Educação alimentar vira brincadeira e conquista crianças em escola de Aracaju
Desenvolvido por alunos de Medicina da Unit no bairro Santa Maria, o projeto “Nutrição Divertida” combateu a seletividade alimentar e incentivou escolhas mais saudáveis com apoio de pais e professores
O estímulo à alimentação saudável através de divertidas atividades educativas, como jogos interativos, brincadeiras e outras atividades. Esta ação educativa vem sendo desenvolvida em uma escola pública do bairro Santa Maria, na periferia de Aracaju, a partir de um projeto de extensão desenvolvido por estudantes de Medicina da Universidade Tiradentes (Unit).
É o projeto “Nutrição Divertida: aprendendo a comer bem”, que foi realizado ao longo do ano passado na Escola Estadual Wolney Leal de Melo. Ele foi um dos 129 projetos que foram reconhecidos em março deste ano com o Selo ODS Educação, certificação nacional promovida pelo Instituto Selo Social para contemplar iniciativas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Social (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU)
A ação inicial ocorreu entre março e outubro de 2025 por 10 estudantes, como parte de uma disciplina de extensão universitária do curso de Medicina. Ele foi elaborado a partir da constatação de que as crianças da escola, entre 6 e 8 anos de idade, rejeitavam a merenda e possuíam má alimentação com altos índices de deficiências nutricionais, comprometendo o desenvolvimento físico e cognitivo. Os trabalhos começaram após a assinatura de um Termo de Cooperação Técnica entre a Unit e a Secretaria de Estado da Educação (Seed).
“O projeto nasceu da percepção de que a infância é o momento crucial para formar hábitos alimentares. Percebemos que apenas falar sobre 'comer bem' não era o suficiente; precisávamos de algo que falasse a língua das crianças.
O objetivo é promover a educação alimentar e nutricional de forma leve, combatendo a obesidade infantil e a seletividade alimentar, ensinando as crianças a identificar os grupos alimentares por conta própria”, explicou a professora Tamires Freire de Carvalho Santana Andrade, preceptora de Extensão do curso de Medicina e orientadora do projeto.
A Escola Wolney de Melo, que faz parte da rede estadual de ensino, conta atualmente com 30 colaboradores e 310 alunos distribuídos em 12 turmas do primeiro ao quinto ano do Ensino Fundamental, nos períodos da manhã e da tarde.
Em seu início, o projeto Nutrição Divertida impactou cerca de 25 crianças e seus familiares. Hoje, com a continuidade dada pela própria escola, ele alcança diretamente toda a comunidade escolar, incluindo os pais e responsáveis dos alunos.
Através do projeto, os alunos da Unit produziram jogos educativos para apresentar os alimentos saudáveis às crianças, além de cartilhas informativas entregues a pais e professores. Tudo foi elaborado a partir das diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira, cujas informações foram adaptadas para uma linguagem visual e lúdica.
“Foi um processo criativo e técnico. Nós testamos cores, formatos e palavras que fizessem sentido para as crianças e seus familiares. Por fim, estendemos esse conhecimento para casa através das cartilhas enviadas aos pais”, resume Tamires, destacando que os alunos de Medicina planejaram as dinâmicas, mediaram as brincadeiras com as crianças e fizeram a ponte entre o conhecimento acadêmico e a comunidade.
Um dos jogos criados foi a entrega de “pratinhos” descartáveis às crianças, com figuras, fotos e representações de frutas, verduras, cereais, carnes e pratos já prontos; que eram organizados e apresentados conforme as classes de alimentos (proteínas, carboidratos, gorduras, etc);.
“A gente foi dando pratinhos para cada criança e várias imagens recortadas para que eles colocassem no pratinho aquilo que eles achavam ser saudável. E a gente ia percebendo que o que entrava no prato não era saudável de fato, mas sim aquilo que eles tinham em casa.
Se às vezes faltava carne em casa, como é que eles iam ter a visão de que aquele alimento era legal e positivo de ter na sua alimentação?”, conta a aluna Emilly Cristina Santos Aires, uma das participantes do projeto.
Ela relembrou outra ação que marcou o encerramento das ações da turma no projeto, quando os estudantes levaram para a escola uma série de alimentos naturais, como frutas, sucos, água de coco e de bolinhos com pouco açúcar e sem glúten para as crianças que tinham intolerâncias alimentares.
“A partir dessas atividades, a gente ia estimulando que essa criança pensasse diferente: ‘Poxa! Se a tia falou que o suquinho de caixa tem muito açúcar, então eu vou preferir o suco natural da fruta’. São detalhes minúsculos, mas a gente sabia que estava fazendo a diferença na vida daquelas crianças. Foi gratificante ver o sorriso delas no rosto”, emociona-se Emily.
Impacto positivo
De acordo com a professora Ana Flavia Virgínia de Lima, diretora da unidade de ensino, a participação da escola acontece de forma ativa, oferecendo apoio na organização das atividades e mobilização dos alunos e famílias, além do acompanhamento pedagógico das ações realizadas.
“Desde o início, a proposta despertou grande interesse da escola por abordar um tema extremamente importante para o desenvolvimento das crianças: a educação alimentar e os hábitos saudáveis.
Os estudantes participam de momentos educativos, dinâmicos e lúdicos, que tornam o aprendizado mais leve e significativo. Os professores e a equipe escolar também colaboram no incentivo e integração das atividades ao cotidiano escolar”, diz ela.
Ana Flávia destaca que a parceria com a Unit trouxe um impacto “extremamente positivo” para os alunos, pais e professores, principalmente no aumento da conscientização sobre alimentação saudável, higiene alimentar e qualidade de vida.
“As famílias também passam a refletir mais sobre os hábitos alimentares dentro de casa, fortalecendo a relação entre escola e comunidade. Para os professores, o projeto contribui como uma ferramenta complementar no processo de ensino e aprendizagem, trazendo temas importantes de maneira prática e interdisciplinar.
Além disso, iniciativas como essa fortalecem a formação cidadã dos estudantes e demonstram a importância da parceria entre universidade e escola pública, promovendo conhecimento, cuidado e transformação social”, atesta a diretora.