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Aracaju (SE), 31 de agosto de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 31/08/2026 às 09:04
Pub.: 31 de agosto de 2026

Cazuza, Miralda e Mariinha :: Por José Lima Santana

José Lima Santana*

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal/José Lima Santana)

Cazuza de Felinto Ferida Braba enamorou-se de Mariinha de Antônio Labuar, da
casa de farinha do beco de Belarmino do finado Tonho Boca de Sapo. Casa de farinha que era cedida, mediante paga, a quem dela precisasse.

Antônio Peida Fino namorava com Miralda, irmã de Mariinha. Era um namoro chocho, vai-não-vai, que terminavam e voltavam. Peida Fino (apelido infeliz!) era do tipo de galinha que ciscava em muitos terreiros. Só porque tinha uma Lambreta, achava-se o rei da cocada preta. Lambreta velha, apanhada de terceira mão a Milton operador do projetor de filmes, no Cine São José. Ah, como as fitas quebravam!

Eis que, pela quarta ou quinta vez, em um ano, Peida Fino acabou o namoro com Miralda. E sabia-se lá porquê. Saiu dizendo besteiras. Antônio Labuar arretou-se com Peida Fino e esbravejou: “Aquela carniça não pisa mais os pés aqui em casa. Se pisar, corto no facão”. E cortava mesmo. Homem sereno, porém, quando azuletado, era capaz
de acabar com meio-mundo. 

Cazuza também acabaria o namoro com Mariinha, um mês depois. Respeitoso, saiu calado, sem dizer um pio. Duas irmãs chorosas na mesma casa. Passaram-se três meses. Mariinha e Miralda eram da escola da professora Lídia, onde, atrasadas, ainda estudavam, para casa. De casa para a feira, onde a mãe Dona Delfina vendia guloseimas: saquaremas, manauês de milho, de macaxeira e de arroz, cocada branca e preta, além de pés-de-moleque, arroz doce e mungunzá. A cocada preta era de chamar à gula qualquer vivente, que no bucho tivesse lombrigas famintas, no dizer de Aurelino Três Pernas, negro valente como um caititu encurralado.

Numa tarde de sábado, Antônio Labuar, tirando uma prensa de massa, na casa de farinha, e as duas mocinhas ajudando Dona Delfina nos corre-corres da labuta doceira, eis que Cazuza, o ex-namorado de Mariinha, deu de cara com o ex-futuro-sogro. “Boa tarde, ‘seu’ Antônio”. Conversa ligeira. O pai das moças, surpreendido pela conversa de
Cazuza, gritou por Miralda: “Ô dona Miralda, faça o favor de vir aqui”!

Miralda apareceu, as mãos sujas de tapioca, pois estava ajudando no preparo de saquaremas, as deliciosas bolachas de goma de Dona Delfina. “Oi, pai”! O pai, como um boi zangado, arregalou os olhos: “Que história é essa de Cazuza, que largou sua irmã no choro há três meses e vem, agora, dizer que quer namorar com você, hein”? A moça ficou surpresa. 

“Eu não sei de nada, meu pai. Cazuza tá regulando bem dos miolos”? Foi um Deus nos acuda. Depois de muito dialogar, Cazuza, que era um bom rapaz, recebeu a promessa de Antônio de que iria pensar no assunto, após conversar com as duas filhas.

Passaram-se duas semanas desde aquela tarde de sábado, e eis que Cazuza de Felinto Ferida Braba passou a namorar com a ex-futura-cunhada Miralda, ex-namorada do dono da Lambreta. Mais seis meses, os dois pombinhos estavam de aliança no dedo, ou seja, noivos. Preparativos para o enxoval de Miralda. Cazuza estava finalizando a casa, construída em terreno anexo à casa de seus pais, filho único que era. Aproximava-se o dia do casamento. Padrinhos convidados, dos dois lados.

Vestido de noiva costurado por Dona Elvira de Zezinho Alvoroço, afamada costureira da cidade, com encomendas vindas de várias localidades. O padre Manoel Monte reservou a data pretendida pelos noivos. Mariinha ajudava a irmã nos preparativos, sem demonstrar nenhum sentimento ou contrariedade, com o seu ex-namorado prestes a casar com a irmã mais nova. Coisas da vida. Coisas de Deus?

Um mês antes de a papelada ser levada ao cartório de Francisquinho e à Paróquia, deu-se o despautério. Manhã de domingo, cadê Mariinha? O dia raiou e ela não estava em casa. Fugiu, na madrugada. Com quem? Com Cazuza. Sim. Isso mesmo. Vai-se entender a psicologia dos moços. Ou dos moços daquele tempo. Miralda derramou mais lágrimas do que a cacheira do riacho do Dandá derramava de água por um dia inteiro, no inverno. Dona Delfina teve um ataque. Depois, um acesso de fúria. Acalmou-se. Não tinha o que fazer. Antônio Labuar bufou. Ameaçou Deus e o mundo. Para quê? Só restava casar a filha de miolos moles. Casamento feito.

Na celebração matrimonial, o padre Manoel Monte alertou: “Tu, Cazuza, não penses que és Jacó, que teve duas irmãs como suas esposas. Não. Tu somente terás Mariinha, seu primeiro amor. E único. Estás ciente disto”? Amarelo, Cazuza, bateu os olhos e acenou positivamente com a cabeça. Viveram felizes, muito felizes, com os seis filhos, que vieram a galope.

*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.
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