andou e desandou de conversê. “Belizário homem direito não foi. Arribou no mundo, deixou filho à mercê da sorte ruim”. Ninguém sabe que pai meu tem tutano nos ossos e cabelo nos buracos das ventas. Isso tem. Trama minha ninguém sabe. Nem saber precisa. Nasci com mancha no peito. Estrela de sete pontas. Sinal corpo fechado. Para faca ou bala. Crença do povo. Crença pai meu. Crença minha. Nem cobra de ligeira peçonha comigo pode. Poder de Deus em mim. Caçulinha parteira esbravejou, ao ver sinal: “Menino com partes de Deus ou do demo”. Do demo, não. Partes do coisa ruim não tenho. 

Destroncada vida, sim. Seca para cima de três anos. Três anos e quê. Nada restou. Como porque caço o que posso achar, cada vez mais raro. Gente morrendo nos caminhos fugindo da seca. Velhos e meninos. Montão. Pai meu e Donana se vivos estão, que Deus os guarde, livres estão desta miséria. Socorro não há. Autoridade não tem. Povoados desertos. Ou quase. Ossada de gente e de bichos fedem ao Deus dará. Miséria. Miséria. Deus, se há Deus, e Deus houvera de existir, desviou olhar seu destas terras. Viver assim nunca que é viver. Nem direito nem torto. Só os mais fortes hão de vencer tribulação medonha. Vencer, eu vou. Corpo fechado tenho. Jagunço de Manequinha andejou de treita para riba d’eu. Sumiu. Raio sem trovoada, raio estranho, conta dele deu. “Foi feitiço do que tem estrela de sete pontas”, disseram. Nada fiz. Nada ainda quero fazer. Precisão não há. Por enquanto. 

Manequinha, fazendeiro malfazejo, tem não corpo fechado. Dia virá... Dias virão...

*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.

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