O lavador de pratos :: Por José Lima Santana
José Lima Santana*

Restaurante rústico, quase na beira de estrada. Zé Carlos, o proprietário, gente da maior finura, embora meio amalucado. O pirão de capão – frango com os bagos arrancados para engordar e tomar melhor gosto na panela –, cozido com ervas e bons condimentos, o pirão feito à base de farinha de mandioca fina, sem embolar, a rabada com agrião, molinha, cuja carne saí sem preguiça dos ossinhos, os caldos de mocotó ou de feijão, a feijoada às sextas-feiras, a fritada de maturí, no tempo de cajus, tudo de dar água na boca, e muito, muito mais. Sem esquecer a buchada de carneiro, o sarapatel, a carne cozida de porco com fígado de boi, a paleta de cordeiro, o inesquecível churrasco misto, os lombos de boi ou de porco, recheados, e a tilápia assada na palha da bananeira. Ah, o molho de pimenta malagueta ou de pimenta de cheiro, a depender do freguês, para quem gosta de ardor e, alguns, de dar sopros, fazendo bico...!
Para abrir o apetite, nada melhor do que bebericar um dos licores de Zé Carlos, na verdade, feitos por sua prestimosa genitora, uma senhora de oitenta e tantos anos. Licor de gengibre com limão, de jenipapo, de jabuticaba, de caju, de mangaba, de murici, de umbu. Os licores ditos finos, que só têm preço, não se igualam aos licores de Dona Josefina, mãe de Zé Carlos.
O restaurante Fina Flor fica em lugar aprazível, um sítio com muitas árvores frutíferas, tudo muito sombreado, o frescor do dia entrando pelas muitas janelas laterais e pelas três portas da frente, quando venta, claro. Mas, mesmo no verão tórrido, um naco de vento dá para se sentir, ainda que seja uma aragem ligeira. Alguns comensais preferem ser servidos nas mesas postas debaixo de uma frondosa mangueira-espada. No tempo da safra, o risco é uma manga cair no cocorote de alguém. Afora isso, é uma delícia para quem gosta, ficar sob a sombra da mangueira. Vez ou outra, tem-se que tanger uma abelha arapuá desgarrada ou um marimbondo afoito, do vermelho e de ferrão afiado. Porém, isso é besteira.
Não se pode esquecer das guloseimas, na sobremesa. Doces em calda de mamão, goiaba, banana, jaca e caju. Doce de laranja. Doce batido de banana e goiaba. Baba de moça, o doce de coco verde, uma preciosidade. Cocada preta, de fato, morena. Queijo de coalho com melaço de engenho, do amarelinho, uma finura. Nada de doces industrializados ou armengados, como os achocolatados. Nada disso. Ah, sim, os sorvetes, todos da lavra do próprio restaurante! O sorvete de coco e o de mangaba, santo Deus! Tem até diet, de ambos. Sorvetes de tapioca, manga, goiaba. Tudo da melhor qualidade, tudo caseiro. E tudo muito limpo. Eis o que não faltava no Fina Flor: higiene.
Festa na cidade. Almoço para o governador e comitiva. Onde? No Fina Flor. Dia de muito rebuliço. O prefeito Jorjão das Flanelas encomendou tudo do bom e do melhor. As excelências seriam servidas com esmero. Zé Carlos contratou mais gente, de auxiliares de cozinha a garçons e recepcionistas. Tudo em perfeito estado. Perto das 13 horas, uma montoeira de carros oficiais foi chegando. Autoridades e cupinchas. Satisfeito com o anúncio de algumas obras para a cidade, o prefeito sorria de orelha a orelha, ao lado do governador. Quando tudo parecia nos conformes, eis o diabo para atentar.
Uma assessora palaciana meteu-se a dar voltas pela área sombreada. Mais do que a primeira-dama, muito mais do que duas secretárias de Estado, ela posava como se fosse a esposa do último Xá da Pérsia. Metida que só ela. No fundo do restaurante, tinha um telheiro e sobre ele uma enorme pia com uma bancada em azulejo branco, muito branco. Era o local onde se lavavam utensílios, pratos, copos, taças e talheres. Como sempre, tudo muito limpinho. E tudo no seu devido lugar: sabão, detergente, esponjas etc. Ao aproximar-se de um jovem que lavava alguns utensílios, ela viu que o moço era cego. Deu um chilique. Tratou logo de criar caso, chamando o chefe de gabinete do prefeito, que, por sua vez, subiu nas tamancas e chamou Zé Carlos. Ambos queriam explicações. “Como pode uma pessoa cega trabalhar lavando pratos e talheres em um restaurante, que vai servir a sua excelência, o governador, e sua comitiva? O prefeito vai ser informado desse desatino”. Zé Carlos não se fez de rogado e mandou esta: “Ô seu bostinha de cabrito saltitante, lava-se pratos e talheres com as vistas ou com as mãos”?
Deveras, Adelino Cego trabalhava há mais de dois anos, fazendo aquele serviço. Ele tinha noção de tudo: sabia onde estava cada objeto de serventia para a lavagem, como sabões, esponjas e detergentes, conhecia cada utensílio pela forma com o uso do tato bem desenvolvido e melhor utilizado. Onde estavam os escorredores e os panos de prato para enxugar. Ninguém jamais reclamou de uma gordurinha em um prato, de um restinho de comida entre os dentes de um garfo, de um cabo de faca gosmento, nada, nadica de nada. No seu jeito meio amalucado, Zé Carlos deu duas bananas à assessora do governador e ao chefe de gabinete do prefeito. Deu mesmo. “Vai-te embora daqui cambada de peste”!