JOÃO ALVES FILHO? NÃO DÁ PARA COMPARAR :: Por José Lima Santana
José Lima Santana*
A burrice anda solta. Aliás, no apólogo “O rei reina e não governa” (1870), poema no qual desdenhava da monarquia, o genial Tobias Barreto de Menezes, que era antimonarquista convicto, mostrou toda a verve satírica que lhe acompanhava, ao versejar: “Não sei por que a língua humana / Os brutos não falam mais, / Quando hoje têm melhor vida, / E há muita besta instruída / Nas ciências sociais...” Ora, imaginemos se Tobias estivesse hoje neste nosso chão, quando há muito mais bestas do que ciências.
Goste-se ou não de João Alves Filho, quem haverá de negar o seu legado administrativo como governador em três mandatos, eleito em 1982, 1990 e 2002? Obviamente, eu sou suspeito ao falar nele e em suas realizações, porquanto trabalhei em cargos comissionados nos seus três mandatos. Todavia, não posso deixar de reconhecer certas falhas suas, que, ainda assim, não lhe turvam o aspecto de bom administrador, de planejador e de realizador.
Não gosto de fazer comparações, até porque, nesse caso, ficaria difícil, posto que nenhum outro sergipano governou o nosso Estado por três mandatos. Somente o Negão.
As realizações de João Alves, deixando de lado os dois mandatos como prefeito de Aracaju, no último deles, sendo eleito (o primeiro ainda fora no tempo de indicação do governador à Assembleia Legislativa, na década de 1970, sob a abjeta ditadura militar), e, neste, bem diferente do primeiro mandato, tendo deixado muito a desejar, em face, sobretudo, de sua condição de saúde, repercutem ainda hoje, e haverão de repercutir por muito tempo.
Repito: não dá para comparar. Estiquemos o pescoço para trás. Olhemos, para os idos do tempo, e veremos o que ele nos deixou, o que ele legou a Sergipe, em várias áreas da gestão pública.
Uma pálida demonstração do que João Alves fez em Sergipe pode ser encontrada no livro “ELE, descrito por eles”, obra coletiva, com descrição de alguns de seus auxiliares diretos. O livro mostra apenas uma parte do que João realizou. Apenas alguns de seus ex-secretários escreveram. Considerando os três mandatos, foram poucos os que escreveram. Considerando suas realizações, nem todas foram elencadas.
Deveras, não dá para comparar o que João Alves fez com qualquer outro governante sergipano. E olhe que ele não entregou à inciativa privada suas duas maiores empresas prestadoras de serviços: a ENERGIPE e a DESO, em parte. Diga-se de passagem, que ele jamais faria isso. João da Água, como também ficou conhecido, privatizar a parte de distribuição de água, captação e tratamento de esgoto da DESO? Nem em sonho. João Chapéu de Couro, que se desvelou para levar água a vários rincões do nosso Estado, que se esforçou para acabar com casas de taipa, pelo interior afora? Não. João era da água para todos. Contem-se as adutoras, os sistemas integrados ou isolados, as inúmeras localidades servidas por água, nos seus três mandatos.
Vejam a Saúde, pasta que, sabe-se lá por que cargas d’água, eu acabei ocupando, em seu terceiro mandato, por um ano, cinco meses e seis dias. Na primeira gestão, ele construiu o mais amplo espaço público para a saúde, o Hospital João Alves Filho, como eu sempre preferi chamar, mesmo após o terem denominado de HUSE, por um tempo, bem como construiu, no terceiro mandato, a Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, para atender partos de alto risco, além de ter implantado o SAMU estadual, pois à época, já havia o SAMU municipal, depois integrados. O primeiro concurso do SAMU foi realizado em fevereiro de 2006, quando eu estava à frente da Secretaria da Saúde. Isso e muito mais, na Saúde, eu descrevi no livro citado. E ainda mais, claro, poderá ser descrito pelos demais secretários que ocuparam a referida pasta.
Será preciso que outros colaboradores de João Alves possam se debruçar sobre mais feitos do Negão. Há muitos. Muitos ainda a ser enfatizados.
João Alves tornou-se um divisor de águas na política sergipana, trazendo novo alento à política e à gestão pública no nosso Estado. João encantou o povo, convergiu para si grande parcela dos políticos sergipanos, que almejavam por um líder carismático, mas que tivesse o pensamento voltado para o desenvolvimento de Sergipe. Ao seu modo, ele voltou-se para atender antigos reclamos da população. Fez o que pôde. E não foi pouco.
Não dá para comparar. Quem o fizer, e já teve quem fizesse, estupidamente, estará dizendo besteira. Cada um no seu quadrado. Há quadrados ampliados, há quadrados medianos e há quadrados raquíticos. No meio de tudo, há muita burrice saltitando por aí.
O quadrado onde João esteve é muito amplo. De novo, eu digo: não dá para comparar.