A minha, a sua, a nossa Mulher Maravilha :: Por Bia Muniz
Ah, meu Deus. Eu não poderia deixar de falar dessa mulher. Eu, que já me achei plenamente realizada, com diplomas na parede, carreira consolidada, reconhecimento público e trajetória acadêmica respeitável, precisei recalibrar minha régua diante de Tatiana Lobo Coelho de Sampaio. Porque há uma diferença brutal entre sucesso pessoal e relevância histórica. E Tatiana não construiu uma biografia vaidosa. Construiu uma possibilidade concreta de devolver movimento a quem havia perdido quase tudo.
Professora associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, doutora em Ciências Biológicas, chefe de laboratório, pesquisadora com mais de duas décadas dedicadas à biologia regenerativa, ela não surgiu do nada nem de viralização oportunista. Sua trajetória é acadêmica, sólida, construída em silêncio metodológico. Enquanto o Brasil se entretinha com manchetes leves e disputas ideológicas rasas, ela estudava a matriz extracelular, aquele microambiente onde neurônios crescem, se organizam e se conectam.
A polilaminina, frequentemente chamada de vacina nas redes sociais, não é vacina no sentido clássico, mas uma abordagem terapêutica experimental baseada na proteína laminina, fundamental no desenvolvimento neural. A ideia é simples e sofisticada ao mesmo tempo: usar a própria lógica biológica do corpo para estimular regeneração em lesões medulares. Isso não é discurso místico, é engenharia biológica aplicada. E quando pacientes tetraplégicos e paraplégicos relatam recuperação de movimentos em protocolos clínicos autorizados, não estamos diante de fantasia. Estamos diante de ciência.
E é aqui que a indignação começa a ganhar contorno político. A pesquisadora já relatou que o Brasil perdeu a proteção internacional da patente por falta de pagamento das taxas no exterior, em meio a cortes orçamentários que atingiram duramente universidades federais a partir de 2015 e 2016, durante o governo Dilma. Perder patente internacional significa abrir mão da exclusividade global de exploração tecnológica. Significa que outros países podem copiar. Significa que o Brasil cria e o mundo comercializa.
Esse não é um detalhe burocrático. É um erro estratégico. País que investe décadas em pesquisa e não protege sua propriedade intelectual está dizendo, em alto e bom som, que não sabe transformar conhecimento em soberania. A perda da patente não é apenas falha administrativa. É sintoma de um modelo que trata ciência como despesa e não como ativo estratégico. E isso atravessou governos, porque o desmonte do financiamento científico não começou ontem nem terminou hoje.
Enquanto isso, assistimos a bilhões sendo discutidos em escândalos envolvendo o Banco Master, investigações sobre operações financeiras, suspeitas que atingem fundos garantidores e impactam inclusive sistemas ligados ao INSS e aos Correios. Quando o assunto é rombo financeiro, a mobilização é imediata. Quando o assunto é laboratório público sem verba, a resposta é silêncio técnico e nota protocolar. A diferença de tratamento revela a hierarquia real de prioridades.
E há ainda a contradição simbólica. O governo federal anunciou repasses milionários para o Carnaval, cifras que ultrapassam dezenas de milhões de reais em apoio cultural e turístico. Carnaval é cultura, é economia, é identidade nacional. Mas quando uma universidade federal enfrenta cortes de água, de energia, de insumos básicos para pesquisa, a pergunta que ecoa é simples: onde está o planejamento? Onde está o pacto estrutural pela ciência? A UFRJ não pode ser tratada como peso orçamentário quando abriga pesquisas capazes de transformar a vida de milhares.
A fala de reitores denunciando falta de recursos não é dramatização. É alerta institucional. Universidade pública não é luxo ideológico. É infraestrutura de país desenvolvido. Cada contingenciamento sucessivo envia ao pesquisador a mensagem de que seu trabalho é negociável. E ciência não floresce em ambiente de improviso permanente.
Agora, voltemos ao contraste social que escancara a distorção cultural brasileira. Influenciadoras com milhões de seguidores dominam timelines, campanhas publicitárias e debates superficiais. Mulheres bonitas, carismáticas, empresárias da própria imagem. Não é a beleza que está em julgamento. É o culto desproporcional à visibilidade vazia. O Brasil transforma estética em mérito e ignora densidade intelectual.
Durante o Carnaval, musas são celebradas como símbolos máximos de representação nacional. Corpos expostos, holofotes, patrocínios. Enquanto isso, uma pesquisadora que dedica 25 anos à biologia regenerativa mal recebe reconhecimento institucional consistente. O problema não é a festa. É o desequilíbrio. É a inversão de centralidade.
Tatiana não vende produto. Não faz publi. Não dança para algoritmo. Ela lidera um laboratório, orienta alunos, publica artigos, coordena equipe multidisciplinar, enfrenta trâmites regulatórios complexos e ainda precisa justificar por que ciência merece orçamento. Essa mulher não é apenas relevante. Ela é estratégica. Ela é o tipo de profissional que define se o Brasil será consumidor ou produtor de tecnologia.
Quando um país não enaltece suas cientistas, mas transforma entretenimento em eixo civilizatório, ele escolhe viver de curto prazo. E curto prazo não constrói soberania. O retorno social de uma pesquisa que pode devolver mobilidade a pessoas com lesão medular não é apenas médico. É econômico, psicológico, familiar, previdenciário. É redução de custo público a longo prazo. É dignidade humana restaurada.
Eu escrevo este editorial não como militante, mas como jornalista que aprendeu a cruzar dados, discursos e prioridades. O Brasil não olha para essa mulher como deveria. Não transforma seu trabalho em projeto de Estado. Não a protege com a robustez institucional que protegeria um ativo estratégico nacional. E isso revela uma imaturidade estrutural.
Enaltecer Tatiana não é ato simbólico. É reconhecer que ciência é a única forma sustentável de desenvolvimento. É pressionar governos, atuais e passados, a assumirem responsabilidade por cortes que comprometeram patentes, por falta de planejamento que fragilizou universidades, por negligência que custou protagonismo internacional.
Se queremos ser um país sério, precisamos inverter a lógica da celebração. Influência não pode valer mais que impacto. Aparência não pode pesar mais que descoberta. E governo nenhum deveria sair ileso quando a ciência brasileira perde espaço por falta de investimento. Eu sou Bia Muniz. E não escrevo para agradar. Escrevo para lembrar que na história das nações, quem escolhe o entretenimento como prioridade e negligencia a ciência acaba sempre pagando a conta.
Matéria cedida pelo Portal de Notícias Fausto Leite, para publicação na íntegra.