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Aracaju (SE), 26 de maio de 2026
POR: Marcio Rocha
Fonte: Marcio Rocha
Em: 26/05/2026 às 08:11
Pub.: 26 de maio de 2026

O Brasil entrou na roleta de Dostoiévski e está perdendo famílias, renda e futuro :: Por Marcio Rocha

Marcio Rocha*

Marcio Rocha - Foto: Arquivo Pessoal

Em O Jogador, Fiódor Dostoiévski não escreveu apenas sobre um homem viciado em roleta. Escreveu sobre a degradação humana provocada pela ilusão da riqueza fácil. Alexei Ivanovitch, protagonista do romance, acredita o tempo inteiro que está a um giro da fortuna definitiva. 

Mesmo perdendo dinheiro, dignidade, equilíbrio emocional e relações pessoais, continua apostando compulsivamente, porque o vício destrói justamente a capacidade de reconhecer o limite. Dostoiévski, que também enfrentou dependência em jogos, compreendia profundamente o mecanismo psicológico da aposta: o jogador não joga apenas para ganhar dinheiro; joga para alimentar esperança, adrenalina e uma falsa sensação de controle sobre a própria vida. Quase 160 anos depois, o Brasil transformou essa tragédia literária em realidade social de massa.

As bets deixaram de ser um simples entretenimento digital para se tornarem uma poderosa engrenagem de drenagem financeira das famílias brasileiras. O país naturalizou o cassino online. Ele está presente no futebol, nas redes sociais, nos aplicativos de celular, nos influenciadores digitais e até no discurso cotidiano de jovens que passaram a enxergar a aposta como possibilidade legítima de ascensão financeira. 
O problema é que esse modelo econômico só funciona porque milhões perdem continuamente. Levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostra que as apostas online drenaram R$ 143 bilhões do varejo brasileiro entre até o fim de 2025. 

É dinheiro que deixou de circular na economia real, em supermercados, farmácias, lojas de roupas, padarias, serviços, material escolar, para alimentar plataformas cuja lucratividade depende exatamente da derrota financeira do apostador. Pior ainda: cerca de 270 mil famílias brasileiras mergulharam na inadimplência diretamente associada às apostas digitais. O impacto econômico é devastador, mas o social talvez seja ainda mais cruel.

As bets estão silenciosamente corroendo estruturas familiares, destruindo planejamentos financeiros e produzindo um ciclo emocional semelhante ao descrito por Dostoiévski no século XIX. Pais escondem dívidas, salários desaparecem antes do fim do mês, trabalhadores comprometem renda básica em apostas impulsivas e jovens passam a acreditar que enriquecer depende mais de sorte do que de estudo, trabalho e construção patrimonial. 

O Brasil criou uma geração exposta diariamente à propaganda da riqueza instantânea. Influenciadores digitais exibem ganhos irreais, celebridades emprestam credibilidade às plataformas e o futebol brasileiro foi tomado por marcas de apostas que associam compulsão ao entretenimento esportivo. 

O mais perverso é que boa parte das pessoas que apostam não está buscando diversão; está tentando escapar do sufoco financeiro, da inflação, do desemprego e da falta de perspectivas econômicas. A aposta se vende como esperança. Mas, na prática, funciona como mecanismo de aprofundamento da fragilidade social.
Em Sergipe, o problema tende a produzir consequências proporcionais igualmente preocupantes. 

O estado responde por aproximadamente 0,7% da movimentação do comércio nacional. Aplicando proporcionalmente o impacto calculado pela CNC, o presidente da Fecomércio Sergipe, Marcos Andrade, informa que possível estimar que R$ 1 bilhão tenha sido retirado da circulação econômica sergipana nos últimos anos por causa das apostas digitais. 

Para uma economia fortemente dependente do consumo das famílias e do desempenho do pequeno comércio, esse número representa um dano gigantesco. É menos dinheiro circulando nos bairros, menos vendas no comércio popular, menos capital de giro para pequenas empresas, menor capacidade de contratação e aumento do endividamento familiar. As bets não geram riqueza local. 

Elas sugam riqueza local. O dinheiro sai da economia produtiva, do pequeno empreendedor, do atacado, das farmácias, do varejo de bairro e migra para plataformas digitais que frequentemente operam fora do estado e até fora do país.

Dostoiévski provavelmente enxergaria o Brasil atual como a versão moderna e ampliada da tragédia humana que descreveu em O Jogador. A diferença é que, no século XIX, era necessário entrar em um cassino para perder tudo. Hoje, o cassino está dentro do bolso de cada cidadão, funcionando vinte e quatro horas por dia, impulsionado por algoritmos que aprendem padrões emocionais e incentivam o comportamento compulsivo. 

O vício moderno não precisa mais de fichas nem de salões luxuosos; basta uma tela iluminada e a promessa de que “a próxima aposta” mudará a vida do jogador. É exatamente essa armadilha psicológica que transforma esperança em dependência e dependência em destruição econômica.

O Brasil está diante de um problema que deixou de ser apenas individual para se tornar uma questão econômica, social e de saúde pública. As bets estão drenando consumo, ampliando inadimplência, desorganizando famílias e alimentando uma cultura perigosa de enriquecimento instantâneo. 

Como Alexei, personagem de Dostoiévski, milhões de brasileiros continuam acreditando que estão a uma aposta da solução definitiva. Enquanto isso, perdem patrimônio, estabilidade emocional, relações pessoais e futuro financeiro. 

No fim, a maior vitória das plataformas de apostas talvez não esteja apenas no lucro bilionário que acumulam, mas na capacidade de convencer pessoas desesperadas de que destruir a própria vida pode parecer uma oportunidade.

*Jornalista formado pela UNIT, radialista formado pela UFS e economista formado pela Estácio, especialista em jornalismo econômico e empresarial, especialista em Empreendedorismo pela Universitat de Barcelona, MBA em Assessoria Executiva e MBA em Business Intelligence com experiência de 26 anos na comunicação sergipana, em rádio, impresso, televisão, online e assessoria de imprensa.

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