O doginho azul de Zé Corno :: Por José Lima Santana
José Lima Santana*
Zé Corno queria comprar um carro, um de segunda ou terceira mão, dentro de suas posses, que pudesse carregar seus trecos de pedreiro e lhe transportasse, em certos fins de semana, para as pescarias, tão ao seu gosto, nos tanques e riachos das redondezas, onde os donos de terras não se incomodavam com as pescarias. Aliás, afora Donato Bunda Suja, todos os fazendeiros da região permitiam as pescarias de anzol ou tarrafa. Não de rede de arrasto.
Humberto Meia-Sola tinha um Dodge de passeio, 1966, um Doginho azul, a lataria com amassos e furos, corroída pela ferrugem. Mas, parecia ainda bom de motor e de caixa de marcha. Só que ele pediu fora de conta. Não valia o dinheiro pedido. Ficaram, um lote de tempo, no avaluemos, até que chegaram a fechar o negócio. Zé Corno deu uma entrada, 60% do valor combinado e duas parcelas para 30 e 60 dias. Ele venderia uns trecos e cacarecos para fechar o dinheiro das duas parcelas. Homem de palavra, nem careceu de duplicata ou outra garantia qualquer. Tudo certo, nos conformes.
Só que Zé Corno não sabia dirigir. Teve que pagar a Pirulito de Zeca Borges para lhe aventurar ao volante. Entre trancos e barrancos, ele foi dando conta de arrastar o Doginho azul. Quando passou a dirigir sozinho, mas sem habilitação, foi uma festa. Numa manhãzinha, quase atropelou o jegue de Marcinho Canuto, carregado com quatro ancoretas cheias de água, da boa água da Pedreira de baixo, água como que de coco, no dizer abalizado de Dona Júlia de Tonho Miúdo. Como a molecada não perdoava, toda vez que ele passava em frente à bodega de Pedrinho Caborge, alguém gritava: “Olhe o jegue”! Zé Corno, todavia, não dava fiança aos moleques, meninos e homens feitos.
Carrinho bom, o Doginho. Habilitação? Não carecia. Zé Corno nunca que haveria de sair por aí, fora do município. Rodava por ali mesmo, na cidade, atendendo quem precisava de seus serviços e andejando pelos matos, para as pescarias. Para que habilitação? Gastar dinheiro e paciência atoa? Nem pensar.
Motor bom, caixa de marcha sem jamais ter sido aberta. Era o que parecia ser. Um dia, porém, uma encrenca. Ao sair de casa para o serviço, o carro enguiçou. Bateria? Que nada! Nem pegou. Morreu. Dedé mecânico foi chamado. Mexeu daqui, mexeu dali, e eis o veredito: uma peça daqui e outra peça dali, enfim, teria que gastar um dinheirão. Geladeira novinha, comprada a prestação, teve que ser vendida, para comprar as peças do carro. Ficou bom.
Passados uns meses, outro enguiço. Mais dinheiro. Zé Corno vendeu a radiola, na qual ele ouvia os discos de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, os seus favoritos, além de Nelson Gonçalves e Ângela Maria. Oh, dor, ter que se desfazer da vitrola, ficar sem ouvir seus LPs! Mas, era tudo por uma boa causa: ter o seu Doginho azul em condições de rodar.
Já agora, quase ninguém mais gritava “Olhe o jegue”, quando Zé Corno passava, garboso, no Doginho azul, cuja lataria já tinha sido consertada. O carro estava nos trinques. Ao lado do marido, Maria Estela, a segunda mulher de Zé Corno, esta, sim, direita, e não como a primeira, Zuzu de Bartolomeu de Chica Preta, desfilava toda concha, no Doginho azul. Não demorou muito e ela mesma comprou outra geladeira em lugar da que foi vendida para comprar as peças do carro.
Quanto à radiola, Zé Corno estava de olho em uma do compadre Pedro de Ciço de Valdemar, que a queria trocar por uns passarinhos do pedreiro, um canário, um azulão e um cardeal, que cantavam de chamar a atenção de quem os ouvia. Bichinhos danados. Naquele tempo ainda não havia a tão acertada proteção aos animais silvestres, sob a tutela da Justiça. Até podia haver lei, mas não havia a sua efetividade.
O Dodge azul estava na posse de Zé Corno há pouco mais de um ano. Rodava direitinho. Nunca mais dera qualquer problema. Na beira do tanque de Flaviano das Porteiras, depois de uma boa pescaria, com traíras e acarás enchendo dois embornais, cadê o carro pegar? Pegou não. Nem sinal de vida ele deu. Nem um ronquinho escorregadio como de bateria descarregada. Nada. Zé Corno perdeu a paciência. Abriu o capô do Dodge, olhou daqui e dali, como se entendesse de mecânica, coisa que não entendia bulhufas e esbravejou, abrindo os braços: “Você engoliu minha geladeira, engoliu minha radiola, agora me engula, seu fio da gota serena”!
Os três companheiros de pescaria, Xarope, Bem-te-vi Com Sono e Charuto Apagado, caíram na gargalhada.