Pesquisa com veneno de abelhas amplia investigação sobre mecanismos da fibromialgia
Estudos da Unit analisaram efeitos sobre dor, movimento, ansiedade, depressão e possíveis alterações relacionadas à neuroinflamação
A fibromialgia envolve um conjunto de manifestações que podem incluir dor persistente, aumento da sensibilidade dolorosa, mudanças na atividade motora e sintomas relacionados à ansiedade e à depressão. Na busca por compreender melhor os processos envolvidos na condição e ampliar as possibilidades de estudo, uma pesquisa realizada na Universidade Tiradentes (Unit) investigou os efeitos do veneno de abelhas africanizadas em um modelo experimental de fibromialgia.
A investigação resultou em três trabalhos científicos, cada um voltado para diferentes respostas apresentadas pelos animais durante o tratamento experimental. Foram analisados aspectos relacionados à dor e aos movimentos, possíveis modificações estruturais na medula espinal e comportamentos associados a quadros de ansiedade e depressão.
Realizado de 8 a 12 de setembro, em Foz do Iguaçu (PR), o World Congress of Inflammation 2026, ou Congresso Mundial de Inflamação 2026, recebeu os trabalhos produzidos por estudantes e professores da Unit. O encontro reuniu pesquisadores, profissionais da área da saúde e estudantes brasileiros e estrangeiros para discutir temas ligados à inflamação, imunologia e doenças inflamatórias crônicas.
No congresso
A apresentação dos três estudos ficou a cargo dos estudantes de Medicina Bruno Borja de Aquino e Giovanna Rocha de Souza, sob orientação da professora doutora Camila Gomes Dantas, docente dos cursos de Medicina e Fisioterapia da Unit.
Também integraram as pesquisas Gabriel Henrique Correia da Silva, egresso de Fisioterapia e ex-aluno de iniciação científica; Crisdan Cainã Costa Chagas e Clayton de Jesus Barbosa, estudantes de Medicina da Unit; e Edna Aragão Farias Cândido, professora de Fisioterapia e do Programa de Pós-Graduação em Biociências e Saúde (PBS).
A seleção dos trabalhos para o congresso possibilitou levar resultados obtidos durante a iniciação científica para um espaço de discussão com pesquisadores de diferentes áreas. Para Camila Dantas, esse contato é relevante para a formação acadêmica dos estudantes por colocá-los diante de um público científico diversificado e de instituições de diferentes países.
“É uma alegria muito grande ver alunos tão dedicados e responsáveis, em mais um desafio, de apresentar os trabalhos em outro idioma e para um público tão seleto. E eles foram maravilhosos!”, destaca a orientadora.
Os estudos também estão vinculados a dois programas de Iniciação Científica, desenvolvidos com bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (FAPITEC/SE). No caso de Giovanna, a participação no congresso teve ainda o suporte do Programa de Apoio a Eventos e Capacitação (PAEC), da Unit.
A investigação
A definição do veneno de abelhas africanizadas como objeto da pesquisa está associada, segundo Camila, às características da fibromialgia e aos efeitos biológicos identificados em estudos anteriores. Apesar de a síndrome ser tradicionalmente relacionada à sensibilização do sistema nervoso central, outras pesquisas também analisam a influência de processos inflamatórios e de mecanismos ligados à neuroinflamação.
Nesse contexto, está o veneno produzido pela Apis mellifera. “A substância é formada por uma combinação de peptídeos, enzimas e outras moléculas que podem atuar sobre diferentes mecanismos do organismo. Entre seus componentes está a apamina, um peptídeo que interfere na atividade de determinados canais de potássio presentes em células nervosas. A pesquisa busca compreender se essas características podem estar relacionadas aos efeitos observados no modelo experimental de fibromialgia”, explica Camila.
O estudo representa uma continuidade de uma investigação anterior conduzida pelo grupo coordenado por Camila Dantas. Conforme Bruno, os primeiros experimentos tiveram a participação de Crisdan, Clayton e Gabriel, responsáveis pela realização dos testes comportamentais. Em uma etapa posterior, ele e Giovanna assumiram as análises histopatológicas da medula espinal dos animais.
“Foram utilizados camundongos fêmeas, considerando a maior prevalência da fibromialgia entre mulheres. O modelo experimental foi induzido com reserpina, substância capaz de provocar alterações relacionadas à dor e ao funcionamento motor. Os animais receberam diferentes doses do veneno de abelhas africanizadas e passaram por testes destinados a avaliar movimentos, sensibilidade à dor, ansiedade e comportamentos relacionados à depressão”, detalhou Bruno.
Resultados observados
Nos testes comportamentais, os animais que receberam o veneno apresentaram diminuição dos déficits motores e da hipersensibilidade dolorosa. Os pesquisadores também verificaram mudanças favoráveis nos comportamentos relacionados à ansiedade e à depressão. Os resultados compuseram um dos três trabalhos levados ao congresso, com o título Africanized bee venom modulates motor and nociceptive symptoms in an animal model of fibromyalgia.
A análise dos aspectos emocionais ganhou importância porque os efeitos da fibromialgia não estão restritos às manifestações de dor. A exposição contínua à dor crônica pode estar relacionada a alterações psicológicas, o que torna necessária a observação de diferentes aspectos da condição no modelo experimental utilizado.
Giovanna integrou essa etapa da investigação e avalia que os achados possibilitaram uma compreensão mais abrangente da doença. “Foi observado que o veneno de abelha não apenas demonstrou eficácia na redução dos sintomas motores, mas também apresentou um potencial significativo para atenuar comportamentos sugestivos de depressão e ansiedade durante os testes experimentais em modelos animais”, explica.
Outra parte do estudo teve como objetivo verificar possíveis alterações estruturais provocadas pelo tratamento. Para isso, os pesquisadores realizaram análises histopatológicas da medula espinal dos animais e identificaram sinais de um possível efeito modulador sobre a ativação glial e a neuroinflamação, principalmente na maior dose utilizada nos experimentos.
A partir desses achados, foi elaborado o trabalho Histomorphological evaluation of Africanized bee venom (Apis mellifera Linnaeus) therapy in experimental fibromyalgia, de autoria de Bruno, Giovanna, Edna e Camila. Os resultados estruturais complementam as observações comportamentais ao permitir a análise de possíveis mudanças nos tecidos, além das respostas apresentadas pelos animais nos testes.
Bruno considera que dar continuidade às etapas da investigação foi importante para aprofundar a interpretação dos resultados. “Os estudos comportamentais, obtidos pelos colegas anteriormente, já geraram pedido para depósito de patente. Agora, mediante nossos resultados histopatológicos, que complementaram as análises, trabalharemos em prol da submissão do artigo científico”, afirma.
O terceiro estudo apresentado no congresso recebeu o título Bee venom attenuates depressive and anxious phenotypes in a murine model of fibromyalgia e teve a participação de Bruno, Giovanna, Gabriel, Crisdan, Clayton e Camila. O trabalho é direcionado aos efeitos identificados nos comportamentos relacionados à depressão e à ansiedade, completando as diferentes frentes de análise conduzidas pela equipe.
Próximos passos
Mesmo diante dos resultados encontrados, a equipe destaca que o estudo permanece no campo pré-clínico. Os experimentos foram realizados em animais e, portanto, não permitem concluir que o veneno de abelha possa ser empregado como tratamento para pessoas com fibromialgia.
Uma eventual aplicação clínica dependeria ainda de outras etapas de investigação, incluindo estudos sobre os mecanismos de ação, segurança, toxicidade, definição de doses, além de análises farmacocinéticas e farmacodinâmicas. “Somente depois de resultados pré-clínicos consistentes seria possível avançar para estudos clínicos em seres humanos, mediante as avaliações éticas e regulatórias necessárias”, elenca Bruno.
A participação no projeto também tem reflexos na formação acadêmica dos estudantes. Para Giovanna, a iniciação científica modificou sua percepção sobre a Medicina ao permitir acompanhar o percurso entre uma hipótese investigada em laboratório e a possível elaboração de uma nova abordagem terapêutica.
“A iniciação científica me transportou para uma nova dimensão da Medicina, fazendo-me compreender profundamente todo o rigoroso processo de estudo que antecede a disponibilização de um medicamento, a formulação de um tratamento alternativo ou a mudança em uma conduta clínica”, conta.
A preparação para o congresso trouxe ainda outro desafio para a estudante: apresentar os resultados em inglês. A experiência contribuiu para ampliar sua visão sobre a carreira e despertou o interesse em continuar atuando na pesquisa científica. “Essa vivência despertou em mim o forte desejo de, no futuro, sentar-me à mesma mesa de discussões que eles, tornando-me uma profissional com sólida bagagem em pesquisa, motivada pela convicção de contribuir para o desenvolvimento científico do nosso país”, afirma.
Para Camila Dantas, a iniciação científica coloca os estudantes em contato direto com o processo de produção do conhecimento que fundamenta a prática médica. Ao participar de uma investigação, eles exercitam a elaboração de perguntas, a interpretação de resultados e a análise crítica das evidências antes de utilizá-las como base para decisões. “A experiência da iniciação científica contribui para a formação de médicos capazes de perguntar, investigar, avaliar criticamente as evidências e tomar decisões clínicas responsáveis e fundamentadas”, finaliza.