Palito vestido :: Por José Lima Santana
José Lima Santana*
Palito Vestido. Pense num sujeito magricela! Uma brisa, a mais leve, que tangia uma folha desprendida de uma árvore, era capaz de tanger Palito Vestido de onde ele estivesse para, por exemplo, o Japão, atravessando terras e mares. Era magro de dar dó.
Despido, aquilo devia parecer um caixão de ossos chocalhando. Um caniço açoitado pelo vento num fim de tarde, ao aproximar-se o inverno, aquele ventinho meio que safado, querendo ser frio sem deveras o ser. Prenúncio dos bons invernos.
Abílio Mendes dos Santos era o nome de Palito Vestido, no papel passado. Filho de Afonso Biriba dos Santos, próspero comerciante de miudezas, estabelecido na Praça da Poça, e de Dona Virgínia Mendes, vinda com a família lá do sertão de Pernambuco, ela menina, nas secas de 31 para 32.
Palito Vestido era também considerado do tipo espanador da Lua, do alto do seu 1,85m. Não pesava nem 60 quilos. Desengonçado como um mamulengo, mas boa pessoa até dizer chega. Dezessete anos. Ajudava ao pai, na loja, no período da manhã. À tarde, terças e quintas-feiras, batia bola no segundo quadro do Atlético Clube Sucupira, sem futuro aparente de chegar ao primeiro quadro. Era o que diziam os torcedores mais afeitos aos treinos.
Correr em campo ele corria, mas trato com a bola, não tinha. Apenas fazia número, como afirmava o próprio irmão mais novo, Tutuca, que também treinava no segundo quadro. Tão ruim quanto o irmão mais velho, mas de uma língua solta demais, a zombar de Palito Vestido como se ele próprio valesse um tostão furado na qualidade de jogador. Dois esfrias Sol. Era o dizer de Marcolino Três Olhos, o treinador do segundo quadro. Mas, não tinha outros que os substituíssem.
A garotada de Sucupira estudava à noite, no curso ginasial. Ginásio da Campanha Nacional de Educandários Gratuitos, criada por um jovem estudante paraibano, em 1943. Professores e professoras esforçavam-se para ilustrar a mocidade, como alardeava o padre Betão Fonseca, diretor do Ginásio. Dentre as professoras, a maior parte formada por senhoras já aposentadas da rede estadual de ensino, uma sobressaía-se, a de francês, Maria Júlia. Sobressaía-se pela juventude e pela beleza. Uma Miss, diria Jacintinha de Elpídio Cachaça, amiga íntima da mãe da professora.
Maria Júlia tinha estudado no Colégio das Freiras, em Mata do Cipó, distante vinte quilômetros de Sucupira, cidade maior e de economia pujante. Formara-se professora com as notas mais altas dentre todas as alunas, nos três anos do Curso Normal. Teria grande futuro em qualquer profissão que abraçasse, se pudesse estudar na capital, numa Faculdade. Pensou em fazer Direito, para ser juíza. Porém, o pai, Cecílio do Algodão, maior plantador e comerciante do produto, com duas fábricas de descaroçar o arbóreo, não permitiu que a filha fosse “se perder”, longe de suas vistas. Pobre homem do tempo do Carrancismo!
A jovem professora da língua de Victor Hugo tinha vinte anos de idade. Suas aulas eram encantadoras. Estudara francês com o padre Julien Morin, belga, missionário há mais de trinta anos no Brasil. Os alunos ficavam embevecidos com suas aulas. A pronúncia de cada palavra deleitava a todos, mas a ninguém com mais ênfase do que a Palito Vestido. Ele babava nas aulas de francês. Maria Júlia ensinava que, diferente do que diziam, não se faziam biquinhos ao pronunciar as palavras, salvo quando a letra “u” tinha som de “i”, como, explicava ela, na palavra Dumont, de Santos Dumont.
Pronunciava-se “Dimón”, sem pronunciar o “t”, pois, em francês, as consoantes finais só se pronunciavam quando a palavra seguinte começava com vogal ou “h” mudo. Lição que alguns alunos aprenderam para sempre.
Três anos mais novo, Palito Vestido apaixonou-se por Maria Júlia. Amor platônico. Nunca que ele tivesse manifestado a sua paixão a alguém, menos ainda a Maria Júlia. Roía unhas, corroía-se por dentro, sofria, paixão aguda de adolescente, que não tinha cura, que nem surra de cansanção branco era capaz de tirar. Coragem para declarar-se? Não tinha. Nem em sonho. Deu para andar amuado. Largou os treinos do segundo quadro do Atlético Clube Sucupira.
Faltou a algumas aulas, mesmo as de francês. O irmão o denunciou ao pai. Tiveram uma conversa dura. Domingo à noite. A família de Palito Vestido foi à missa do padre Fonseca. Ele também. No banco ao lado, eis a família de Maria Júlia. Ela também. Olharam-se. Ela sorriu para ele, ou ele assim pensou. Enrubesceu. Após a celebração, ele aproximou-se dela, o coração saindo pela boca. Arranjou coragem sabia-se lá como. Aproximou-se. Não vacilou no passo, não tremeu a voz. “Boa noite, professora”!
Quando ia continuar a falação, Palito Vestido acordou. A missa foi um sonho.
*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.