Projeto Rede Solidária de Mulheres de Sergipe destaca a importância dos Quintais Produtivos para a soberania e a segurança alimentar
A fome e a insegurança alimentar seguem sendo desafios estruturais no Brasil, mesmo diante de avanços recentes. Dados do IBGE (2024) e da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia) apontam que, de 2023 para 2024, mais de 2 milhões de pessoas saíram da condição de insegurança alimentar grave, e 8,8 milhões passaram a viver em situação de segurança alimentar. A redução ocorreu tanto em áreas urbanas quanto rurais e em todas as regiões do país.
Diante desse contexto, o projeto Rede Solidária de Mulheres de Sergipe, uma iniciativa da Associação das Catadoras de Mangaba de Indiaroba (Ascamai), com apoio da Petrobras e da Universidade Federal de Sergipe (UFS), desenvolveu, através das oficinas de Agroecologia, os Quintais Produtivos, que se apresentam como uma tecnologia social fundamental para a promoção da soberania e da segurança alimentar, especialmente a partir do protagonismo das mulheres.
De acordo com a engenheira florestal do projeto, Chiara Donadio, os quintais produtivos são espaços de produção, resistência e transformação social, presentes no campo, na cidade e em áreas periurbanas. “Neles, articulam-se dimensões produtivas, sociais, culturais, ambientais e políticas, valorizando o trabalho produtivo e reprodutivo das mulheres, seus saberes tradicionais e suas formas coletivas de organização”, afirma.
Ela ainda complementa que as áreas de produção são diversificadas de alimentos saudáveis, sementes e insumos, fundamentais para garantir autonomia alimentar, geração de renda (monetária e não monetária), dinamização da economia local e fortalecimento do desenvolvimento sustentável. “Mais do que espaços produtivos, os quintais são também lugares de afetividade, cultura viva e fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários”, complementa.
Atuação em Rede
O Projeto Rede Solidária de Mulheres de Sergipe atua diretamente na capacitação, implementação e manutenção dos Quintais Produtivos por meio de oficinas de Agroecologia, promovendo a criação de hortas coletivas, sistemas agroflorestais (SAFs) e o enriquecimento das áreas produtivas com árvores nativas e frutíferas, hortaliças, plantas medicinais, PANCs, trepadeiras, adubadeiras e forrageiras, além da criação de pequenos animais.
O objetivo central é garantir a produção de alimentos livres de agrotóxicos, fortalecendo a autonomia das mulheres, a renda familiar, a conservação ambiental e a defesa dos territórios. Atualmente, o projeto conta com 13 Quintais Produtivos em produção agroecológica; 03 Sistemas Agroflorestais (SAF) nos territórios de Aguada (Carmópolis), Lagoa do Junco (Poço Verde) e Flexeiras (Santo Amaro das Brotas), e 10 quintais com hortas em espaços coletivos ou individuais nos povoados São José (Japaratuba), Marimbondo (Pirambu), Porteiras (Japaratuba), Alagamar (Pirambu), Mundéu da Onça (Neópolis), Malhadinha (Poço Verde), Manoel Dias (Estância), e Lagoa do Junco (Poço Verde), e nas cidades de Aracaju e Divina Pastora.
Durante as oficinas e no dia a dia dos quintais, as mulheres desenvolvem práticas agroecológicas como o manejo das plantas com podas, tutoramento, irrigação controlada, capina manual e adubação orgânica, o manejo do solo com cobertura vegetal, consórcios de culturas, compostagem, esterco animal e biofertilizantes naturais, o manejo da irrigação com tecnologias simples, como garrafa PET e mangueiras, além da produção e aplicação de defensivos naturais e o uso de plantas medicinais e produção de fitoterápicos.
Experiências que transformam
Os Quintais Produtivos têm impactado profundamente a vida das mulheres da Rede e de suas famílias. Dinalva Alves, do povoado Lagoa do Junco, no município de Poço Verde, compartilhou sua experiência exitosa e não poupou elogios às práticas agroecológicas. “Gostei muito do trabalho, da experiência, do conhecimento das pessoas. Peguei mais amizade, mais intimidade, mais sabedoria. Eu amei o trabalho, gostei muito. E eu espero que continue, pois é muito importante para nós”, pontuou.
Já Dona Nazaré, do povoado Pontal da Barra, em Barra dos Coqueiros, relembra a transformação do seu quintal com muita alegria. “Quando o projeto chegou aqui, no quintal tinha só uma macaxeira, um cajueiro e umas acerolas. Depois, com as orientações, nós plantamos muita coisa. Mesmo sendo terra de areia, conseguimos produzir couve, alface, coentro, tomate, cenoura, beterraba, batata-doce, feijão. Tudo deu. Eu gostei demais e quero que continue”, reforça.
No povoado Flexeiras, em Santo Amaro das Brotas, Angélica dos Santos destaca a dimensão coletiva da experiência. “A experiência foi muito boa. Transformamos um ambiente que era uma lixeira em um espaço agroflorestal. Aprendemos muito sobre plantio, cobertura dos canteiros, defensivos naturais. Foi bom para a gente e para a comunidade. Hoje temos acerola, tomate, couve, berinjela, manga, mamão e muitas outras coisas”, conclui.
Para a coordenadora geral do projeto, Mirsa Barreto, os Quintais Produtivos são uma estratégia concreta de enfrentamento à fome e às desigualdades. “Os quintais mostram que é possível produzir alimentos saudáveis, fortalecer a autonomia das mulheres e cuidar do meio ambiente ao mesmo tempo. É uma tecnologia social que transforma realidades, gera renda, promove saúde e fortalece os territórios”, celebra.
Semeando autonomia, alimento e futuro
A tecnologia social dos Quintais Produtivos tem contribuído para a formação continuada em agroecologia, a organização social autogestionária, a produção de alimentos saudáveis e diversificados, a promoção da segurança alimentar e nutricional, a geração de renda, a preservação ambiental e a valorização dos saberes locais.
Mais do que produzir alimentos, os quintais cultivam autonomia, dignidade e esperança, fortalecendo o papel das mulheres como protagonistas na construção de um futuro mais justo, sustentável e solidário.